terça-feira, 4 de dezembro de 2012

COMO VIVER NUM CORPO QUE NÃO SE VÊ?

Por Amanda Bragion



“Eu sou o meu corpo, sou espaço, sou tempo, sou lugar, sou linguagem, sou gesto. Em suma, sou o meu corpo, um corpo próprio, vivido, que vive experiências numa realidade concreta. Nesta realidade, neste mundo externo que habito, a minha universalidade encontra a universalidade do outro, que a limita”.
Joel Martins



Refletir sobre corpo significa refletir sobre todas as questões que envolvem este corpo. É o corpo vivido e experimentado. Descrever um corpo não é descrevê-lo somente tal qual sua forma, mas principalmente como ele se manifesta. Volta-se ao corpo considerando que, antes daquilo que é objetivo, há um sujeito que o vivencia. Antes de todo conhecimento sobre o corpo é necessário considerar que há uma vida que o fundamenta.

Ao investigar o fenômeno Corpo, devem-se compreender as experiências vividas pelos sujeitos ao qual este corpo é pertencente, descrições desses sujeitos a respeito da sua experiência corporal.

O corpo que não se pode ver é, justamente, a essência do corpo, aquilo que constitui o corpo. É o homem como corpo próprio, em um lugar, em um tempo, em ação, no mundo onde habita. O corpo próprio é o sujeito percebedor, o modo de ver o mundo, a estrutura espaço-temporal da experiência perceptual.

Através da percepção fundada no corpo, todas as coisas do mundo tornam-se prolongamento da pele, limite da percepção. A experiência do mundo ocorre no corpo, e é fundamental para o processo de conhecimento próprio, pois é no próprio corpo onde se localizam as percepções de mundo. A percepção não é neutra, imparcial, ela sofre influências culturais e sociais, e o modo como cada um experimenta a si próprio depende da maneira como ele internaliza o que lhe é proposto socialmente, ainda que muitas vezes não se dê conta de tal influência.

A percepção possui algumas características que a fundamenta. Trata-se de um conhecimento sensorial dotado de sensações, uma vivência corporal, está sempre cercada por alguma significação. A percepção é uma relação do sujeito com o mundo exterior. Percepção é, de certa forma, uma forma de estar no mundo.

Cada pessoa é entendida como um conjunto de possibilidades que se realiza na relação dialética com o mundo. Tudo o que se sabe sobre o mundo é pela experiência do mundo, mais prático e menos teórico. Vive-se o mundo, percebe-se o mundo. O mesmo acontece com o corpo. O que se sabe sobre ele foi aprendido através da experiência prática que se tem, o que caracteriza o relativismo de opiniões acerca deste mesmo fenômeno. 

Ele desperta sentimentos, diferencia o Eu do Outro, desperta identidade corporal, e por estes motivos, é o assunto principal de grandes discussões midiáticas.

O corpo aqui entendido não é totalmente material, nem puramente essência. Cada corpo tem sua própria estrutura, seleciona suas formas de adaptação, e isso nunca se repete – nem com os outros, nem com ele próprio em outros momentos e outros lugares. Ainda que as condições sejam as mesmas, as significações são sempre novas. Isso consiste o movimento de mudança e crescimento pessoal.

No cotidiano cada pessoa é um corpo; age, pensa, cria e sente por meio dele. Cada pessoa é um corpo físico e sensível; um corpo que fala, anda, se movimenta. O corpo tem infinitas formas de manifestação, mas revela-se apenas em parte, e esse revelar-se evidencia sua própria existência.

Olhar para si mesmo é um movimento que pode facilitar a manifestação corporal. Através disso as necessidades individuais são reconhecidas, bem como as potencialidades, as angústias, os anseios. Olhar para si faz com que a pessoa aproxime o corpo enquanto forma, do corpo enquanto essência. É conhecer-se, atribuir significado àquilo que só a própria pessoa pode ser capaz de enxergar dentro de si. Cada corpo pode ser modificado e transformado por meio do esforço, do trabalho, da vontade própria de modifica-lo, das novas descobertas, das modificações da cultura. Cada corpo é a sensibilidade, o significado, a necessidade, os sonhos e desejos, a percepção de si e do outro, resultado de experiências ao qual se funde a identidade corporal, fazendo com que cada um perceba seus limites e capacidades muitas vezes ignoradas.

A questão é: Será mesmo que as pessoas querem e estão preparadas para conhecerem a si próprias?




Referências:

CORPO, CONHECIMENTO E PERSPECTIVA: A FENOMENOLOGIA DE MAURICE MERLEAU-PONTY E O PERSPECTIVISMO AMERÍNDIO - acessado em: http://seer.ufrgs.br/index.php/EspacoAmerindio/article/viewFile/2522/1520

O corpo percebido – acessado em: http://idanca.net/lang/pt-br/2003/07/01/o-corpo-percebido/71


A FENOMENOLOGIA COMO MÉTODO PARA INVESTIGAR A EXPERIÊNCIA VIVIDA UMA PERSPECTIVA DO PENSAMENTO DE HUSSERL E DE MERLEAU PONTY – acessado em: http://www.sepq.org.br/IIsipeq/anais/pdf/gt1/12.pdf



O PROBLEMA MENTE E CORPO SEGUNDO A FENOMENOLOGIA DE MERLEAU-PONTY: IMPLICAÇÕES PARA PSICOLOGIA - acessado em: http://prope.unesp.br/xxi_cic/27_36026924850.pdf


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