quinta-feira, 15 de novembro de 2012

ADÁGIO PARA UM EU-CORPO


A questão do corpo na psicanálise se deu de diferentes modos desde que Freud afirmou que “o eu (ego) é acima de tudo corporal”. Na metapsicologia freudiana, o corpo nada mais é do que a sede das moções pulsionais e libidinais desde que Freud percebeu que o tratamento por ele proposto era tão eficaz quanto aqueles que intervinham no corpo.

Ora, se o eu é acima de tudo corporal, a dicotomia entre o interior e o exterior, o interno e o externo, o dentro e o fora, o somático e o psíquico também pode ser interpretada à luz da metapsicologia proposta por Didier Anzieu, através daquilo que ele denominou como sendo um “eu-pele” (moi-peau).

Para Anzieu o “eu-pele” é uma estrutura intermediária do aparelho psíquico entre a mãe e o bebê, uma membrana limitante e necessária para que seja equacionada a posição entre o “eu” e o “não-eu” do bebê, de modo a formar seu esquema corporal. O conceito de “eu-pele” corresponde consequentemente à necessidade de um invólucro narcísico, uma figuração de que se serve o eu da criança, no decurso das fases precoces do seu desenvolvimento para se representar a partir de sua experiência da superfície do corpo.

Sabemos que a pele recebe inúmeros estímulos internos e externos desde o nascimento do bebê. Sua característica fundamental é a de ser o primeiro lugar de troca e contato entre o mundo interior e o mundo exterior, além de ser a parte do corpo que “protege a individualidade” e a primeira a receber estímulos diversos. O carinho maternal e todos os cuidados maternos para com o bebê, que Winnicott chamou de holding e handling, fazem parte desse lugar e do espaço de troca, de contato e de estímulos entre ambos.

Essa gama de estímulos comporta, na perspectiva de Didier Anzieu, uma enorme riqueza e complexidade de sensações despertando no bebê o “sistema de percepção-consciência, que submete um sentimento global e episódios de existência e que favorece a possibilidade de um espaço psíquico originário”.

O bebê adquire a percepção da pele como uma superfície através das experiências de contato com o corpo da mãe logo nos primeiros dias de nascido através daquilo que Anzieu denominou de “relação de apego”, que por sua vez está ligada à “pulsão de apego”, o qual permitirá que ele (o bebê) perceba que sua própria pele é uma superfície delimitadora (membrana limitadora ou psicossoma) entre o espaço interno e o espaço externo. 

A pele, portanto, é o lugar das sensações proprioceptivas que é determinante na construção e desenvolvimento do caráter e do pensamento. Nesse sentido, o bebê adquire, através das sensações táteis, uma consciência de si (self-awareness) e uma ciência de sua ipseidade diante do outro (neste caso, a mãe) ou ainda passa a constituir uma consciência de si como um “eu” (self-awareness).

A instauração do “eu-pele”, responde também à necessidade de um envelope narcísico ou corporal, assegurando ao aparelho psíquico a certeza e a constância de um bem estar. Anzieu, portanto, ressalta algo que já vinha sendo pontuado por Freud no que se refere à primazia das pulsões (trieb) sobre o corpo e sobre o psiquismo.

Não obstante, o eu-pele tem uma dupla função de sustentação para o psiquismo: uma sobre o corpo biológico e outra sobre o corpo social. Se por um lado há uma sustentação da vida orgânica, biológica ou corporal, por outro, ela também sustenta a vida social e as relações humanas que se estabelecem a partir de uma realidade fantasmática.

Ele também se define por uma estrutura intermediária cronológica e estrutural do aparelho psíquico: “intermediária cronologicamente entre a mãe e o bebê, intermediária estruturalmente entre a inclusão mútua do psiquismo na organização fusional primitiva e a diferenciação das instâncias psíquicas que corresponde à segunda tópica freudiana”.

Na verdade, Anzieu funda uma topologia e uma topografia da psique humana. Indo em direção contrária a Freud, topologicamente a constituição da pele como um espaço físico e o eu-pele como um espaço psíquico definem uma intersensorialidade sobre a qual o tocar tem uma eficácia efetiva, erótica e terapêutica. Topograficamente, a oposição do núcleo e da crosta se dá no domínio da segunda tópica freudiana no qual o sistema pré-consciente constitui a superfície do eu e em que o isso psíquico é o núcleo.

Mas como entender a diversidade de modificações corporais na contemporaneidade, a partir dessa representação narcísica do sujeito com o mundo, possibilitada pelo nosso envelope corpóreo?

A instauração do eu-pele responde à necessidade de um envelope narcísico ou corporal, assegurando ao aparelho psíquico, a certeza e a constância de um bem estar. Toda nossa relação com as sensações e percepções internas e externas do corpo são direta ou indiretamente filtradas por um aparelho sensório e psíquico – a pele; a relação proprioceptiva entre o eu e o mundo, corresponde a diversas funções operadas pelo nosso envelope corpóreo.  Para tanto, Anzieu (1989, p. 130-138) propõe nove funções do “eu-pele”, conforme se segue.

1) Função de manutenção biológica e do psiquismo – do ponto de vista biológico, a pele funciona como função de sustentação do esqueleto e dos músculos humanos e é exercida por aquilo que Winnicott denominou de holding; já a função psíquica se desenvolve pela interiorização do holding maternal;

2) Função continente – é exercida pelo handling maternal. O eu-pele é agora apresentado como casca e o isso pulsional como núcleo; cada um dos dois termos tendo necessidade um do outro;

3) Função de pára-excitação – camada superficial da epiderme que protege a sua camada sensível e o organismo em geral contra as agressões físicas, as radiações, o excesso de estimulação (lembremos que uma das modalidades de modificações do corpo em nossa cultura é a exposição ao sol, às vezes de modo excessivo, performando o bronzeamento do corpo como um modelo saudável a ser seguido, que em sua versão narcísica é valorizado positivamente pela maioria dos jovens);

4) Função de individuação – cuja membrana das células orgânicas protege a individualidade da célula diferenciando os corpos estranhos aos quais recusa o acesso e permite diferenciar no outro os objetos de apego e de amor e a afirmação de si mesmo como um indivíduo que tem sua pele pessoal;

5) Função de intersensorialidade – que permite a superfície psíquica a formação de um senso-comum cuja referência se faz sempre pelo tato e é uma função do sistema nervoso central. O eu-pele é uma superfície psíquica que liga as sensações de diversas naturezas entre si e que as fez destacar como figura sobre esse fundo originário que é o envelope tátil;

6) Função de sustentação da excitação sexual – cuja pele do bebê faz da mãe o objeto de um investimento libidinal, preparam o auto-erotismo e situam os prazeres da pele como base dos prazeres sexuais (aqui poderíamos situar as diversas modalidades de uso perverso do corpo como objeto, tais como no sadismo ou no masoquismo, mas não meramente reduzidos a estes);

7) Função de recarga libidinal do funcionamento psíquico, de manutenção da tensão energética interna e de sua repartição desigual entre os sistemas psíquicos – que se refere à pele como superfície de estimulação permanente do tônus sensório motor (não é à toa que encontramos na atualidade uma ênfase maior às terapias corporais, tais como as terapias bioenergéticas ou reichianas ou as terapias alternativas, tais como a medicina ayurveda ou as espiritualidades asiáticas, que trabalham diretamente com o corpo);

8) Função de inscrição dos traços sensoriais táteis -  aqui, a pele é entendida como órgão dos sentidos táteis que ela contém (tato, dor , calor/frio, sensibilidade dermatológica) e é capaz de fornecer informações sobre o mundo exterior; o “eu-pele” exerce também uma função de inscrição dos traços sensoriais táteis, função de pictograma e de escudo; essa função do “eu-pele” seria o responsável não só pela inscrição na pele de diversas patologias somáticas, como também aqui estariam incluídas as modificações corporais presentes na contemporaneidade através do uso da superfície do corpo;

9) Função tóxica – todas as funções anteriores estão a serviço da função de apego e posteriormente da pulsão libidinal.
Cada uma dessas funções descritas acima corresponde ainda a um tipo de envelope corpóreo: um envelope sonoro, um envelope gustativo e um envelope olfativo, cujo self será constituído através da introjeção de cada um desses universos, preparando-se para a dimensão espaço-temporal da realidade humana e, por fim, um envelope térmico cujas sensações de calor ou frio seriam necessárias na ampliação das características proprioceptivas e exteroceptivas da criança e na amplitude do seu self.
Em síntese, as características comuns pertencentes ao “eu-pele” se dariam sob forma de “estruturas de envelopes”, envelope corporal ou envelope narcísico, que estrutura ou modela a nossa identidade a partir de uma imagem do corpo.


Fonte: Sergio Silva

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