segunda-feira, 13 de agosto de 2012

ENTRE GRODDECK E FREUD


Temos como intúito principal com a publicação deste artigo, trazer à público um encontro entre dois homens, no qual muito mais existiu do que uma mera discussão acadêmica.

Sabemos que quando Georg Groddeck escreveu para Freud pela primeira vez, já não era um homem novo, à época contava com 51 anos e tinha um currículo importante: romances, poemas, atividade social em movimentos cooperativos e, não menos importante, uma atividade médica. Sabe-se que ele fundou a sua clínica em 1909, em Baden-Baden, onde atendia àqueles que não tinham encontrado auxílio em um outro lugar. Era assim, considerado como um médico ou curandeiro de grande renome.
Pelo menos aparentemente, não se verifica nenhum motivo para que Groddeck tivesse procurado por Freud. Ele já era ele mesmo, com um rumo próprio. Mas então "que mosca o teria picado?" O que teria unido esses dois homens geniais?

Encontramos, na literatura especializada, várias hipóteses: François Roustang afirma que Groddeck teria sofrido - ele, convencido da originalidade de seu percurso e de suas idéias, mas duvidando de estar realmente na origem de seu pensamento - por ouvir falar por toda parte o nome de Freud. Dizia Groddeck: "quando aprendi a conhecer as obras de Freud, tive que renunciar a ser eu mesmo, um descobridor". Não restava outro caminho, há não ser, o de aceito no "círculo" freudiano. Mas Groddeck também queria deixar bem claro, que não seria devedor de Freud.
Parece que a situação era a de um impasse: Se Freud "adotasse" Groddeck, teria que desconhecer a diferença em relação a ele e aos "confrades"; mas, se ressaltasse as diferenças entre o pensamento dos dois, acabaria por ter que mantê-lo afastado. Parece que Freud teria se apercebido da ambigüidade e da intensidade da demanda, vindo a conceder a Groddeck um lugar, porém seria ele o único analista "selvagem". Sabemos que o modelo de médico para Groddeck não era Freud, mas sim Schweninger. Groddeck atribuía a este último, uma de suas idéias fundamentais, a qual é contrária à ética médico-social atual, a qual nos atribui, sob o disfarce do direito à saúde, o dever de sermos sadios.

Parece que Groddeck teria nos concedido o direito a ficarmos doentes, uma vez que o sintoma, a seu ver, seria mais uma linguagem a ser traduzida, do que uma criação do Id no corpo. Para esse autor, haveria uma indiferenciação entre a linguagem e o corpo. Dizia ele, "O isso goza onde isso fala". Groddeck parece ter sido o único psicanalista que faz rir - quando a explosão de um corpo que já não mais consegue conter, seja o seu gozo ou o seu sofrimento. Para ele, "Quando se diz: eu penso, eu vivo, tratar-se-ia e uma deformação. Pensava que dever-se-ia dizer: Isso pensa, Isso vive"(Em: La maladie, l'art et lê symbole. Paris: Gallimard, 1969).

Interessante podermos observar que, na visão de Groddeck, Freud era prudente demais e se perguntava, por que tendo Freud reconhecido os poderes do Inconsciente, o deixava circunscrito ao campo das neuroses. Por que não a estendia ao domínio do orgânico? Por que será que tendo denunciado as ilusões do ego, ele não via que a ciência da alma encontrava-se dentro dos mesmos limites daquilo que pretendia apreender? Assim, já que éramos, quer na condição de doentes, como de sadios, apenas "joguetes" do Id, restava-nos brincar: "Aquilo com que se brinca é absolutamente sem importância, mas tem-se que brincar". Entretanto, Groddeck, esse menino brincalhão, voltou-se para o notável professor Freud. Groddeck sabia que Freud sempre repugnaria à construção de uma nova Weltanschauung (visão de mundo).

Uma outra pergunta mos acode ao espírito: quando Grodeck procurou Freud, onde estava este? De certa forma a sua obra estava concluída. O campo do interpretável fora já explorado, além de terem sido traçados os eixos principais da metapsicologia. Ocorre que essa obra estava concluída na sua instauração e conquista, mas sabia-se que muito ainda havia para ser percorrido, uma vez que as noções de pulsão de morte, masoquismo primário e reação terapêutica negativa, além daqueles que preferem a sua dor à cura e, finalmente, a idéia presente da existência de um sujeito clivado, fendido, não mais apenas em relação a um recalcado posto à distância, mas sim no próprio lugar onde reconhecia em si mesmo, algum resquício de autonomia.

A impressão que temos é de que Groddeck teria chegado para Freud na hora certa. Para Groddeck, sabemos que este não fazia nenhuma distinção entre corpo e alma, ciência e jogo, consciência e inconsciente, masculino e feminino, criança e adulto. Ao examinarmos a "Correspondência", encontramos uma carta onde Groddeck, jogando com as palavras, reivindicou para si "a supervalorização do subjetivo e do contraditório". Dizia Groddeck: "As cabeças sistemáticas", também precisam, para a sua valorização, de gente da minha espécie, numa metáfora da pimenta que não deve ser desprezada. Dizia Groddeck, "Não vejo os limites entre as coisas,vejo apenas a confluência".

Freud, já em sua primeira resposta a Groddeck, o teria advertido de que não o seguiria nesse terreno. Na verdade Groddeck era considerado como um "filósofo", além de como um monista que desconsiderava as "belas indiferenças", em detrimento da "bela totalidade".

Como parece que já estava previsto, as críticas na união daqueles dois homens, começaram a surgir e Freud se manifestou, segundo o que segue: "Não compartilho com o Sr. do seu panpsiquismo... A mitologia do Id... Uma monotonia insatisfatória". Numa resposta, a meu ver emocionada, ou que a mim emociona, Groddeck teria respondido a Freud: "O Sr. não é um leitor no sentido habitual da palavra. É Freud e como tal, talvez fizesse melhor em julgar com indulgências as extravagâncias de seus adoradores". Ainda emocionado, e me emocionando, Groddeck continua dizendo: "Assim como a sua apreciação estimula, a sua censura mata".

Se lançarmos uma olhada na contemporaneidade da Psicanálise, perceberemos que a psicanálise ainda não sabe muito bem o que fazer com G. Groddeck. É bem verdade que a psicanálise ignorou-o por um bom tempo e quando tomou conhecimento dele a contragosto, foi para lhe conceder o lugar de poeta, do intuitivo meio genial, provocador. Groddeck acabou sendo aceito por uma recomendação direta de Freud, na Associação Internacional e foi tolerado sem ser dali excluído. Conta-se que o severo pastor Oskar Pfister, teria considerado Freud como muito complacente, para com os gracejos groddeckianos. Da literatura sabemos que nem mesmo os psicossomatistas atuais, com a sua preocupação metódica de determinar com um rigor cada vez maior a especificidade do doente, dos distúrbios, dos mecanismos mentais psicossomáticos, especialmente no tocante à conversão histérica, reconhecem em Groddeck o seu precursor.

Penso ser muito importante deixarmos explícita a posição de Groddeck: para ele não bastava considerar secundária a distinção entre o soma e a psique, nem tampouco rejeitá-la. Groddeck recusava a própria idéia de uma "psicogênese". Segundo as suas próprias palavras: "todas as doenças são psicogenéticas e fisiogenéticas... a questão da psicogênese não existe... já é hora, seja de eliminar as palavras corpo e alma, seja de defini-las de novo". Segundo J.-B. Pontalis, foi justamente censurando Groddeck pelo seu pansexualismo, que enganou-se de alvo. Mais valeria falar, em se tratando de Groddeck, de um "panorganismo", desde a bactéria até a obra de arte. Em Groddeck, a psique não passaria de um subproduto do vivo.

Assim, o fato que nos causa espécie é o relacionado a Freud, homem tão atento à questão de doutrina, o qual mostrou-se sempre tão seguro em decidir entre o que era ou não psicanálise, bem como o que deixaria de sê-lo. Vale lembrar de nomes como os de A. Adler, W. Stekel, C. G. Jung e Otto Rank e outros. Por que será que Freud não teria agido da mesma forma com relação a G. Groddeck? A explicação que melhor parece se configurar, como sendo a mais próxima da realidade dos fatos e dos sentimentos neles envolvidos, seria a de que Freud, nunca teria visto em Groddeck, uma grande ameaça à psicanálise, além de não acreditar, também que ele conseguisse edificar um construto teórico estável e defensável.

Em relação ao "Livro do Id", publicado por Groddeck, Freud teria dito o seguinte: "Em seu Id, não reconheço o meu Id, civilizado, burguês, despojado do misticismo". Para Freud, o erro de Groddeck consistiu em apagar na indeterminação do Es (NEUTRO), toda e qualquer possibilidade de determinação específica, e é plausível, como já se observou, que ele pensasse em Groddeck quando, num de seus últimos fragmentos: "O misticismo é a auto-percepção obscura do reino fora do ego, do Id". Assim, à "luz" freudiana constitui em aproximar-se dessa tal obscuridade, sem nela se perder, ou mesmo, de submeter-se a ela.

De acordo com uma citação de Pontalis, a qual também muito me emociona: "Groddeck não é o filho, o herdeiro fiel ou mesmo revoltado que retoma a palavra do pai, não se constituindo no filho DA psicanálise, mas sim o filho NA psicanálise. É como se Groddeck, perguntasse aos adultos: "Por que vocês são tão sensatos e tão tristes?" Ainda segundo Pontalis, Groddeck, com a sua arrogância pessoal, torna-se necessário para podermos contrapor o excesso de "saber psicanalítico".

Compreenda-se que para Groddeck, o fato de nós nos tornarmos "doutores em matéria de inconsciente", se constituiria no cúmulo da impostura.

Pontalis nos alerta que não é como um iniciador de uma nova teoria que convém lermos Groddeck. Na verdade ele nos faz um convite a que nos perguntemos, de que são feitas as nossas teorias pulsionais em sua origem, e alimentadas pela fantasia em seu conteúdo, eles sempre estiveram mais ou menos aliados ao ego em sua finalidade de dominação. Aquilo que Groddeck nos dá a entender, disse-o sem qualquer rodeio ao seu amigo Sandor Ferenczi: "Pessoalmente não produzo nada, sou excessivamente maternal, orientado para o deixar conceber e o deixar crescer; minhas brincadeiras com minha irmã, aliás mais velha, eram chamadas por nós de mãe e filho, e eu era sempre a mãe". Num outro ponto da mesma carta a Ferenczi, dizia Groddeck: "Você tem a obrigação de querer compreender as coisas, e eu, por minha vez, tenho a obrigação de não querer compreender. Sinto-me bem na imago do corpo materno, enquanto você quer ficar longe dela".

Entendemos que essa fala estava dirigida muito mais a Freud do que propriamente a Ferenczi. Groddeck preocupava-se em saber como despertar o maternal no homem. Aqui temos um paradoxo, no sentido de que a quem ele tinha procurado se aproximar era de Freud, um Pai, detentor do saber, do sentido e da lei, ao mesmo tempo desejando, ao preço de que empenho e que decepções, convertê-lo numa mãe, a qual só precisasse dele.

Teríamos aqui a fantasia confessa de re-união, a qual só poderia retardar a experiência de ruptura, de divisão, de des-ligamento.

Finalmente, Groddeck morreu em 1934, sem que se tenha notícia de ter deixado alunos e muito inquieto quanto ao destino de sua obra, afetado no corpo e na mente: devastações do Id. Ressaltamos que Freud sobreviveria a ele, morrendo aos 83 anos e, sem dúvida, mais forte do que o seu câncer. Exilado sim, mas próximo aos seus, além de cercado por seus livros e seus objetos preferidos. Seguro de sua posteridade e acabando por reler, em seus últimos dias, "vitória, sem grande ilusão, do ego".

Eu não poderia concluir este trabalho, sem antes fazer de público uma declaração: na verdade eu já havia lido alguma coisa sobre Georg Groddeck, contudo fui instigado nessa busca por um maior aprofundamento em relação a esse autor, e de maneira absolutamente indireta, por uma colega colunista aqui da RedePsi, a Dra. Denise Deschamps, a qual reiteradamente tem feito citações sobre a obra de Groddeck. Entendemos que essas citações, feitas sempre com muita maestria, tenham permanecido em mim em gérmen, numa condição quase que subliminar, originando, a meu ver, como um vetor resultante, a pesquisa e a apropriação da obra deste, que além de muito brincalhão e instigante, conseguiu me emocionar. Se o próprio Freud, com toda a sua fleuma, ter-se-ia encantado com Groddeck, porque não nos permitirmos experimentar as mesmas emoções? Deixo aqui o convite aos colegas da Rede no sentido de poderem compartilhar com Groddeck, daquela que teria sido a sua marca registrada, ou seja a sua pseudo-impostura!!!


Fonte: Rede Psi

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