quarta-feira, 15 de agosto de 2012

SILÊNCIO E PENSAMENTO EM BALINT


A Escola Inglesa de Psicanálise se notabilizou por diferentes abordagens em torno das relações de objeto. Dentre os autores desta escola de psicanálise, Michael Balint foi um dos que contribuiu para uma análise do silêncio na teoria psicanalítica.

A partir de sua experiência com pacientes silenciosos, Balint reforçou que o silêncio cada vez mais tem sido reconhecido por ter muitos significados que não aqueles pontuados por Freud e seus discípulos, pelo contrário, ele pode ter muitos significados sendo que cada um deles exige um manejo diferente por parte do analista.

De acordo com autor, o silêncio pode se constituir como “um vazio árido e assustador, inimigo da vida e do crescimento, no qual o paciente deve ser retirado dele o mais cedo possível”. Em outro momento, Balint afirma que o silêncio poder uma excitante e amigável expansão, convidando o paciente a empreender jornadas de aventuras em terras desconhecidas de sua vida de fantasia, na qual qualquer interpretação transferencial estará completamente deslocada. Por fim, o silêncio ainda pode significar uma tentativa de reestabelecer o amor primário que existe em cada indivíduo a partir de uma relação objetal.

No setting analítico, quando o silêncio é interrompido, ele pode ser experienciado como invasão, intrusão ou até mesmo interpretações deslocadas do mundo interior do indivíduo, sobretudo quando pacientes estão na fase da regressão à dependência. Neste caso, os pacientes encontram-se ou retraídos ou em estados de pura introspecção quando a análise já caminhou um pouco mais, produzindo uma devastação ou uma desorganização no mundo interno desse indivíduo. De acordo com Balint, um paciente silencioso pode estar afastado do trabalho analítico e associativo; ao invés de associar, pode encontrar-se em puro momento introspectivo, regredido a algum período de sua vida, recordando alguma experiência que lhe foi importante, escapando da regra fundamental da análise.

Para Balint o paciente silencioso traz um problema para o manejo da técnica. A atitude habitual na análise é considerar o silêncio como sinônimo de resistência do paciente ao processo analítico e suas dificuldades em trazer à luz o material inconsciente originados no seu passado e na sua história de vida. Até certo ponto, há indivíduos que vivenciam momentos de silêncio na análise como uma resistência e como problema transferenciais. No entanto, podemos supor que algo a mais acontece – o paciente silencioso também pode estar pensando ou recordando seu passado e sua história de vida, pode estar associando, pode estar elaborando ou ainda regredindo a um período de sua vida em que se sinta seguro.

A mudança de abordagem com relação ao silêncio e o manejo da técnica podem levar a considerar o silêncio mais como algo positivo que pode ser vivenciado no setting e menos como sintoma de resistência. O silêncio pode ainda ser considerado como fonte de informação acerca das primeiras experiências vividas pelo analisando em sua relação com o seu primeiro objeto de amor ou ódio. Pode falar até mesmo da criança que vive dentro do paciente cujas experiências não podem ser expressas sob forma de palavras. Mais do que isso, o silêncio vivido no setting analítico pode ser uma boa forma de entender a experiência de pensamento do paciente no decurso do processo analítico.


Fonte: Sergio Gomes




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