quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A FELICIDADE EM 10x DE 29,90

Por Amanda Bragion

“A que se deve, com efeito, a nossa felicidade? À satisfação de um desejo. O desejo cria na consciência como que um vazio que pede imperiosamente para ser preenchido. A felicidade advém dessa espécie de plenitude que sentimos logo que esse vazio se dissipa e em vez da falta sentimos o ser. Ora, a satisfação do nosso desejo não depende de nós. Porque o nosso desejo se inclina para o mundo, é ao mundo que é dado satisfazê-lo ou iludi-lo.” (Henry)

A partir desta citação de Henry sobre a felicidade faz-se possível refletir e contextualizá-la para as questões que envolvem o corpo e a corporeidade, embora sua fonte original nada tenha a ver com o assunto. A questão central trazida pela citação é a felicidade. A que se deve a felicidade? 

Na sociedade ocidental, na qual estamos imersos, o corpo determina muito sobre a pessoa. Especificamente para a mulher, ser magra simboliza competência, sucesso, controle, atrativos sexuais, enquanto o excesso de peso e a obesidade representam preguiça, indulgência pessoal e a falta de autocontrole e força de vontade. Numa cultura onde há inserido um padrão de beleza tão rígido, as pessoas vão se afastando cada vez mais de si mesmas, tendo suas vidas e percepções mais impróprias, rendendo-se à necessidade de se tornarem “Mulheres Maravilha e Super Homens” para satisfazer uma necessidade que não parte da própria pessoa, mas uma imposição do outro. Está aí a maneira imprópria de viver. As novelas, comerciais, desfiles, programas de moda, revistas, entre outros, vem persuadir o indivíduo a buscar o corpo e o modo de ser que passaram a ser vistos como “corretos e adequados”, maximizando a preocupação que as pessoas têm em relação à satisfação corporal. A partir disso, com fins comerciais, vão transmitir a ideia de que o corpo é infinitamente maleável, pois as cirurgias plásticas no seio, nariz, lábios, são frequentemente citadas nas revistas; pessoas têm seus dentes corrigidos em alguns quadros de programas na televisão que pretendem deixar a pessoa com a aparência dez anos mais jovem. Também são oferecidos chás e shakes emagrecedores, aparelhos de gisnástica de última geração para ter na própria casa e etc.

Mas o que isso tem a ver com felicidade?

Com felicidade, nada. Tem mais a ver com a falta da felicidade, pois quando o ideal de beleza proposto é uma impossibilidade biológica ou mesmo psicológica, a insatisfação corporal se torna cada vez mais comum.

A persuasão midiática começa a fazer efeito neste momento, pois a felicidade passa a ser buscada através dos meios de consumo. A felicidade deixa de ser uma sensação, um “estado de espírito”, um sentimento, e passa a ser um objeto, algo que se possa comprar, e comprar, e comprar, visando encontrar a felicidade que não faz mais parte de si. Engana-se quem pensa que a venda da felicidade é feita de maneira implícita! Os comerciais bombardeiam o consumidor com possibilidades de ser feliz. É possível lembrar de algumas campanhas:

“Pão de açúcar, lugar de gente feliz”;
Mc Lanche Feliz ou do Mc Dia feliz do Mc Donald´s;
Abra a felicidade você também” no comercial da Coca-Cola.
“Vem ser feliz” no Magazine Luiza.


Nestes anúncios publicitários, o que se vê são pessoas bem sucedidas, sempre sorridentes, alegres, cantando, se abraçando, passeando, dançando, enfim, felizes. E não é para isso que os produtos e serviços são oferecidos? Para que as pessoas se sintam bem, se satisfaçam, atinjam seus sonhos, cheguem ao patamar desejado, isto é, se sintam felizes.

É propagada a ideia de que tudo tem solução, como se precisasse de alguma solução, como se fosse obrigatório ser desse ou daquele outro jeito.  “Para insatisfação com o corpo, partes postiças; para as rugas, cremes miraculosos; para as gordurinhas indesejadas roupas adequadas ou academias repletas de promessas ou, ainda, dietas que adornam a esperança”; tudo, naturalmente, para que, no final das contas, os consumidores atinjam um excelente patamar de vida.

A distância entre o corpo da televisão e das revistas e o corpo refletido no espelho, é geradora de grandes conflitos, uma vez que a mulher deseja ter o corpo da revista, e que raramente o terá, e ao buscá-lo, pode cair na armadilha do mercado consumista que vende o corpo magro, a qualidade de vida e a felicidade nessas campanhas publicitárias, em embalagens de adoçantes, vitrines de academia de ginástica, etc.

A frustração gerada por meio disso alimenta o próprio mercado de consumo com o crescimento da indústria química de medicamentos contra ansiedade, estresse, angústia e enchendo os consultórios dos médicos, psiquiatras, psicanalistas, psicólogos, entre outros profissionais que vão amenizar ou tratar a dor não física, mas sentimental, via oposta à materialização da felicidade.

O que tirar de tudo isso?

Só entendendo sua singularidade é que o sujeito vai encontrar sentido naquilo que é verdadeiro e belo para si mesmo. É dentro de sua individualidade e sua essência que a pessoa buscará o melhor em si, se percebendo na relação com o outro, não aceitando a imposição do outro. Permanecer preso a padrões, na maioria das vezes inatingíveis, somente limita a vida do ser humano e distorce a realidade. Continuar nessa busca só gera sentimentos negativos e perdas, pois nada é mais cruel do que lutar contra um inimigo não palpável. Nem sempre o que se deseja e quer pode ser realizado. Deve-se, portanto, encontrar caminhos para desenvolver a autoestima e descobrir aquilo que realmente é importante e belo para cada um.

Textos de apoio:
BRAGION, A.; MACEDO, P. C. A.; MOREIRA, K. R.; PEDREIRO, P. P.; TORRES, A. A.; VERGARA, A. M.; GARCIA, G. Z. (orientadora). A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA IMAGEM CORPORAL PARA MULHERES OBESAS: Cultura, Mídia e Padrão de Beleza. Pesquisa de Campo em Psicologia Social. Curso de Psicologia, Instituto de Ciências Humanas, UNIP – Universidade Paulista. São Paulo – Araraquara, 2011.

http://terramagazine.terra.com.br/blogdorizzattonunes/blog/2012/09/03/a-felicidade-e-um-produto-de-consumo/
Wondracek, K. H. K. Da felicidade ao pathos: uma introdução à Fenomenologia da Vida de Michel Henry. Alemanha e Portugal, 2008.





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