sábado, 27 de outubro de 2012

A NEUROLOGIA DE SACKS

A neurologia foi uma das ciências que mais se desenvolveu nos últimos tempos, sobretudo após os avanços das tecnologias do imageamento cerebral. Os diversos distúrbios neurológicos tais como perda da fala, da linguagem, da memória, da visão, da percepção dos sentidos e da identidade, foram estudados largamente e construídoum conjunto de conhecimento específico para cada um deles, e muito do que se pensava sobre as causas fisiológicas ou psíquicas desses danos, caiu por terra com oavanço da tecnologia médica.

Desde o final do século XIX, a pesquisa científica de inúmeros neurologistas sobre o cérebro humano foi a responsável por estabelecer definitivamente uma relação entrecérebro e mente, cérebro e corpo e, finalmente, corpo e mente.

Paul Broca foi um deles. Ao descobrir uma área específica do hemisfério esquerdo do cérebro como a responsável pelos distúrbios da fala em 1861, ele abriu caminho paraque outro neurologista famoso, Freud, atribuísse uma base fisiológica aos problemas da fala. Desde então, as pesquisas e o mapeamento do cérebro humano não pararam mais.

A neurologia tornou-se, portanto, uma “ciência personalista” ao comprovar que os acidentes vasculares cerebrais ou demais danos ao cérebro, tal como foi vítima Phineas Gage, também afetava a personalidade e a identidade do sujeito, sua “persona”, sua subjetividade, seu próprio “eu”.

Numerosos casos clínicos comprovaram essa sentença, tais como aqueles analisados por Oliver Sacks. Seus pacientes, transformados em personagens em uma vastaprodução literária, trouxeram à tona uma gama de distúrbios do comportamento comorigens eminentemente causadas por danos ao cérebro: um pintor que passou a enxergar tudo em preto e branco, uma mulher que perdeu a sensação da propriocepção, o homem que passou a perceber membros fantasmas no seu corpo, umjovem que perde a noção do tempo tendo sua memória restrita à década de sessenta,quando ocorreu seu acidente; o cirurgião que passa a ter tiques nervosos ou ainda umneurologista famoso que perde a sensação e percepção da própria perna, entre outros,são todos personagens do fantástico universo de Oliver Sacks. Muitos dos seuspersonagens tiveram suas histórias publicadas em revistas tais como “The New Yorker” e “The New York Times”, mais tarde em livros e posteriormente em filmes epeças de teatro.

Os filmes são: “At First Sight”(À Primeira Vista) – Direção de Irwin Winkler – MGM/United Artists, 1999; “Awakening” (Tempo de Despertar) – Direção de Penny Marshall – Columbia/Tristar Pictures, 1990. A peça de teatro chama-se “The Man Who Mistook his Wife for a Hat” (O Homem que Confundiu sua Mulher com umChapéu)  – Direção de Peter Brooks, Royal Natinal Theatre, Junho de 1994.

Em todos os casos, verificamos vividamente o esforço do neurologista em não deixar de lado as ferramentas que a ciência médica dispõe. Mas o que transforma Sacks em umneurologista diferente da maioria, é que ele apontou para algo que ainda não havia sido feito: ele passou a deixar seus pacientes falarem sobre si mesmos e sobre seusdistúrbios, tais como psicólogos e psicanalistas tem feito há décadas, dando passagem para a subjetividade de seus pacientes.

Sacks se tornou um proeminente intérprete das desordens neurológicas na culturaanglo-americana, tornando-se uma celebridade no mundo acadêmico. No início de suacarreira ele inspirou a prática daquilo que ele chamou de “neurologia romântica”, ouseja, uma neurologia que recobre a subjetividade de seus pacientes ao invés unicamente das condições fisiológicas engendradas pela neurologia tradicional.

Com isso, o neurologista Sacks praticamente “atualiza” o neurologista Freud naquiloem que ele fez de mais singular e específico – a cura pela palavra: Sacks não desperdiça os laudos médicos de exames neurológicos complexos, mas deixa a palavra e asdescrições narrativas e subjetivas de seus pacientes tomarem forma.

Munido de seus conhecimentos como neurologista e somado a uma leitura particular da filosofia, da psicologia e, sobretudo, da psicanálise, Sacks busca as raízes da subjetividade humana através de uma atenta observação do comportamento de seuspacientes e de uma escuta clínica sobre o que eles têm a dizer antes e depois de lesõescerebrais, muitas das vezes graves, sobre sua história de vida, sobre o que eles foram,sobre o que eles se tornaram e sobre o que eles pensam como serão daí para frente. Sacks não se reduz a uma descrição biológica, nem fisicalista nem mentalista da vidasubjetiva, mas se utiliza da mesma técnica que fez da psicanálise ser conhecida como uma “talking cure”.

A consequência disso é que Sacks, apesar de não construir uma teoria inovadora acerca da construção da imagem do corpo, da subjetividade e da identidade pessoal, ele passa fazer uso das teorias disponíveis no campo fenomenológico para auxiliá-lo nas descrições subjetivas de diversos distúrbios neurológicos de seus pacientes sem, noentanto, desprezar a descrições dos mesmos distúrbios através das mais modernas técnicas médicas para análise e tratamento.

Assim sendo, ele não restringe ao seu arsenal de conhecimentos médicos e científicos,nem faz da cadeia de redes neuronais predicativa de nossas subjetividades. Ele não as nega, mas não se restringe a elas.

O que Sacks propõe não é a compreensão da subjetividade humana, da identidade e daconstrução da imagem do corpo a partir de uma entidade exterior ao corpo. O cérebroé um órgão integrado à visceralidade da matéria do próprio corpo, e como tal, necessita desse corpo e de todos os seus dispositivos necessários para conhecer, reconhecer edecodificar todos os estímulos providos pelo ambiente e pela interioridade de sua carne, construindo imagens de si, narrativas de si e fundamentando o seu “eu” e a sua identidade a partir do seu equipamento lingüístico. Com isso, Sacks quebradefinitivamente o modelo clássico do dualismo cartesiano e aponta para uma possívelcompreensão de uma neurologia mais voltada para a identidade do que para asdescrições dos distúrbios neurológicos.

Este neurologista vem apontando para algo novo no campo da ciência do século XXI: a possibilidade de uma “neurologia romântica” como ele bem a definiu no início de seus estudos, ou quem sabe, uma “neurologia da identidade”, uma “neurologia do self” ou ainda uma “neurologia do ‘eu’”.

No campo da subjetividade, não podemos nos fechar para os avanços que as ciências médicas têm proposto para as nossas certezas diante da mente e da alma humana. Aprender com o olhar clínico de pesquisadores como Oliver Sacks, é se abrir para as mudanças que Freud já havia referido na primeira metade do século passado e buscar, na atualidade, novas narrativas da mente.

 

Fonte: Blog Sergio Gomes

0 comentários:

Postar um comentário