sexta-feira, 9 de novembro de 2012

CORPO OCO


Por Amanda Bragion



Através do corpo manifestam-se o existir, os sentimentos, a forma como cada pessoa entende o mundo. É por meio dele que se tem acesso ao mundo, a todas as experiências, às relações pessoais. O corpo é, portanto, um modo de expressão da existência humana.

Dentro do corpo matéria, o corpo físico, existe o corpo subjetivo. A subjetividade pode ser compreendida como sendo o contato de si consigo ou o próprio sentimento de si.

Na raiz de todo corpo matéria, encontra-se a subjetividade, ou seja, um ser que reconhece a si mesmo. Reconhecer a si mesmo tem relação com o modo de ser de cada um, com as relações estabelecidas. É através do contato com o outro que se diferencia deste e percebe suas próprias características.

É pelo corpo que a pessoa está situada.

Por vezes, entretanto, essa tarefa torna-se difícil. O sujeito se perde ente si e o mundo, entre ser e estar, corpo e corporeidade. A corporeidade, por sua vez, é uma expressão utilizada para fazer uma ligação entre o sensível e o significado. É o corpo-vivido relacional, que não se define em explicações matemáticas. Neste contexto é muito importante a distinção ente corpo como coisa e o corpo como próprio corpo, sentido e significado.

Quanto mais a pessoa se afasta de si mesma, mais as coisas mundanas lhe farão sentido. Uma identidade começa a ser perdida, o mundo fica muito mais nítido, enquanto a subjetividade vai sendo passada para segundo plano. O EU perde-se no OUTRO. Para a pessoa que se retira do corpo que habita, o mundo torna-se indiferente, enquanto o corpo não passa de um objeto no mundo. As imposições mundanas são aceitas passivamente, e consequentemente, pela falta se reflexão crítica e significações, passam a fazer parte, neste momento, daquilo que a pessoa é.

Está aqui o modelo de corpo oco. Corpo, não corporeidade. É o corpo objetivo, não adjetivo. O que é mundano e apenas corpóreo passa a ser reino da verdade. É para este oco que a grande mídia está preparada para lidar. Vendem um padrão de vida que não condiz com a realidade do país; vendem um padrão de beleza que não condiz com a estrutura genética e corpórea das pessoas deste país; vendem um esquema pronto de pessoa saudável, sustentável; vendem, praticamente, o inatingível. Não ter ou pertencer, muitas vezes, é grande causador de angústia, que por sua vez, continuará a afastar a pessoa dela mesma. 

Para sanar a angústia, apega-se a objetos, costumes, crenças,
hábitos, afastando-se de si mesma novamente, gerando mais angústia... É um processo interminável!¹

É desta compreensão de corpo que é preciso se afastar.

O corpo deve apresentar-se como mediador de um mundo, corpo objeto e adjetivo simultaneamente. O corpo é um espaço expressivo, é a origem de todas as outras formas de expressão. Perceber-se na relação com o mundo ajuda a compreender o que é do mundo. Diariamente centenas de situações são apresentadas para serem pensadas e compreendidas. Mais do que isso, são apresentadas para serem pensadas, compreendidas e, principalmente, escolhidas. As escolhas são responsáveis pelas mudanças, pela transformação em cada pessoa, e é através desse movimento que o sujeito torna-se próximo de si mesmo.

O corpo oco, apenas matéria, é como uma tela em branco que precisa ser pintada. Quando o artista, a própria pessoa, começa a pintá-la por meio de experimentações, significações, esse oco passa a ser um mosaico de sensações que serão percebidas e significadas, trazendo a subjetividade novamente para primeiro plano, não se percebendo mais como o outro, mas na relação com o outro, pois o sujeito que se percebe não abandona seu ponto de vista.


Eu não tenho corpo!
_Quem és tu?
_Eu sou o nada.
_O que queres?
_Um corpo.
_Um corpo oco?
_De alma.
_Um corpo e uma alma?
_O corpo é uma alma.
_Quem te disse?
_O corpo. _Mas tu és o nada.
_E tu? És quem?
_O outro.
_Que outro?
_O outro oco.

(O Oco Nosso de Cada Corpo, Eduardo, S. M. Cesar)



¹ Texto sugerido para compreensão deste processo: Corpo Vazio de David Costa, disponível em http://www.recantodasletras.com.br/poesias/2629574


Texto de apoio:
http://www.fflch.usp.br/df/site/posgraduacao/2007_doc/doc_leandroCardim_07.pdf

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