quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A DITADURA DA INTERFACE

COMO UMA INTERFACE PODE INFLUENCIAR TUA VIDA E TUAS RELAÇÕES
Por Marcio Berber Diz Amadeu


"Cada vez mais a Internet está se fechando em plataformas com interfaces específicas. E cada detalhe delas, por menor que seja, influencia a nossa comunicação e o modo de nos relacionarmos"



Há muito tempo fala-se sobre relações mediadas pelo computador. Relações que acontecem por meio dos nossos PCs, notebooks e até mesmo celulares.

Relações cujos contextos são nossos e-mails, nossas redes sociais, navegadores ou programa de mensagens instantâneas, etc. Aposto que apenas citando esses nomes, as imagens das telas, botões e mensagens de cada um deles surgem na sua memória.

Você já parou pra pensar em como todas essas relações passam pela interface do software que você usa? Por exemplo: seus e-mails são lidos e enviados do seu programa de e-mail preferido. Você conversa com seus amigos numa rede social específica, com funcionalidades específicas (chat, mensagens, perfis, etc). E o objetivo deste artigo é refletir um pouco sobre essas interfaces e como elas podem influenciar as nossas relações.

Segundo a Wikipédia, o conceito de Interface é amplo, pode se expressar pela presença de uma ou mais ferramentas para o uso e movimentação de qualquer sistema de informações. Em outras palavras, interface é o conjunto de comandos disponíveis e respostas (geralmente visuais) que o computador lhe dá ao realizar uma ação.

Mas como uma interface pode influenciar a sua vida e as suas relações? Para entender melhor, vejamos este exemplo: há algumas semanas atrás, um vídeo cruel de uma mulher agredindo um animal circulou por várias redes sociais. O vídeo causou comoção de muitas pessoas e reações de ódio e indignação. Compreensíveis, mas para este exemplo, precisamos deixar de lado o aspecto moral desse acontecimento.

Voltando ao vídeo, essa não é a primeira vez que um animal é agredido por um ser humano e gravado em vídeo. Mas a interface do Facebook permitiu que esse vídeo fosse distribuído, compartilhado e comentado indefinidamente. E o mais importante: isso ocorreu de maneira extremamente rápida!

O usuário médio recebia o vídeo por um amigo no seu mural. Antes mesmo de assistir já tinha uma opinião formada pelo que os seus amigos diziam a respeito e compartilhava (assistindo ou não) para se juntar à massa enfurecida. Tudo isso ocorrendo num espaço de minutos.

Todos sabem que publicar qualquer tipo de conteúdo no Facebook é extremamente fácil. A facilidade de uso é uma das qualidades mais buscadas na construção de uma interface. Ela permite que nós usemos o site ou programa sem precisar pensar, de maneira quase automática. Algumas empresas investem muito dinheiro em pesquisas apenas para tornar um site mais usável para você.

E voltando ao vídeo, a velocidade somada à facilidade de uso e a sensação de grupo gerada pelo Facebook foram os ingredientes principais para gerar esse “acontecimento”.

Veja, certamente há outros aspectos que influenciam em qualquer conteúdo viralizado, mas perceba como o Facebook construiu uma interface que facilita esse tipo de comportamento. Lá você está próximo de amigos, agindo em grupo e facilmente compartilha qualquer tipo de opinião. Opinião que muitas vezes já vem pronta na forma de um vídeo ou imagem. E isso não é mérito desse site, já que nos últimos anos diversas redes sociais tentaram seguir o mesmo caminho e apenas por pouco não estão no lugar dele.

O Facebook apenas teve a sorte de descobrir antes a fórmula para atrair mais e mais usuários. E pela sua audiência, sua interface dita as regras nos dias de hoje, mas poderia ser outro. De fato Facebook, Google e Apple são os maiores responsáveis pelas interfaces no nosso tempo.

A meu ver, o principal problema da supremacia de uma interface ou outra é a limitação que ela nos causa, uma vez que toda a comunicação que criamos ou recebemos passa pelos seus moldes e por fim nos aliena.

Cada vez mais a Internet está se fechando em plataformas com interfaces específicas. E cada detalhe delas, por menor que seja, influencia a nossa comunicação e o nosso modo de nos relacionarmos. Cada funcionalidade, cada interação, expressa não só a nossa comunicação, mas também a da própria interface. E se o que comunicamos e percebemos passa sempre por essa forma, nossa realidade vai ficando também cada vez mais restrita.

Amanhã, você estará falando com seus amigos por meio de uma dessas plataformas. Mandará mensagens e receberá respostas através dessa interface. Pense nisso. 


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