quarta-feira, 5 de setembro de 2012

MILITOSE

PSICOLOGIA E MOVIMENTO ESTUDANTIL
Por José Anézio


"Militose é a doença psíquica contagiosa que acomete as vítimas resultando em indisponibilidade para se retirar da luta. O sintoma mais visível é que a pessoa parece não querer ou não conseguir parar de militar. Ou as duas coisas. Há teorias de que a sua causação neurológica esteja em concentração excessiva do neurotransmissor "dialética" por toda a extensão do sistema nervoso central.

É muito fácil notar quando uma pessoa sofre de militose, basta se atentar para o quanto a pessoa vive sua vida como se todos os fenômenos que a compõem fossem passíveis de análise de conjuntura. E é justamente por isso que acabei escolhendo pra essa coluna o nome de militose.

A coluna vertebral dessa coluna tem dois eixos, psicologia e movimento estudantil. Então podemos falar sobre o movimento estudantil de psicologia, assunto que une as duas coisas, ou podemos passear pela órbita de qualquer uma delas, mas uma coisa sempre estará presente sustentando essa coluna (dando a liga, e permitindo que tais eixos sejam ao mesmo tempo independentes e interdependentes. A paixão militante, o vício pela transformação ou o que o evangelho de Mateus chama de "Fome e Sede de Justiça".

Nesse primeiro texto, a pergunta a ser respondida é: por que militar?

Em primeiro lugar, militar para não limitar. A militância é uma luta por transformação, pretende colocar o ser humano para além dos limites tradicionalmente impostos pelas condições atuais, condições normais de manutenção de injustiça. Superar limites impostos à liberdade é o objeto do desejo que move a militância. Essa paixão por reinventar limites no exercício de ser livre é o primeiro motivo para militar.

O segundo, que está implícito no anterior, é que o ser humano, como sujeito psíquico da invenção da história, e de sua constante reinvenção através do exercício de viver, tem a capacidade de transformar o mundo e a si mesmo. Mas essa capacidade está ocorrendo dentro de uma atual condição, onde cada vida humana, e todas elas, estão condicionadas pelo capitalismo e pela regra suprema de "Acumulai capital". Em nome disso vale tudo, vale induzir consumo, vale corrupção com recursos públicos, criminalização e extermínio de quem luta, vale usar o ser humano como se fosse coisa. E isso tudo para que os seres humanos estejam a serviço do Capital, uma coisa, inventada por humanos. O humano se deixa escravizar pela acumulação de um valor que ele próprio inventou, mas que ele não reconhece mais como inventor. Um valor que lhe é estranho, uma coisa em função da qual ele é alienado. A psicologia precisa entender como o capitalismo degrada o homem, seu objeto de estudo, e o transforma em coisa. e não falo do entender contemplativo, e sim do saber transformador, que no próprio ato de entender uma realidade, já vai transformando a mesma. Analisar a conjuntura, entender as contingências e como agir diante delas, qual o próximo passo. A paixão por transformar se sustenta na aposta que o homem é capaz de reinventar o mundo, e na certeza absoluta de que este mundo, como está hoje, precisa ser reinventado URGENTE. Fazer psicologia sem aderir, imediatamente, à luta de quem percebeu o fracasso do atual processo civilizatório, é a putrefação da psicologia. Por isso militar é fazer psicologia com dignidade.

Hoje existe uma jovem geração, cada vez maior, se unindo em torno da idéia de que outra psicologia precisa ser inventada, uma psicologia que, ao contrário da atual, aponte para uma nova civilização, e não fique apenas na promessa, enquanto adapta as pessoas à civilização atual, falida. Cada vez mais, jovens psicólogas, psicólogos e estudantes de psicologia, optam pela invenção da nova psicologia, que não seja a psicologia da falência, que não seja a psicologia do capitalismo, da vida como hoje a vivemos, mas que seja a psicologia de uma nova hegemonia. Contra a atual hegemonia da coisa sobre as pessoas, nós defendemos a contra-hegemonia, as pessoas sobre as coisas. As coisas em função das pessoas.

Um grande motivo pra militar: se juntar a essa geração que começa agora a reinventar a psicologia, que leva adiante o que tantas e tantos inventaram antes de nós. No ano em que se completa 50 anos da psicologia, e em que até mesmo o ENEP, Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia, maior evento de estudantes de psicologia do país, tratou a profissão em seu tema, esse espírito de "escritoras e escritores de uma nova história para a psicologia" se torna cada vez maior, cada vez mais forte. Em tempos de inventar  a contra-hegemonia, militar no movimento estudantil de psicologia se torna um imperativo, uma necessidade. E é claro que não terminaríamos aqui a resposta a essa pergunta: por que militar?

Porque é que essa paixão nos toma? O que faz com que pessoas deixem tanta coisa de lado, reinventem suas vidas para dedicá-las à luta e à mudança? Essa coluna quer ser uma ponte de parceria entre o blog Psicoquê e o meu blog (Artifício Socialista), para que aglutinemos cada vez mais pessoas em torno desse projeto de revolucionar a profissão. Se esse convite mexe contigo, vem com a gente viver esse surto de militose, e injetar uma alta dose de militose.