sexta-feira, 5 de outubro de 2012

GORDOREXIA

QUANDO O ESPELHO ENGANA VOCÊ!
Por Amanda Bragion



A anorexia é um assunto bastante discutido há alguns anos, e tem estado presente em mesas redondas e rodas de discussão principalmente pela “esqueletização” do mercado fashion. Certamente, todos já ouviram falar algo sobre a doença, que é caracterizada pela negação excessiva da satisfação da necessidade biológica da ingestão de alimentos. Existe também o transtorno dismórfico corporal, que é um transtorno mental que se caracteriza por afetar a percepção que a pessoa tem da própria imagem corporal, levando-o a ter preocupações irracionais sobre defeitos em alguma parte de seu corpo (nariz torto, olhos desalinhados, imperfeições na pele, etc). Essa percepção distorcida pode ser totalmente falsa (imaginária) ou estar baseada em alterações sutis da aparência, resultando numa reação exagerada a respeito, com importantes prejuízos no funcionamento pessoal, familiar, social e profissional.

A percepção da imagem corporal pode ser definida, segundo Schilder (1999), como a visão que o indivíduo produz sobre o próprio corpo na mente, e envolve aspectos cognitivos, afetivos, culturais e motores (ADAMI, et al. 2005). 

Podem ser apontados três aspectos sobre imagem corporal: a forma, o conteúdo e o significado. A forma inclui a ideia consciente que a pessoa tem seu corpo quanto a aspecto, postura, dimensão, colocação no espaço e movimento. O conteúdo se refere ao reconhecimento das sensações intero e exteroceptivas e das necessidades corporais. O significado, na imagem corporal, compreende o corpo como possível de reconhecer elementos de prazer e desprazer (GLEISER, 2006). É muito comum encontrar em pessoas obesas uma inabilidade em perceber adequadamente o tamanho do seu corpo, o que configura um distúrbio da imagem corporal. 

Em ambos os distúrbios anteriormente citados, a pessoa perde a referência real do próprio corpo. No caso da anorexia, ela enxerga o corpo gordo, quando está assustadoramente magro, e no caso do transtorno dismórfico corporal, faz inúmeras plásticas para corrigir um defeito inexistente ou mínimo. Surge, agora, uma nova vertente: a FATOREXIA ou GORDOREXIA. Tal disfunção atinge pessoas obesas que se veem magras. Elas não dão conta dos muitos quilos a mais que carregam no corpo. Essa nova disfunção é comparada com a anorexia, mas no seu extremo oposto.

O assunto veio à tona quando Sara Bird, uma britânica de 44 anos que era acostumada a olhar no espelho e ver uma pessoa de peso ideal, descobriu há cinco anos que não era como acreditava. Em uma visita ao médico, Sara se assustou com a revelação de que estava obesa, pesando 30kg a mais do que imaginava. Sem saber como não havia percebido o tamanho real do seu corpo, ela resolveu nomear esta espécie de anorexia reversa como fatorexia.

Em março de 2010, Bird lançou no Reino Unido o livro chamado “Fatorexia: What Do You See When You Look In The Mirror?” (na tradução literal para o português, “Gordorexia: O que Você Vê Quando se Olha no Espelho?”). No livro, ela conta sobre o seu suposto transtorno alimentar. Relata que ao se olhar no espelho, via uma pessoa confiante e magra, quando na verdade, estava obesa. Antes de perceber que estava longe do peso ideal, a britânica conta que costumava cortar as etiquetas de tamanho grande das roupas e fingia que não se alimentava excessivamente. 

Ao subir na balança e ser diagnosticada como obesa pelo médico, a situação alarmante a fez correr atrás de informações que revelassem mais sobre a fatorexia. Ela iniciou, então, uma pesquisa de campo e encontrou pessoas que passavam pelo mesmo sofrimento. 

Popularizando o assunto, Sara pretende esclarecer a outros possíveis “gordoréxicos” sobre a existência desse distúrbio alimentar ou de imagem. Ela coloca que, descobrir que a pessoa sofre do distúrbio, pode mudar sua vida, uma vez que o reconhecimento desta condição pode prevenir o ganho de peso excessivo. A “cegueira” do obeso que de vê magro pode resultar em muitos problemas de saúde, devido justamente ao acúmulo incessante de peso, e apesar disso, o problema ainda não ganhou a atenção da comunidade médica. 

O não reconhecimento do distúrbio pode dever-se ao pouco tempo em que o fenômeno vem sendo percebido. Embora recente, a gordorexia soa como um alarme na sociedade atual, que vigora hábitos alimentares pouco saudáveis e onde está imerso o sedentarismo. Há alguns anos, também, o gordo tem ganhado certa evidência da mídia, e principalmente, da moda. Não que a adaptação não deva ocorrer, pois a roupa deve ser feita para vestir todos os tipos de corpos, e os lugares precisam estar preparados para receber todos os tipo de pessoas, mas ao passo que “o mundo” se adapta em todos os aspectos à pessoa obesa, ela deixa de se sentir excluída, as coisas parecem tornar-se mais fáceis, e sua autoestima melhora. 

A autoestima é, por sua vez, uma avaliação que a pessoa faz em relação a si mesma, expressando aprovação ou desaprovação. Esse conceito diz respeito à maneira como essa pessoa elege suas metas, aceita a si mesma e sua imagem, valoriza o outro e projeta suas expectativas. As percepções de autoestima e autoimagem referem-se àquilo que a pessoa reconhece como fazendo parte de si. A autoestima é, portanto, uma parte do autoconceito, aprovando ou reprovando si mesmo, e delimitando até que ponto a pessoa considera-se capaz, significativa, bem sucedida e valiosa.

É neste momento que a pessoa deixa de se perceber obesa. Claro que isso não afeta todas as pessoas, nem sua maioria, mas por ser algo que pode trazer sofrimento à pessoa, o distúrbio deve começar a ser visto com mais atenção. 

Tanto na fatorexia, quanto anorexia e os transtornos dismórficos corporais, deve existir o movimento do indivíduo perceber o processo ou o momento que está vivendo, e voltar para si mesmo a fim de ressignificar aquilo que pode lhe causar sofrimento, afastando-se ou livrando-se do problema, e voltando a aproximar-se de si.
Será mesmo que esse fenômeno ainda é tão imperceptível socialmente?

Sites de apoio:
http://delas.ig.com.br/comportamento/fatorexia-o-gordo-que-se-enxerga-magro/n1237617293132.html
http://vilamulher.terra.com.br/fatorexia-existe-ou-nao-9-4733946-3189-pf-alcioneribeiro.php
http://desventurasdeumavidasaudavel.blogspot.com.br/2011/11/fatorexia-ou-gordorexia-ja-ouviu-falar.html
http://nutricionistasdepe.blogspot.com/2010/05/voce-ja-ouviu-falar-em-gordorexia.html

Textos de apoio:

ADAMI, F.; FERNANDES, T.; FRAINER, D.; OLIVEIRA, F. Aspectos da
construção e desenvolvimento da imagem corporal e implicações na educação física. Revista Digital, 2005.

SCHILDER, P. A Imagem do Corpo: as energias construtivas da psique. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

GLEISER, D. Avaliação pré-operatória de uma paciente artista visual: o uso da arte no reconhecimento do corpo. In: FRANQUES, A. R. M.; ARENADES- LOLI, M. S. Contribuições da psicologia na cirurgia da obesidade. São Paulo, Vetor, 2006, p. 75 -82.

BRAGION, A.; MACEDO, P. C. A.; MOREIRA, K. R.; PEDREIRO, P. P.; TORRES, A. A.; VERGARA, A. M.; GARCIA, G. Z. (orientadora). A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA IMAGEM CORPORAL PARA MULHERES OBESAS: Cultura, Mídia e
Padrão de Beleza. Pesquisa de Campo em Psicologia Social. Curso de Psicologia, ICH– Universidade Paulista. São Paulo – Araraquara, 2011. 










2 comentários:

  1. Muito interessante. Mas acho que devemos pensar nas adaptações do cotidiano ao obeso como uma maneira de auxiliar pessoas que realmente tem problemas para emagrecer, então não deveria necessariamente ser algo para integrar ou excluir uma pessoa da sociedade. É esse ponto que acredito que uma pessoa com este transtorno tem que saber diferenciar - estar acima do peso por não se perceber dessa maneira ou estar acima do peso porque há um problema físico que precisa ser tratado.

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  2. Bom dia, 2 anos atrás, durante uma aula de transtornos alimentares questionei minha professora no fim da aula sobre a existência de algum transtorno desse tipo, e disse que se ele realmente existisse eu e meu namorado estávamos passando por isso... Ela pediu que eu descrevesse melhor e eu expliquei que a gente ganhou mais de 20 quilos, mas não estávamos enxergando de maneira alguma isso... algumas pessoas falaram pra gente, principalmente a família, mas tanto eu não me via gorda como ele também não se via, embora eu percebesse que ele tinha engordado bastante. Bom... como resultado disse procuramos perder peso, eu perdi 14 quilos e ele perdeu 25, e continuamos tendo a mesma visão do nosso corpo. Pra mim, não mudou absolutamente nada, ele também diz ter esse sentimento.. mas a pressão da sociedade vai além da nossa percepção... e por isso estamos na luta pra diminuir os números na balança muito mais do que na nossa consciência. =)

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