quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A ENTREVISTA PSICANALÍTICA


Tema de extrema relevância,sobretudo para aqueles que estão dando início à sua atividade profissional. Objetivamos dar a "entrevista" o seu lugar de destaque no processo de análise,assim como colocar em evidência a sua complexidade conceitual e metodológica.

Aqueles que como nós possuem um longo percurso no terreno acadêmico, lidando principalmente com estudantes que estão por se formar, sabem da angústia com a qual muitas vezes nos procuram objetivando informações sobre os procedimentos técnicos que terão que adotar quando estiverem frente a frente com seu primeiro paciente. Resolvemos, portanto, na esteira de alguns autores com os quais concordamos, fazer uma tentativa de sistematização da vasta literatura que existe em torno da entrevista. Citamos os autores que nos acompanharam na elaboração desse estudo: José Bleger, Sullivan, E. Pichon Rivière, R. H. Etchegoyen e E. Racker.

De acordo com o “Dicionário da Real Academia”, o termo entrevista significa: “Vista, concorrência e conferência de duas ou mais pessoas em um lugar determinado, e para tratar ou resolver algum negócio”. A finalidade da entrevista é decidir se a pessoa que nos consulta deve ou não realizar um tratamento psicanalítico. A bem da verdade, Bleger se mostra mais inclinado à adoção do conceito de entrevista psicológica,onde se avalia a psique ou a personalidade do sujeito que nos consulta. De nossa parte, entendemos que é mais adequado trabalharmos com o conceito de entrevista, sem que a mesma tenha que ser adjetivada como sendo desse ou daquele tipo. Em psicanálise, o que acaba sendo proposto é um modelo de entevista não-diretiva, modelo esse que fica mais claro se fizermos um contraponto com a anamnese médica. A anamnese possui sempre tópicos elencados a priori, e que terão que ser pesquisados pelo entrevistador. Lembramos que Freud já havia dito que “nenhum ser humano pode dar uma informação fidedigna a respeito de si próprio”.

Um outro aspecto de suma importância que temos que levar em consideração, é aquele que se refere ao “campo da entrevista”. Sabemos que entre os participantes se estrutura uma relação, da qual depende tudo o que nela acontece. Para Bleger, campo possui um sentido muito preciso, isto é, o estabelecimento de um contexto que propicie que o entrevistado faça ou demonstre o seu “jogo”. De nossa parte, para que isso possa ocorrer, devemos participar o menos possível, deixando a iniciativa para o entrevistado. Sullivan, que foi o pioneiro no estudo da entrevista, cunhou uma feliz expressão para o que concerne a posição do entrevistador: um observador-participante. Essa expressão foi plenamente adotada por E. Pichon Rivière, outro grande estudioso do tema. Podemos entender que o meu estímulo para o entrevistado, se configura através da minha presença. Deve ficar claro que através de uma pergunta que eu faça, isso poderá propiciar ao entrevistado abordar temas muito importantes,mas a questão é: por que será que essa pergunta foi necessária?

Na sequencia, queremos ressaltar que muitas vezes ocorrem processos de angústia na entrevista (= de ambos os lados), e como várias vezes disse Donald Meltzer, faz-se necessário que essa angústia seja modulada, e poderá vir a ser através de uma postura mais compreensiva e continente do entrevistador. Nesse ponto, quero fazer uma observação que me parece muito importante de ser levada em consideração: quando falo em continência, falo de uma continência possível e verdadeira por parte do entrevistador. Portanto, ao tratar-se de um “faz de conta”, isso poderá por tudo a perder na relação com o entrevistado.

Uma outra questão é a que se refere ao enquadre na entrevista: implica em se poder fixar de uma forma constante as variáveis de tempo e lugar. O que estamos propondo é uma atitude reservada, mas cordial e não distante por parte do entrevistador. Esse tipo de atitude deverá ser mantida ao longo de todo o tratamento, caso esse venha a ter início. No que tange a esse aspecto, recordamos a brilhante participação de Fernando Ulhoa, numa série de conferências que tinham como tema “o fim da análise”. Dizia ele naquele então, algo mais ou menos assim: alguns analistas adotam uma atitude que é extremamente iatrogênica em relação aos seus pacientes e por ocasião das entrevistas. Nelas, mostram-se muito receptivos, sorridentes e informais. No entanto, quando o tratamento em si tem início, assumem uma postura extremamente distante, séria e formal, chegando quase a se configurar num “analista-mudo”. Agregamos às considerações de Ulhoa, que muito provávelmente um analista que seja sentido pelo seu paciente como “mudo”, também o seja na condição de “surdo”. Quem então poderá ajuda-lo? O que Ulhoa coloca como sendo o vetor resultante desse estado de coisas, é que o paciente poderá desenvolver o que ele denominou de uma “alternativa perversa adicta”, a qual significaria uma espécie de recrudescimento da sintomatologia no sentido de tentar reencontrar “aquele analista” das entrevistas(“o amor dos começos!!!”).
Damos seguimento a esse trabalho, enfocando um outro aspecto de muito relevo na condução das entrevistas iniciais: a interpretação nas entrevistas.

David Liberman, proscreve totalmente a utilização da interpretação nessa fase do processo. Ele entende que o setting nessa fase não comporta a utilização desse tipo de instrumento técnico. Propõe que haja para o entrevistado, uma assimetria, ou seja uma experiência contrastante,e caso isso não ocorra, terá como efeito deletério que as primeiras interpretações da transferência negativa serão decodificadas pelo analisando, como sendo “juízos de valor” do analista.



Para Bleger, por outro lado, existiriam alguns casos específicos onde a utilização da interpretação se faz necessária, ou seja, naqueles casos onde a comunicação tenda a se interromper ou mesmo ficar distorcida.

R. Horácio Etchegoyen, coloca-se ao lado de Bleger, compreendendo que a interpretação na entrevista é legítima, caso aponte na direção da remoção de um obstáculo concreto. Acrescento que claro deve ficar que o objetivo de se utilizar uma interpretação na entrevista, nunca é o de que o entrevistado possa ter um insight, embora isso possa ocorrer. Lembramos que o objetivo das entrevistas é o de se verificar a adequação para “esse” sujeito, da instituição de um tratamento psicanalítico ou não. Etchegoyen, no entanto, parece ir mais longe ainda, dizendo que as vezes utiliza a interpretação como uma “prova”, para perceber a capacidade do entrevistado na obtenção de insights.

Ao realizarmos uma revisão histórica na literatura psicanalítica, encontramos vários autores que acreditam que, se um analista interpreta na entrevista, ele já aceitou o paciente em análise!

Retornamos agora ao pioneiro no estudo da entrevista, Sullivan. Ele realizou os seus estudos sobre a base das operações que se realizam no sentido de tentar estabelecer uma dominação da angústia presente no momento da entrevista. Por outro lado, nos diz ele, o entrevistador também terá que confrontar seu cliente com situações de angústia, já que um encontro que fosse sempre extremamente cômodo para o entrevistado não teria razão de ser. Edgardo Rolla(1972), descreveu diferentes modalidades de angústia no desenvolvimento da entrevista:  - angústia de abordagem, a qual se refere as estratégias exploratórias e à curiosidade. – angústia de separação, no outro extremo. Durante a entrevista, também ocorrem eclosões de angústia que darão ao analista, indícios das áreas mais perturbadas da vida mental do paciente.

Destacamos que o tema da angústia também nos serve como uma espécie de bússola para que possamos nos aperceber dos fenômenos de transferência e de contratransferência que ocorrem durante a entrevista. Isso significa que o entrevistado reproduz na entrevista conflitos e tópicos de seu passado,os quais assumem uma realidade psicológica, e onde o entrevistador é investido de um papel(rol), o qual num sentido estrito não lhe corresponde. Ao papel que lhe é atribuído, o entrevistador não responde só de maneira lógica e racional, mas sim também na esteira contratransferencial. 

López e Rabih, numa espécie de trabalho inédito, ocuparam-se da temática da contratransferência nas entrevistas. Para eles, uma particularidade da entrevista é a quantidade de angústia que ela mobiliza,e que eles estudaram à luz da teoria da identificação projetiva de Melanie Klein e do conceito de contratransferência. Nesse sentido, o entrevistador deve ser capaz de absorver e de lidar com essas questões, procurando como vimos anteriormente, evitar a utilização da interpretação. Como disse Bleger: “ toda interpretação fora de contexto e de timing é uma agressão” ( ou uma sedução?!).

Apenas com o intuito de exemplificar a contratransferência do analista nas entrevistas, cito o seguinte: uma determinada ocasião, encaminhei uma colega para um analista de minha confiança. Foram realizadas algumas entrevistas, e como não se chegou a um consenso quanto ao valor dos honorários, o analista em questão fez  uma indicação de um “outro” analista para essa minha colega. Por uma dessas “armadilhas” do inconsciente, ao fazer a indicação do “outro” analista, o primeiro analista deu a ela “o próprio telefone do seu consultório”. Assim, como diria esse personagem da TV, Chaves, “foi sem querer,querendo”!!!

Vamos enfocar agora, aquela que parece ser uma tarefa de fácil execução, porém que “só” parece porque não é: a entrevista de encaminhamento. É mais complexa que a entrevista comum, já que temos que obter dela informações suficientes para que possamos proceder o encaminhamento, mas também temos que procurar evitar uma “ligação” em demasia do entrevistado a nós e vice-versa. Me lembro de alguém que certa vez me disse na primeira entrevista, que tinha um “segredo”, mas que só me contaria se eu lhe garantisse que eu iria atendê-lo(a). Certamente eu respondi que ficasse à vontade para falar ou não sobre, mas que garantias eu não poderia dar naquele momento. Ao fazermos um encaminhamento, penso que o ideal é que possamos oferecer ao sujeito, um e sómente um nome, numa tentativa de evitar que pela via da defesa, o sujeito entenda que é ele quem está entrevistando.

Após proceder a indicação, solicito que a pessoa me comunique como foi o seu outro “encontro”,além de me colocar à disposição frente a qualquer dificuldade que eventualmente possa surgir e que demande uma outra indicação. Nesse quesito, em específico, sei que nem sempre o sujeito que foi por nós encaminhado a um colega, acaba por nos dar algum retorno, e isso se dá em minha maneira de compreender o fenômeno, uma vez que pode se instalar no sujeito uma espécie de “mágoa ou ressentimento” pelo fato de termos lhe encaminhado e não termos lhe atendido, mesmo que tenhamos sido bastante claros quanto aos motivos pelos quais não o fizemos.

Após terem sido realizadas as entrevistas com um número de vezes pré-estabelecido, realizamos o que se convencionou denominar de entrevista devolutiva, onde iremos expor ao entrevistado a nossa avaliação profissional quanto a adequação frente a realização de um tratamento psicanalítico, assim como sobre os “porquês”.

Nessa etapa, penso que a melhor conduta é a de sermos sucintos e bastante objetivos, sem que nos percamos em muitas explicações, as quais só irão servir para futuras racionalizações por parte do entrevistado. Entendo que aqueles que se perdem em muitas explicações, estão muitas vezes tentando convencer a si mesmos quanto a sua posição. Valem-se de uma defesa do tipo obsessivo.

Uma outra analista que muito tem contribuído teórica e tecnicamente é Joyce MacDougal, e em especial aqui me refiro ao seu trabalho denominado “Em defesa de uma certa anormalidade”. Nele podemos encontrar uma referência aqueles casos, citados por ela como sendo o dos “analisandos-robôs”: trata-se daquelas pessoas que parecem aceitar plenamente tudo aquilo que lhes é proposto pelo analista na configuração do setting. No entanto, apesar de toda essa concordancia,verifica-se que o analista acaba tendo a sensação de que “nada se move” com relação a essa análise. Penso que, sem dúvida, podemos estabelecer uma correlação com o campo das entrevistas, onde também nos defrontamos com os “entrevistados-robôs”, os quais também parecem concordar com tudo aquilo que é verbalizado pelo analista. Sabemos que existem muitos analistas que são partidários de que uma análise pode ser iniciada mesmo assim, justificando a sua conduta como sendo uma tentativa de “sustentação” do desejo do outro, e durante um certo período. Quero deixar claro que minha posição quanto a esse aspecto é contrária, uma vez que acredito que ninguém pode sustentar o desejo do outro senão ele mesmo. Eu não posso dizer a alguém que ele sente determinada “dor” se ele não possui a sensação proprioceptiva correspondente. Dessa forma, penso que “sustentar” o desejo do outro, é ratificá-lo no lugar do “não-desejo”.

Finalmente, quero tecer mais uma consideração que julgo muito relevante, sobretudo para aqueles que estejam iniciando a sua práxis. Quando a pessoa que nos procura nos solicita que a ajudemos a “enxergar as coisas como de fato são”, devemos enquanto psicanalistas, psicólogos, psicoterapeutas, etc, ter muito claro que o que na verdade existe é uma “outra visão” que enxerga o mundo: a visão do profissional assistente. Isso equivale em termos teóricos, ao que E. Pichon Rivière, denominou de “Esquema Conceitual Referencial Operativo( ECRO)”. A forma de ver com a qual nos aproximamos das “coisas”. Analista e analisando possuem a sua forma de ver o mundo, e nesse sentido, entendemos que “olho não se empresta”( Fábio Hermann ). Dessa maneira, quando alguém nos solicita para que possamos fazê-lo ver as coisas como “realmente são”, o que estamos, na verdade, é diante de uma solicitação inconsciente de anulação de toda subjetividade. É só através dessa mesma subjetividade, que o futuro paciente poderá, parafraseando Jacques Lacan, “não declinar do próprio desejo”!


Fonte: Rede Psi

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