segunda-feira, 16 de julho de 2012

HOSPÍCIO A CÉU ABERTO - PARTE 1

Leitores de velhos romances do século XIX encontram com relativa facilidade, personagens encerrados pelas próprias famílias em porões ou sótãos escuros. Mais frequentemente, aparecem mulheres que perderam o juízo em decorrência de episódio traumático, cuja revelação costuma conter a trava da trama. Tais livros dizem algo importante sobre a forma pela qual a loucura era vista e enfrentada naquele tempo: em primeiro lugar, algo que pertencia exclusivamente à esfera da razão- "delusões", perda de comunicação ou, por vezes, "furores" que tornavam a convivência social problemática.Trancafiar os dementes era a solução possível pra quem habitasse casarões senhoriais, com criados discretos e dedicados. Para a maioria das famílias, porém, os loucos eram mantidos livres, em convivência com a vizinhança ou entregues à própria sorte. Sua presença nas ruas do RJ do século XIX foi amplamente descrita por médicos e cronistas de costume da corte imperial.
Podemos seguir-lhes os passos, por exemplo, com Mello Moraes Filho em seu curioso inventário dos ”tipos de rua" da cidade do século XIX. O mais famoso deles por certo era o príncipe de Obá II d'África, entre tantos mencionados.Para prosseguir com a realeza das ruas, havia ainda outro famoso aristocrata negro, o príncipe Natureza -como era conhecido o negro Miguel, liberto falante e rebuscado, que se autobatizou “D. Miguer Manoer Pereira da Natureza, sová, Gorá, Vange".Tão popular que suas cômicas conferências chegaram a ser promovidas em teatros da região central por estudantes de direito, visando à obtenção de fundos para a sociedade Abolicionista.Talvez, sem saber, o príncipe Natureza foi responsável pela remissão de vários cativos. Famoso era também um português conhecido como Miguelista, cuja conduta escandalosa era, antes de tudo, motivo de risos e pândegas de molecada.Tinha de costume comum de embriagar-se e o hábito (em todo caso incomum) de nessas circunstâncias, ficar completamente nu,batendo ruidosamente com as palmas das mãos nas próprias nádegas a apregoar com toda força dos pulmões: Vizinhas, estou na área!
Havia também, naturalmente, as mulheres. Maria Doida, mulata andarilha que vestia simultaneamente várias mudas de roupa para poupar-se de carregar trouxa muito pesada, era estimada e cuidada pelos cariocas, a quem fazia rir (e corar, aos mais recatados) com suas tiradas inconvenientes ou obscenas. Nem tão engraçadas, outras figuras, como a Forte-Lida, causavam antes piedade e respeito: tratava-se de uma viúva de meia idade e algumas posses que sem família que a cuidasse, perambulava pelas ruas sempre acompanhadas de uma escrava amarrada pelo pescoço. Outros personagens da mesma categoria incorporados à paisagem das ruas são descritos pelo nosso cronista. Como o Bolenga, crédulo na sua iminente sagração como bispo, ou seu colega, o padre Quelé, ex seminarista como ele, envergando batina, cujo notório entusiasmo onanista não impedia que fosse benquisto e reconhecido como um bom tocador de violão e cantor de Iundus, talentos que era frequentemente convidado a desempenhar mesmo em casas de família.
Vale lembrar ainda o Policarpo, tido como homem íntegro e bom pai de família, músico da Capela Imperial durante os dias. Todas as noites, religiosamente do entardecer até meia-noite, caminhava com seu amigo Paiva no trajeto entre o passeio público e o Chafariz das Marrecas. Executavam todos os dias, nesse horário e percurso, uma mesma serenata cujo repertório se resumia a duas músicas repetidas obsessivamente, para torturados moradores das redondezas. Próximo ao local da exasperante serenata morava o famoso Chico Cambraia, louco familiar também apreciado pela sua maestria como cantor de Lundus, que vivia da caridade pública e residia precisamente na rua do Hospício-vizinhança que ao que tudo indica nunca o incomodou.



Fonte: Saúde Mental e Cidadania

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