quinta-feira, 23 de agosto de 2012

DEVIR PICOLEZEIRO

Por Leonardo Cappi Manzini


A figura anacrônica do picolezeiro nos dias atuais ao mesmo tempo em que definha numa extinção silenciosa e pauperizada persiste nas margens dos bairros distantes e ruas anônimas. Vive e respira a substancia do universo infantil, atiçando pelas manhas e tardes o paladar açucarado da criançada que espera atenta na buzinada da cornetinha do picolezeiro. Figura em extinção na cadeia de produção, pouco competitivo e ultrapassado, o picolezeiro domina um fluxo cada vez menor ou estabilizado do ponto de vista da quantidade de consumidores. Como quer que se pense, há muitos jeitos diferentes de olhar o picolezeiro na sociedade atual. Parece-me interessante sob vários sentidos. A tentativa que se segue é transitar sem pontos fixos, sem traçados prontos no devir picolezeiro. Tentar pensar e lançar olhares acerca desse recorte e suas afetações e ressonâncias no imaginário e no cotidiano dos bairros, ruas e cidades, é um pouco disso que proponho a seguir.

Automaticamente pensa-se na ótica do trabalho-trabalhador, essa relação da maquina que toma o corpo como empregado, como necessitado que não resta outra opção. Subemprego que aloca, fracassados, marginalizados, excluídos, pessoas, vidas anônimas. Pode-se pensar o picolezeiro considerando sua relação com o trabalho-trabalhador e assim desenvolver toda uma reflexão sobre essa condição, essa intersecção.

Do mesmo modo, o picolezeiro pode ser pensado em relação à infância, numa ressonância com a subjetivação da infância, seu universo imaginário, de sentidos e experiências do sentir. Figura quase inóspita, o picolezeiro atravessa as ruas buzinando, chamando aqueles que querem comprar e deliciar-se com picolés e refrescos, geralmente crianças, mas jovens, adultos e idosos nas suas criancices da língua e vontade de algo doce também esperam. Enchem a boca de saliva ao escutar o buzinar típico das cornetas do picolezeiro.  Figura sem nome, quase sempre de roupa bem humilde e simples, o picoleseiro abre seu carrinho de fantasias e sabores, enche os olhos da molecada. Invasão de cores, mundo colorido que se esvai com a vida adulta, a criança ali, experimenta seu próprio mundo, seu próprio imaginário na guloseima gelada trazida e oferecida pelo homem de boné, queimado e judiado pelo sol, com sorriso que é um pedido de socorro. O picolezeiro não toma picolé. Só os vende e toma água. Pede nas casas um copo d’água, enquanto a criança escolhe no bauzinho com rodas seu picolé preferido. O picolezeiro faz parte e vive no mundo infantil, dessa temporalidade. É preciso, hora essa, não olhar para o picolezeiro na sua inércia inevitável presa ao mundo do trabalho, mas pensá-lo dentro  de um rizoma de afetamentos, numa multiplicidade de entrecruzamentos e afecções.

Nos dias atuais dos avanços tecnológicos e comerciais, essa figura, persiste nas ruas dos bairros, das cidades do interior e em alguns lugares de lazer. Aglomeração de pessoas, em festividades, nas praias, nas praças, na porta das escolas. Com muito pouca tecnologia, ou fruto de uma tecnologia ultrapassada, o carrinho de picolé consegue conservar gelado sua proposta, seu produto. È estranho, ao mesmo tempo em que habitual, nos depararmos com o picolezeiro e o carrinho de picolé. Os mais nobres e descolados, vão à conveniência e compram picolés desenvolvidos de forma muito mais competitiva e especializada. O picolé do carrinho é gelo, corante e açúcar. O picolé ficou, foi-se o picolezeiro. Até quando existirão picolezeiros, alguém sentiria falta de picolezeiros? Alguém perceberia que se extinguiram? Onde ele ainda vive? Qual seu ecossistema de sobrevivência? Sua cartografia nômade? São perguntas que podem ser úteis quando se quer fazer uma arqueologia, uma arqueo-cartografia do picolezeiro e não só do picolé.

Os picolezeiros são pioneiros, pulverizam nos sertões do Brasil algo que engana o calor e o amargo do dia, o suquinho gelado e doce, seja picolé ou refresquinho teve seu lugar de novidade, gerando um extra para as sorveterias e sorveteiros que ampliavam suas vendas utilizando o carrinho de picolé e a figura do picolezeiro.  Nessas cidades do interior o picolezeiro ainda tem seu publico garantido, mas sempre ameaçado. Como houve com as quituteiras da época colonial, Com o leiteiro, como o padeiro que entregava em casa, como o vendedor de biju com sua matraca. Figuras em extinção. Hoje se fazem os pedidos pela web, alguém entrega em sua casa. Algo mais frio, automatizado, coisificado.

Nesse sentido é preciso lembrar que, ser picolezeiro exige estratégia, exige conhecimento, quem sabe muito mais do que isso, seja uma arte. Segundo relatos dos próprios picolezeiros antigos, vender picolé na rua com o carrinho é uma arte. Há uma geografia percorrida pelo picolezeiro, ele deve saber e descobrir onde passar, quais ruas há crianças, escolas, praças, parques, assim sua mobilidade faz parte da estratégia. Envolve cativar o cliente, seja criança ou adulto. Há vários tipos de clientes, dizem os experientes picolezeiros. Os ocasionais e aventureiros e os fixos, regulares consumidores. Para ambos possuem estratégias diferentes de aproximação e consolidação. De muitas formas, na ciência do picolezeiro experiente há uma arte, um artesão, uma poiésis.

O picolezeiro vê muitas coisas por onde passa, pela cidade. Testemunha do cotidiano, do imprevisível e do inesperado, ele está sempre disfarçado de picolezeiro, pode passar despercebido, mas a tudo vê e recolhe. Seu olhar capturou a rotina da vida urbana. A rotina das casas e de seus moradores. Conhecedor dos vários tempos ele reconhece o valor da sombra, entende e lê o céu e as nuvens, entende os ventos e as estações e principalmente as horas e os lugares do sol. Outra habilidade imprescindível para o mesmo é a paciência e a persistência. Muitos abandonam a difícil jornada diária e ingrata. Outros trilham, com seus próprios passos a difícil andagem*, o chão percorrido, a vida deitada do dia a dia, a vida é o chão que se percorre. Com o olhar escondido e espremido entre as salientes rugas de um semblante castigado, ele parece dono de uma espectral serenidade e paciência. Filho do sol, seu ganha-pão, seu senhor, seu guia.

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