quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O SEXO DA PSICOLOGIA


Segundo pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Psicologia- CRP1, com o objetivo de identificar a realidade e o perfil de seus associados, a psicologia continua sendo uma profissão exercida predominantemente por mulheres. Num universo de 1.200 entrevistados, 92.2% são do sexo feminino e apenas 7.8% do sexo masculino.

Ainda que a pesquisa aborde outros tópicos relevantes, como aluno do Curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina - UNISUL, considero ser necessário suscitar uma discussão sobre o tema. E espero, sinceramente, minorar o preconceito ainda existente, principalmente fora do círculo acadêmico.

Em consonância com o livro de História da Psicologia Moderna, a participação das mulheres no desenvolvimento dessa ciência foi marcada pelo preconceito. Por muitos anos, nos Estados Unidos e na Europa, sofreram restrições, discriminações e poucos cientistas admitiram mulheres em seus laboratórios. Esse preconceito, certamente, não fora restrito somente às mulheres que desejavam exercer a psicologia. Reflexo do pensamento de uma época, era uma prática corrente em qualquer ramo de atividade e imposta a todas as classes consideradas "minorias sociais".

Nesse cenário, "por serem, na prática, afastadas de muitos cargos universitários, as mulheres foram obrigadas a procurar emprego nos campos aplicados, particularmente em profissões de ajuda como psicologia clínica e aconselhamento, orientação infantil e psicologia escolar" (Schultz e Schultz, 2000 p. 388),áreas que eram consideradas por muitos psicólogos como trabalho de mulher. Reconhecendo, no entanto, que a história não pode ser analisada apenas com base nos livros "oficiais", seria um grave equívoco ignorarmos a contribuição que as mulheres deram para o desenvolvimento da psicologia. Apesar disso, os historiadores destacaram a participação masculina nesse processo, passando-nos a impressão de que a história fora escrita por homens.

E, aqui, encontramos uma contradição: se os livros de história dão ênfase ao papel do homem na consolidação e nas pesquisas dessa ciência, o que levou a psicologia no Brasil a ser vista por muitos como uma profissão destinada ao sexo feminino?

Embora não seja um empreendimento fácil, encontraremos uma resposta plausível a essa indagação resgatando a história da psicologia brasileira. Através de uma rápida pesquisa, observamos que a psicologia sempre esteve atrelada ou relacionada a outras ciências - Direito, Filosofia, Teologia e Medicina. Mas é na área da Pedagogia, particularmente com a criação das Escolas Normais, que a psicologia encontrará solo fértil para o seu desenvolvimento. Instituídas com o objetivo de formar um corpo docente necessário ao ensino primário, 

"as escolas normais procuram elaborar e instruir os alunos em uma metodologia científica de ensino, inspirada nos modelos europeus e norte-americanos.

Nesse contexto, assume grande relevância o estudo da matéria chamada "Methodica e Pedagogia", em cujo âmbito são abordados vários tópicos de psicologia. (...) Todavia, a busca conceitual característica do século XIX constitui uma premissa indispensável para se compreender o significado da colaboração estreita entre pedagogia e psicologia, que marcará a história das escolas normais e justificará o entusiasmo dos professores normalistas para a psicologia norte-americana, no início do século XX" (Massimi, 1990, p. 36).

Como eram freqüentadas por moças provenientes das classes média e alta com pouca ou nenhuma vocação para o magistério, as Escolas Normais serviram, como afirma com propriedade José Veríssimo (1985, p. 125), "geralmente à propagação da instrução feminina, pois foi em toda a parte a sua freqüência considerável". É interessante observar, aliás, que ao longo da nossa história essa realidade não sofreu mudanças significativas. O número de docentes no ensino fundamental ainda é formado basicamente por mulheres, conforme comprova o Censo realizado pelo INEP, em 1997:


SEXO
TOTAL
%
Feminino
1.386.089
85,7
Masculino
227.975
14,1
Não informado
1.134
0,2
Total
1.617.611
100




Fonte: MEC/INEP/SEEC

Consequentemente, e considerando as hipóteses acima, encontramos fortes indícios para acreditarmos que a gênese da concepção de tratar a psicologia como uma ciência feminina tem suas raízes fincadas nas Escolas Normais. Argumento, com efeito, defendido por Antunes:

"É possível dizer que essas escolas foram uma das principais portas para a penetração da Psicologia científica no país e para a definição do perfil dos profissionais que se tornariam especialistas em Psicologia, além de, no caso da Escola Normal de São Paulo, ter sido ela uma das mais importantes bases para que a psicologia se tornasse mais tarde disciplina universitária" (Antunes, 1999, p. 86).

Historicamente, e ainda que de modo sucinto, conseguimos subsídios importantes para responder a pergunta formulada inicialmente.

No entanto, é de capital importância lembrarmos que continua sendo muito tímida a presença de homens nos cursos de Psicologia.

Esse panorama, acredito, apenas reflete a ideologia existente no conhecimento repassado através das gerações que, além de deixar visível a sua forte influência sobre o indivíduo na hora de eleger uma carreira, revela o imenso fosso existente entre ciência e senso comum.

Afinal, a ciência, e a psicologia em particular, não pode ser desenvolvida ou praticada com base em valores que há muito deveriam estar superados. Homem ou mulher, pouco importa. O que devemos levar em consideração é que a psicologia, assim como a educação e as demais áreas do conhecimento, tem um papel a desempenhar na sociedade. E, talvez, não alimentar preconceitos seja o nosso maior desafio como futuros psicólogos...

Nota:

(1) A pesquisa na íntegra pode ser encontrada no site do Conselho Federal de Psicologia:



Referências Bibliográficas:

ANTUNES, Mitsuko Aparecida Makino. A psicologia no Brasil: leitura histórica sobre sua constituição. São Paulo: Unimarco/Educ, 1999.

MASSIMI, Marina. História da psicologia brasileira: da época colonial até 1934. São Paulo: EPU, 1990.

SCHULTZ, Duane P.; SCHULTZ, Sydney Ellen. História da psicologia moderna. Tradução de Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. 13. ed. São Paulo: Cultrix, 2000.

VERÍSSIMO, José. A educação nacional. 3. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985.

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