quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O AMOR DO BEHAVIORISMO RADICAL


“O que é o Amor se não outro nome para reforçamento positivo?”


Eu estaria sendo muito prepotente se afirmasse que esta simples coluna diria por completo o que é o AMOR dentro da filosofia de uma ciência do comportamento. Mesmo assim, estou me propondo a realizar uma introdução a esta temática que desperta grandes incógnitas e fascínio no campo da "PSI" e conseqüentemente no campo da Análise do Comportamento.

A frase de Skinner (1948) no início deste texto não foi escolhida por acaso. Embora sua primeira impressão tenha impacto "mecanicista" para muitos leitores, ela é o começo de nossas reflexões em busca das avaliações funcionais que compõe, ou poderiam vir a compor a topografia denominada "AMOR".

Para Análise do Comportamento, a conduta humana é multideterminada pelas contingências filogenéticas (seleção natural pertinente à espécie), pelas determinantes ontogenéticas (história de vida de cada sujeito) e determinantes culturais (influência da cultura na seleção e modelagem de comportamentos individuais). Vou tentar focar o nível ontogenético, pois me sinto mais à vontade conceitualmente para expor minha opinião neste recorte.

Para Skinner (2000), os eventos reforçadores podem ser de dois tipos: I) Apresentação de estímulos ou acréscimo de alguma coisa, por exemplo, a adição de alimento, água, ou contato sexual contingente a uma resposta ou situação, e estes, recebem o nome de reforços positivos; II) Remoção de alguma coisa contingente à resposta, por exemplo, remoção de muito barulho, de luz muito brilhante, de calor ou frio extremos, ou um choque elétrico da situação, eventos desta natureza recebem o nome de reforços negativos. Em ambos os casos o efeito do reforço será o mesmo: ele será responsável pelo aumento da probabilidade de resposta, ou seja, eventos que são reforçados no passado têm a probabilidade de ocorrer no futuro.

É provável que o autor tenha feito esta comparação entre AMOR e reforçadores positivos, pois esta topografia tem em grandes proporções alguma relação com ADIÇÃO de eventos / conseqüências a ações das pessoas, como por exemplo, a adição de atenção, de contato sexual, de cuidados, de carícias, de intimidade, e assim por diante.

Sidman (2003), ao analisar alguns recortes acerca da conduta humana se refere ao conceito de freqüências, onde, por exemplo, chamamos alguns alunos de falantes, pois observamos que ele fala bastante, chamamos alguns alunos de inteligentes, ao ver que eles estudam muito, chamamos alunos de céticos, pois estes questionam muito seus professores, chamamos pessoas de felizes, pois observamos que sorriem demais e assim por diante. Observamos o tempo todo, sem que se possa dar conta, que a freqüência de comportamentos aumenta, pois foram reforçadas no passado. Ao conjunto de comportamentos freqüentes, nossa sociedade dá nomes como: valores, moral, conduta, personalidade, competências, características, subjetividade, e assim por diante.

O conceito de freqüências didaticamente explicado por Sidman (2000) é extremamente importante para que eu possa explicar como B.F. Skinner associou tecnicamente o AMOR ao conceito de reforçadores positivos.

Vamos lá... É comum que estudantes e/ou interessados pelo que chamamos de AMOR se deparem com o paradigma: "Eu o (a) amo por que gosto dele (a) ou eu gosto dele (a) por que eu o (a) amo?". Se olharmos para freqüências de respostas para dar nome a uma topografia de comportamentos (AMOR, INTELIGÊNCIA, DINAMISMO, ATENCIOSO, CARINHOSO, ETC.), que uma vez decomposta ou descrita, trará nitidamente uma gama de repertório (s) comportamental (is), estaremos abandonando a redundância ("vende mais por que é tostines ou é tostines por que vende mais?").

Ao abandonar a redundância de explicar uma topografia de comportamentos com outra, nós saímos do campo MECANICISTA para entrar no campo FUNCIONAL, ou pelo próprio Skinner, passamos a buscar ordem entre os eventos e chegar à raiz de cada comportamento.

Bom, já sabemos o que são reforçadores, já sabemos como a freqüência de comportamentos passam a compor uma topografia (AMOR), agora podemos dentro do campo das determinantes ontogenéticas, tentar imaginar como o AMOR pode se dar de diferentes maneiras em diferentes sujeitos e ainda...ser chamado pelo mesmo nome: "O AMOR".

Alguns tipos de AMOR que conhecemos:

* Ele (a) me bate, mas eu o (a) amo: O rato no laboratório pressiona a barra para ganhar uma gota de água (resposta > reforço positivo). Com o desenrolar de sua história de vida, ele passa a ter que pressionar a barra para ganhar a água, porém junto com a água vem o choque. O rato teoricamente tem a opção de não apertar a barra e passar sede ou apertar a barra, ganhar a água e de anexo... o choque. Têm mulheres que mesmo apanhando do marido não conseguem largá-lo..., pois junto com os CHOQUES, estão emparelhados os reforços positivos (lembram-se !?... são aqueles que mantêm e aumentam a freqüência de uma ação!). Pessoas que se submetem a esta situação não sabem descrever por que se comportam desta maneira. Outra possibilidade é que estejam presentes esquemas de reforçamento intermitente, onde o reforço positivo vem de tempos em tempos. Este esquema de reforçamento é conhecido na ciência do comportamento e diversos relatos de experimentos pela resistência a extinção. Daí para frente vai uma infinita listagem de variáveis e hipóteses que poderíamos fazer ontogenéticamente à luz dos conceitos da Análise do Comportamento. As adições neste tipo de amor poderiam ser inferidas e/ou hipotetizadas, por exemplo: adição de moradia (no caso da mulher do lar que não trabalha e depende do marido), adição de contato sexual (mesmo me batendo, me satisfaz na cama), etc.


* Amor à primeira vista: Um bebê ao nascer não tem amor à primeira vista por um (a) parceiro (a). Conforme evoluem nossas relações, nosso repertório comportamental vai selecionando estímulos dos ambientes aos quais nos relacionamos e para quais ficam-se sensíveis. Daí, passamos a gostar muito de chocolate e de limão não... passamos a gostar de praias e de sítios não... passamos a gostar de pessoas mais altas e de mais baixas não e assim sucessivamente. Amor à primeira vista ocorre geralmente quando os estímulos certos aos quais você é sensível cruzam o seu caminho, por exemplo: imagine que você adora pessoas altas, morenas, que fazem engenharia, que são inteligentes, que gostem de dançar, e de repente, aparece esta pessoa na sua vida. Pode ser que você nem esteja suficientemente sensível a ponto de saber descrever o que disso tudo lhe atraiu..., ou o "por quê" de ser à "primeira vista", mas podemos ter certeza que há uma funcionalidade nesta relação sujeito - ambiente. As adições aqui poderiam ser inferidas e/ou hipotetizadas, por exemplo: Status social de namorar uma pessoa alta, morena que faz engenharia, considerar que já que ela gosta de dançar e eu também... seria alta a probabilidade de sairmos para baladas, e assim por diante.

* Amor de amigo: Amigo é o cara que mesmo te zoando está saindo com você (adição), está lhe dando conselhos (adição), está lhe emprestando dinheiro (adição), está lhe elogiando (adição), está lhe dando atenção (adição), está defendendo você (adição), está lhe fazendo rir (adição), está lhe contando piadas (adição), está lhe convidando para sair (adição), etc. Para chamarmos alguém de "amigo" mesmo não assumindo que os amamos... pode-se pressupor que há muita liberação de reforçadores positivos deles para conosco.

A Análise do comportamento tem em seu arcabouço teórico conceitos para avaliar funcionalmente todo e qualquer tipo de amor: A) amor do tipo ciumento; B) amor platônico; C) amor exagerado; D) amor de familiares; E) amor por animais de estimação; F) amor por objetos; e assim por diante, desde que, o analista do comportamento que se propõe a esta análise consiga sair do campo da topografia e evolua / alcance a ordem funcional entre os eventos e portanto, a influência, o impacto, a importância desta topografia na vida de nossos clientes.

Os comportamentos encobertos ou o sofrimento à exposição a diferentes esquemas de reforçamento não podem ser encarados como fórmula mágica ou padrão para compreensão de comportamentos indesejáveis ou alvos de mudanças de nossos clientes. Casa caso é único, e merece todo cuidado possível, livre de interpretações prévias do terapeuta.

Eu AMO a abordagem comportamental, pois ela adicionou grandes ganhos à minha história de vida e repertório comportamental.

"O que é o Amor se não outro nome para reforçamento positivo?"
(SKINNER, 1948, WALDEN TWO, P. 282)
E então... a frase do início da coluna ainda dá a idéia de mecanicista?



Fonte: Rede Psi

2 comentários:

  1. Excelente texto livre de especulações mentalistas. Apenas uma observação na penúltima linha do penúltimo parágrafo há um erro "Casa caso é único..."

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  2. O que teria dizer sobre a chamada de Friendzone quando o amor de amigo não se pode tornar amor romântico ?

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