segunda-feira, 10 de setembro de 2012

INSÔNIA E DEPRESSÃO

Por Jéssica Fernanda

Atualmente, diante das demandas sociais cada vez mais estressantes, vem tornando-se mais comum a ocorrência de transtornos do sono, assim como de transtornos psicológicos. Dentre as causas mais citadas pelos indivíduos, encontram-se a insônia como distúrbio mais prevalente na vida diária dos sujeitos, a qual ocasiona um prejuízo considerável na qualidade de vida destes indivíduos insones.

O sono considerado normal e reparador, geralmente segue um padrão de estágios ou fases. As duas principais fases do sono são: REM ( Rapid Eye Moviments – movimentos oculares rápidos) e NREM (movimentos oculares não rápidos). O sono NREM é composto de quatro estágios, cada um sendo progressivamente mais profundo.

O sono normal é cíclico, em condições normais um indivíduo inicia o sono pelo estágio I do sono NREM, com um tempo de latência (quantidade de tempo necessária para adormecer) aproximada de 10 minutos. Após alguns minutos no estágio NREM – I, há a passagem do indivíduo para o estágio NREM – II, em que se torna mais difícil o despertar. Após 30 a 60 minutos, instala-se o sono de ondas lentas, os estágios III e IV do sono NREM. Passados em média 90 minutos acontece o primeiro sono REM, que dura no início da noite aproximadamente 5 a 10 minutos, completando-se assim o ciclo REM – NREM do sono noturno. Deste modo, diariamente cumpre-se em média 5 a 6 ciclos de sono NREM-REM durante uma noite de 8 horas de sono (FERNANDES, 2006).

A insônia pode ser definida como uma dificuldade em iniciar e/ou manter o sono, presença de sono não reparador, ou seja, insuficiente para manter uma boa qualidade de alerta e bem-estar físico e mental durante o dia, com o comprometimento consequente no desempenho nas atividades diurnas (TUFIK org. on-line 2003).

De acordo com Muller e Guimarães (2007) o sono desempenha importante papel na consolidação da memória, da conservação e restauração de energia e da restauração do metabolismo energético cerebral. Devido a estas importantes funções biológicas, os transtornos do sono podem comprometer significativamente o funcionamento físico, cognitivo e social do indivíduo, além de afetar a qualidade de vida do mesmo.

INSÔNIA EM INDIVÍDUOS DEPRESSIVOS

Para Chelappa (2010) o transtorno do sono mais comumente encontrado no transtorno depressivo é a insônia, com consequências diurnas como irritabilidade, deficit de concentração, de memória e Sonolência Excessiva Diurna (SED).

Ainda conforme Chelappa e Araújo (2006) a partir de investigações do padrão eletroencefalográfico do sono de sujeitos depressivos notaram-se diversas alterações. Dentre estas alterações, a mais evidente é a diminuição do tempo total do sono. Esta redução é decorrente do aumento da latência do sono, pelo aumento da vigília noturna e pelo despertar precoce.

Para estes autores, a comparação de estudos de neuroimagem em indivíduos sadios e em indivíduos depressivos, é extremamente relevante. Estes estudos demonstram que em indivíduos sadios há uma drástica redução das atividades corticais envolvidas com a vigília durante o período de sono N-REM. Já em pacientes depressivos, há uma incapacidade em reduzir estas atividades corticais, principalmente as corticais frontais, o que resulta em alterações do sono, queixas de sono não restaurador e sonolência diurna.

Cerca de 80% dos pacientes diagnosticados com depressão, relatam sofrer alterações significativas no sono. Em estudos epidemiológicos, a insônia encontra-se como um importante preditor no aumento de risco de transtorno depressivo no seguimento de um a três anos. Além disso, a persistência desta é associada ao aparecimento de um novo episódio depressivo (LUCCHESI et al., 2005).

Entre alguns estudos existentes acerca do tema em questão, apresenta-se o modelo de hiperativação do eixo Hipotálamo-Pituitária-Adrenal (HPA), o qual desregula-se a partir dos altos índices de produção de cortisol. Este, por sua vez, desempenha um papel fundamental no aumento da atividade do sistema nervoso simpático mediante a situações de stress (SARAIVA; FORTUNATO; GAVINA, 2005).

Diante de tais pesquisas, encontram-se dados de que pacientes acometidos pelo transtorno depressivo apresentam concentrações elevadas de cortisol na urina, no plasma e no líquido céfalorraquidiano. O excesso de cortisol presente no organismo destes pacientes, aumentam considerávelmente os sintomas afetivos presentes na depressão (humor depressivo, anedonia, anergia, e outros.) (SARAIVA; FORTUNATO; GAVINA, 2005).

Segundo Palma et al. (2007) a internalização de sentimentos como o stress, pode causar uma ativação psicológica ou fisiológica resultando na insônia. Alguns estudos propõe que a atividade intensificada do eixo HPA produz a fragmentação do sono, que, por sua vez, eleva os níveis circulantes de cortisol. Deste modo, esta hiperatividade exacerba a vigilância e tem impacto negativo sobre o sono, formando assim um círculo vicioso em que a dificuldade para dormir se torna o próprio fator estressante.

Segundo Silber (apud DALGALARRONDO, 2008) a insônia caracteriza-se pela dificuldade em adormecer, pela dificuldade em permanecer adormecido, despertar muito precoce, acordando de madrugada e não conseguindo voltar a dormir.

De acordo com Dalgalarrondo (2008) a insônia inicial e/ou o sono entrecortado (dificuldade em permanecer adormecido), geralmente ocorrem associados a casos de ansiedade aguda ou crônica, tensão ou preocupação excessiva ou depressão. Já a insônia terminal, associa-se frequentemente a quadros depressivos.

O distúrbio do sono nos quadros depressivos apresenta características que fazem parte dos critérios diagnósticos de depressão, como: dificuldade para dormir, alterações da continuidade de sono e despertar precoce, sono leve, interrompido e agitado (PRIMO, s.d.), para este autor, as anormalidades polissonográficas mais encontrados em sujeitos depressivos são: ruptura dos padrões de sono, diminuição do tempo total de sono, latência diminuída para o sono REM e sono NREM diminuído.

Segundo Poyares e Tufik (2003) a insônia quando relacionada aos transtornos do humor, acarretam uma diminuição na latência do REM e despertares precoces durante a manhã.

Conforme o DSM IV (BRASIL, 2003) a insônia relacionada a outro transtorno mental é caracterizada por uma queixa de dificuldade para adormecer, frequentes despertares durante a noite, ou uma sensação acentuada de sono não reparador que dura pelo menos 1 mês, e está associada a fadiga diurna ou funcionamento diurno prejudicado.

Os distúrbios do sono são aspectos comuns de outros transtornos mentais. Um diagnóstico adicional de insônia relacionada a outros transtornos mentais só é feito quando o distúrbio do sono é uma queixa predominante, suficientemente grave

a ponto de indicar atenção clínica independente. Os indivíduos com transtorno depressivo maior geralmente se queixam de dificuldades para conciliar e manter o sono ou de um despertar nas primeiras horas da manhã, com incapacidade de voltar a dormir (BRASIL, DSM IV, 2003).

Contudo estudos epidemiológicos indicam que a insônia é o distúrbio do sono com ocorrência mais frequente na população geral. De acordo com Robaina et al. (2009) a insônia está sendo reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um problema de saúde pública, frente aos prejuízos causados por ela nos indivíduos.

De acordo com Souza e Reimão (2004), os transtornos do sono estão entre os distúrbios clínicos com maior impacto de saúde e socioeconômico. Apresentam grande frequência assim como asma e diabete; porém, poucos são diagnosticados e tratados adequadamente.

Segundo Dalgalarrondo (2008) estima-se que no Brasil 10 a 40% das pessoas apresentam queixas de insônia, sendo 5% destas queixas, de insônia crônica.

Sendo assim para Vgontzas e Kales (apud SOUZA; REIMÃO, 2004) os distúrbios do sono são muito prevalentes entre a população e a insônia é o mais comum,e, quando crônica, geralmente reflete distúrbios psicológicos e/ou comportamentais.

Conforme o DSM IV (2003) a ocorrência dos transtornos do sono relacionado a outro transtorno mental são mais predominantes em mulheres, o que provavelmente se relaciona com a maior prevalência dos transtornos do humor e da ansiedade neste grupo.

Pois como afirma Poyares e Tufik (2003) a prevalência da insônia varia de 30 a 50% na população. Já a prevalência de insônia crônica é de 10%. São considerados fatores de risco para a insônia: o sexo feminino, o envelhecimento, a ocorrência de transtornos mentais ou de doenças clínicas e trabalhos em turnos alterados ou não habituais.

Diante o exposto pode-se notar que a insônia além de acarretar grandes prejuízos aos sujeitos acometidos também apresenta um índice de ocorrência alarmante. Conforme citado acima, este distúrbio do sono está tornando-se a cada dia mais frequente entre a população alcançando patamares de um problema de saúde pública.

A insônia como sintoma das patologias mentais, além de causar prejuízos sociais, profissionais e cognitivos aos sujeitos acometidos, também ocasiona um declínio considerável na qualidade de vida destes indivíduos, inclusive aumentando o risco de acidentes domésticos, no trabalho e no trânsito.

Verifica-se nos estudos realizados acerca da insônia uma falta de uniformidade em suas linhas de pesquisa, o que ocasiona uma ampla variabilidade dos dados epidemiológicos encontrados. A esta variabilidade de dados atribui-se os critérios de definição de insônia, a escolha da amostragem, a faixa etária e a amplitude das respostas coletadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM IV. Trad. Claudia Dornelles. 4.ed. Texto revisado. São Paulo: Artmed,2003.

CHELLAPPA, Sarah Laxhmi. Sonolência excessiva diurna e depressão: causas, implicações clínicas e manejo terapêutico. Disponível em:

< http://www.scielo.br/pdf/rprs/v31n3s0/v31n3a01s1.pdf>. Acesso em: 24 de abr. 2011.

CHELLAPPA, Sarah Laxhmi; ARAÚJO, John Fontenele. O sono e os transtornos do sono na depressão. Disponível em:

< http://www.scielo.br/pdf/rpc/v34n6/v34n6a05.pdf>. Acesso em: 24 abr. 2011.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.

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< http://www.fmrp.usp.br/revista/2006/vol39n2/1_o_sono_normal1.pdf>. Acesso em: 13 mar. 2011.

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 3. ed. São Paulo : Atlas, 1991.

LUCCHESI, Ligia Mendonça et al . O sono em transtornos psiquiátricos. Rev Bras. Psiquiatria 2005;vol. 27; 27-32. Disponível em:

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< http://portalsaudebrasil.com/artigospsb/medic020.pdf>. Acesso em: 24 abr. 2011.

PALMA, Beatriz Duarte et al. Repercussões imunológicas dos distúrbios do sono: o Heixo hipotálamo-pituitária-adrenal como fator modulador. Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Disponível em:

< http://www.scielo.br/pdf/rbp/v29s1/a07v20s1.pdf>. Acesso em: 26 abr. 2011.

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< http://www.institutotelepsi.med.br/Links_imagens/ainsonia.htm> Acesso em: 13 mar. 2011.

POYARES, Dalva; TUFIK, Sérgio (coord). I Consenso Brasileiro de Insônia. Hypnos – Journal of Clinical and Experimental Sleep Research 4 (Supl 2), p. 9-18, out. 2003.

ROBAINA, Jaqueline R. Et al. Stressfull life events and insomnia complaints among nursing assistants from a university hospital in Rio de Janeiro: The Pro-saude study. Rev. Bras. Epidemiol. Vol. 12, n. 3. São Paulo: setembro de 2009. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1415-790X2009000300018&script=sci_arttext&tlng=en>. Acesso em: 13 mar 2011.

SARAIVA, Eduardo Marinho; FORTUNATO, J.M. Soares; GAVINA, Cristina. Oscilações de cortisol na depressão e sono/vigília. Rev Portuguesa de Psicossomática 2005; vol. 07, p. 89-100. Disponível em:

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SOUZA, José Carlos; REIMÃO, Rubens. Epidemiologia da Insônia. Psicologia em estudo, Maringá, v. 9, n. 1, p. 3-7, 2004. Disponível em:

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OBRA CONSULTADA

LAMBERT, Kelly; KINSLEY, Craig Howard. Neurociência Clínica. Trad. Ronaldo Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2006.

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