sábado, 29 de setembro de 2012

MILITOSE: A PSICOLOGIA CONTRA-HEGEMÔNICA


A PSICOLOGIA CONTRA-HEGEMÔNICA TEM ALGO A VER COM AS GREVES NAS FEDERAIS?
Por José Anézio



"Você, que estuda numa faculdade particular ou numa universidade estadual, você que, enfim, não viveu diretamente as greves nas universidades e nos institutos federais: esse texto também é pra você! O meu principal objetivo com ele é matar o mito de que a realidade das públicas e das privadas é completamente diferente. Então vou começar por uma particularidade da educação pública federal (o que eu vivo), pra falar da realidade geral da psicologia (que todas e todos nós vivemos). Quem vem comigo?


O meu segundo maior objetivo é trazer um primeiro saldo da greve das federais para a educação brasileira (tema de todo o movimento estudantil nacional), e o meu terceiro é trazer mais um elemento para pensarmos um rumo novo para a profissão Psicologia (tema do Movimento Estudantil de Psicologia (MEPsi)). Acho que esses três objetivos são indissociáveis.

Como todas e todos devem saber, já há alguns anos que o Movimento Estudantil Nacional de Psicologia tem procurado, cada vez mais e mais, inventar uma nova psicologia. Partimos do pressuposto de que a atual situação da nossa profissão fala de um interesse declarado por mudanças, uma face progressista, mas recheada por práticas e conteúdos que vão na contramão disso. A psicologia brasileira não é declaradamente conservadora, mas se a gente olhar bem de perto, vai descobrindo que não é uma profissão assim tão transformadora não! No entanto, não podemos jogar o bebê fora com a água do banho, e o nosso desafio é sair do atual cenário reformista, no qual o bebê é lavado sempre com a mesma água de todos os banhos anteriores. Parece que demos banho, mas o moleque tá imundo, mano!

Essa é a psicologia hoje, eu fico feliz de saber que muitas pessoas homofóbicas (em comportamentos ou apenas em pensamentos, mas enfim, pessoas criadas em uma sociedade homofóbica, e que não puderam escolher se o seriam ou não, mas que ainda são profundamente homofóbicas), são contrárias à cura de homossexuais. Isso faz parecer que o bebê tá lavadinho. Mas nós sabemos que essa profissão ainda tem muitos compromissos com o sistema de exploração capitalista, com as atuais políticas neoliberais do governo federal, com a defesa da propriedade privada e de valores morais conservadores, e que a nossa força de vontade sozinha não vai mudar esses compromissos: quem promove essa mudança são as pessoas, em luta, em formulação, do jeito que estamos fazendo hoje no movimento estudantil.

Sabemos também que o espaço de formação (a universidade, a faculdade, a instituição de ensino superior) é um componente importante da reprodução desta atual cara da psicologia, e que a invenção de uma nova cara não pode ignorar este espaço. Como estudantes, estamos debatendo esta reinvenção da profissão exatamente no lugar onde boa parte desta reinvenção poderá ser iniciada: nos cursos de psicologia do Brasil inteiro.

Porém, no último ENEP (Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia), enquanto discutíamos os 50 anos da profissão (transmitidos em 5 anos de formação), boa parte de nós vivia uma mesma realidade por todo o Brasil: estudantes, docentes e técnicos das federais em greve! Mais do que uma mera luta por aumento nos salários, essas três greves (assim como a greve nos institutos federais) traziam o debate sobre a atual situação gravíssima da educação brasileira, e também uma denúncia sobre o projeto que o governo federal tem tentado aprofundar: projeto de sucateamento e privatização da educação, e de transformação da educação pública numa mera formação técnica de profissionais acríticos para o mercado de trabalho. São os interesses de quem paga os salários, que também é quem paga o financiamento das campanhas eleitorais. Ou seja, muita gente se juntou, durante as greves nas federais, para pensar e exigir uma educação voltada para a formação crítica e transformadora, para a produção de conhecimentos que sigam esse caminho, e não o mero caminho de repetição da atual paisagem, cada vez mais apodrecida. Chamo atenção para a intersecção de interesses: essa educação almejada pelas e pelos grevistas, é exatamente a educação que precisamos para abrir caminhos rumo à nova psicologia que está em gestação no MEPsi.


Como a greve nas federais pode ter a ver com a formação em psicologia nas estaduais e nas particulares? Em primeiro lugar, porque questionou o projeto educacional aplicado pelo MEC (o mesmo que também regulamenta o ensino superior nas estaduais e nas faculdades pagas). Além disso, serviu como oportunidade de juntar a esquerda do movimento estudantil nacional, no Brasil inteiro, tanto entre si como com a esquerda docente e dos técnicos. Com isso, foi possível esboçar uma nova experiência de projeto contra-hegemônico para a educação, assunto que me leva a recomendar que pesquisem sobre o PNE da Sociedade Brasileira. Estou ousando afirmar que as greves da educação federal em 2012 apontam a possibilidade de construção unificada de outro projeto transformador para a educação, e que a construção do projeto contra-hegemônico para a psicologia precisa acontecer nos marcos desta construção unificada: se lutarmos ao mesmo tempo por outra psicologia e por outra profissão (neste segundo caso, em unidade com os demais movimentos sociais, principalmente da educação, mas não apenas), as duas lutas se consolidam, e a psicologia surgida destas lutas nascerá muito mais madura e consciente de si mesma.


Recomendo não só às e aos estudantes de psicologia das universidades federais, mas também das estaduais e das particulares, que estudem o cenário nacional e os diversos cenários locais destes últimos meses, para entender a luta política entre governo/capital e trabalhadores/estudantes, tanto o surgimento, quanto o desenvolvimento, e também o desfecho. Precisamos pensar as pautas de reivindicação das greves nacionais e também de cada greve local nas várias universidades do Brasil, sempre com uma pergunta como pano de fundo: o que isso nos ensina para a luta por uma psicologia transformadora?

Por fim, chamo atenção para a experiência do Comando Nacional de Greve Estudantil, que nos ensinou como driblar as burocracias institucionais que amarram as lutas, e inventar instrumentos de organização por fora destas barreiras. Saber como se organizar para a luta, e como estamos nos organizando, é tão importante quanto saber em nome de que lutaremos.

Este assunto está muito mais próximo de você do que você pensa. Caso pareça que algo ficou muito abstrato ou distante, comente, pergunte, ou mesmo me procure em particular para perguntar. Uma coisa a mais que essa greve nos ensinou: quem tem mais experiência no movimento não é necessariamente quem sabe mais sobre os rumos a serem tomados, e muitas vezes o conhecimento que falta aos experientes é justamente aquele produzido através do olhar que só tem quem está olhando pela primeira vez. Então espero poder tirar dúvidas de quem quer entender melhor tudo o que foi dito aí em cima, pra poder aprender mais com essas pessoas. E assim, fazermos juntos a transformação da atual psicologia em uma psicologia que transforme a atual sociedade!


Beijinhos de maracujá!"

Um comentário:

  1. Enfim, só reiterou o que eu já pensava antes. Essa greve não serviu pra porra nenhuma...

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