terça-feira, 6 de novembro de 2012

PSICOSES: DE FREUD A LACAN


Este trabalho tem por objetivo, a possibilidade de atentarmos para o fato de que os pacientes gravemente enfermos psíquicamente, não se constituem como diferentes faces de uma mesma entidade, ou mesmo para o fato de que a psicose não é uma categoria homogênea, não possuindo um mesmo perfil psicopatológico ou mesmo uma etiologia única.

Constitui-se numa verdade o fato de que a psicanálise demonstrou num crescendo, aqueles mecanismos comuns aos estados psicóticos, sempre contrastando-os com os mecanismos pertinentes às neuroses e às perversões. Contudo vale lembrar que, atualmente, encontramos uma extrema heterogeneidade no que tange as formas clínicas da denominada "loucura". Cada forma clínica constitui, por sí só, uma entidade.

Na contemporâneidade, podemos encontrar muitos trabalhos psiquiátricos e psicanalíticos, que apontam para uma revisão do conceito de psicose.

Nesse sentido, podemos pensar que a "paranóia de Schreber", encontra-se num mundo completamente distinto ao mundo do "autismo de Joey ou mesmo de Dick" e, muito distante do mundo da "loucura homicida das irmãs Papin".


UMA DOENÇA DA DEFESA

Ao longo de toda a teorização freudiana, podemos claramente perceber que, as manifestações psicóticas , como o delírio ou mesmo a alucinação, não se constituem como efeitos imediatos de uma determinada causa, mas sim são conseqüências oriundas da "luta travada pelo eu no sentido de se defender de uma dor insuportável". Assim sendo, o estado psicótico é, para Freud, "uma doença da defesa". Tratar-se-ia da expressão mórbida de uma tentativa desesperada que o eu realiza, para poder se preservar de uma representação inassimilável, a qual o ameaça, a maneira de um "corpo estranho", colocando em risco a sua integridade.


MECANISMOS DE DEFESA DO EU

= A rejeição violenta da representação inadmissível para fora do eu. O eu expulsaria para fora a representação inconciliável, por ser demasiadamente investida, sendo que com isso, separa-se também da realidade externa. Escreveu Freud: " O eu desprende-se da representação inconciliável, mas ela está inseparávelmente ligada a um fragmento da realidade, de modo que o eu, assim procedendo, separa-se também, no todo ou em parte da realidade". Em outras palavras: o eu amputa uma parte de sí mesmo.

"desprender", "amputar", "expulsar para fora de si" ou, "foracluir a representação" :

O significado desse termos indica que uma representação psíquica, superinvestida pelo eu, fica súbitamente sem qualquer significação. Podemos reconhecer assim, dois grandes momentos que marcam o processo psicótico:

= O superinvestimento pelo eu de uma representação psíquica que é hipertrofiada por ele, o que a torna incompatível com as outras representações normalmente investidas.

= A rejeição violenta e maciça dessa representação, ocasionando a abolição da realidade da qual a representação era cópia psíquica.

= A percepção pelo eu do pedaço rejeitado, mas na forma de uma alucinação ou delírio.

Para Freud, o eu da psicose divide-se em duas partes: uma rejeitada e perdida, como sendo um pedaço arrancado e, outra que alucina esse pedaço, constituindo-se como uma nova realidade.

Aqui entendemos que foi justamente o estudo desse processo, que levou Juan David Nasio a formulação de sua tese, no sentido de estabelecer a existência de uma foraclusão localizada. Segundo Nasio, " No lugar de uma realidade simbólica abolida aparece uma nova realidade, compacta, alucinada, que coexiste no mesmo sujeito com outras realidades psíquicas não afetadas pela foraclusão. Essa teorização de Nasio nasceu sobretudo da clínica, onde o que fica ressaltado é que o paciente psicótico não é globalmente afetado, pois fora dos acessos delirantes, preserva uma relação perfeitamente sadia com o seu meio. Inversamente, um indivíduo normal pode viver um episódio delirante, sem que por isso se deva qualificá-lo de psicótico.

Queremos nesse momento enfatizar que foi o processo psicótico, que lançou uma luz sobre o funcionamento da vida psíquica normal. Dessa forma, a teoria freudiana do narcisismo, nasceu da observação psicanalítica dos perversos, das crianças e, acima de tudo, dos pacientes esquizofrênicos e paranóicos.

Um breve histórico: o termo narcisismo foi originalmente escolhido por Näcke para descrever a perversão consistente no tratamento do próprio corpo, como sendo um objeto sexual. Em princípio, o termo foi utilizado por Freud(1911) para dar conta da ruptura existente entre o paranóico e a realidade externa. Assim, o narcisismo é uma concentração de libido no eu, a qual impede o sujeito psicótico de qualquer contato com o mundo. A energia libidinal que está superinvestindo o eu, passa a não mais ser empregada para produzir uma fantasia, aos moldes neuróticos, mas sim a desencadear um delírio de grandeza. Já em 1914, Freud estendeu o conceito de narcisismo ao campo mais amplo do desenvolvimento normal do eu, levando-o a modificar radicalmente a teoria das pulsões. Foi exatamente através do conceito de narcisismo que Freud abandonou a distinção prévia entre "pulsões sexuais/pulsões do eu", tendo adotado preferencialmente à oposição entre "pulsões de vida/pulsões de morte".

Se nos embrenharmos na teorização lacaniana em psicanálise, teremos a oportunidade de constatar, que foi através do estudo sobre as psicoses, que o funcionamento mental normal do inconsciente foi sendo decodificado. Mais exatamente, foi através da psicose paranóica, que Lacan estruturou a lógica do inconsciente. Sabe-se que, quando ainda jovem Lacan teria sido influenciado pela idéia de um automatismo mental, o qual foi enunciado pelo mestre de Lacan: G.-G. de Clérambault.

De qualquer forma, o ser falante que somos, psicóticos ou não, é um ser falado. Esclarecendo: somos falados por um outro que existe em nós, o qual transcende o nosso saber consciente. Segundo Lacan, numa correlação nada fácil, à primeira vista pelo menos, " o emitente recebe do receptor, sua própria mensagem, sob forma invertida ". Em outras palavras: "o sujeito ouve-se dizer suas próprias palavras como se viessem de fora, emitidas por um outro.

Entre a neurose e a psicose: enquanto o sujeito neurótico, embora surpreso, admite que o seu inconsciente fala através dele, constituindo-se em seu agente involuntário, o psicótico, por sua vez, repleto de certeza, apresenta a convicção dolorosa e inabalável de encontrar-se no lugar da vítima de uma voz tirânica que o aliena.

Mais uma vez retomando Lacan, teremos que: " O psicótico é um mártir do inconsciente e, dando-se ao termo mártir, o seu sentido de testemunha. ". Na verdade, é exatamente no campo das psicoses, que poderemos tomar contato de uma forma irrefutável, sobre a força devastadora do inconsciente.

Para concluir, quero deixar aqui mencionada uma imagem que presenciei, quando de um estágio que fiz no último ano da faculdade num hospital neuro-psiquiátrico. Eu me encontrava no pátio, onde haviam vários pacientes. De repente, me dei conta de que vinha andando em minha direção, um paciente que chamava atenção por ser môço, alto, forte e, com uma tira vermelha amarrada na cabeça. Fiquei parado onde estava para observar o que iria acontecer. Ele, realmente veio em minha direção e, quando chegou à distância de um metro de mim, eu tive que sair do lugar, caso contrário, ele certamente me levaria junto em sua caminhada. A impressão que tive, foi de que embora me olhasse, não me via de forma alguma ou, se me via, certamente não me via como sou. O que quero salientar com esse exemplo é que, a devastação da sua psicose o teria retirado da condição humana e, seria esperar muito, que ele me reconhecesse como tal.


Fonte: Rede Psi

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