quarta-feira, 25 de julho de 2012

HISTÉRICA E MAGÉRRIMA


DA BELEZA: HISTÉRICA E MAGÉRRIMA VISTA NA ATUALIDADE, E QUE, DE MODO NADA SUBLIMINAR, NOS AGRADA.
Por Hudson Eygo



O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli, c. 1485.



Outro dia fiquei abismado ao ver, por indicação de uma colega de faculdade, um blog destinado a fotos de mulheres que fogem a padrões pré-estabelecidos de beleza.


Trata-se do The Nu Project, mas não o indico pra quem não quer sair da posição de comodismo, e muito menos quem não quer contestar sua realidade. As imagens são curiosas, criativas e, em muitos casos, chocantes.


A primeira coisa que me veio à cabeça ao observar o ensaio no site foi: O que diz que estas mulheres não são bonitas? Porque a gordura é tão desprezada por nossa sociedade? Qual o crime em se estar acima do peso? Em nossa contemporaneidade a falsa liberdade moralista roubou dos seres humanos até o direito sobre o próprio corpo, imprimindo em nossa personalidade uma imagem que deve ser mantida, seguida e copilada. Mas até que ponto meu corpo representa minha identidade? Sou o que ostento, ou o que ostento se corrompeu e assumiu a forma do que sou?


É fácil perceber esse movimento social em busca do corpo perfeito, basta nós nos atentarmos para o crescente número de pessoas, nas mais variadas faixas etárias, que frequentam as academias e se matam fazendo exercícios físicos, usam anabolizantes, tomam inibidores de apetite e mergulham em dietas milagrosas muitas vezes sem preparo algum, outras vezes, apoiados em dietas e na orientação profissional de pessoas que se justificam na ciência ao proclamar: Abaixo ao gordo!


Mas quem foi disse que gordura não é sinônimo de felicidade?


A imagem pré-concebida e difundida pelas mídias atuais é a de pessoas morbidamente gordas e depressivas. Essa imagem está embutida em minha cabeça quando penso em x-burguer ou em uma porção de batata frita, por exemplo. Não se pode mais sentir prazer em comer, assim como não existe mais felicidade, beleza e nem saúde fora de um corpo magro. E isso se torna um dos pretextos para as pessoas que não conseguem alcançar o peso ideal acabarem depositando na comida a solução para sua frustração. 
“E dali guloseimas pros gordinhos.” O mercado discrimina, mas o mercado estimula e sustenta produtos altamente calóricos que viciam e deprimem.


Porque corpos esculturais são tão ovacionados na atualidade?


É tudo culpa de nossa sociedade que prega uma saúde vinculada a um corpo magro, e moldado por horas e mais horas de dieta e academia. “Vamos lá, todo mundo, contabilizando calorias”.



Mas até que ponto o belo é magro?


Não podemos esquecer o outro lado: o dos corpos esqueléticos de pessoas que, na privacidade de seu banheiro, buscam no vômito uma solução patológica para seus problemas com a balança, vomitando até o copo d’água, muitas vezes, a única coisa consumida ao longo do dia inteiro.


E viva à bulimia, à idiossincrasia, e ao ceticismo!


Agora, perdido em meio às imagens do site, fico pensando que a mulher, por natureza, é um ser belo. Suas formas divinas, mais arredondadas ou não, são agradáveis e extremamente sensuais. A própria Vênus de Milo, imagem por centenas de anos aclamada e tida como ícone de beleza, é cheia de formas curvilíneas.


E o que mudou?


Fomos, ao longo das décadas, nos prendendo a estereótipos e padrões de beleza. Culturalmente o fora do comum tornou-se aversivo, ridicularizado e corrompido. A humanidade têm se perdido em acordos culturais mudos, que pregam a discriminação e retaliação de forma ativa e cientificamente estruturada. A
condição humana é hoje, tudo aquilo que é moralmente aceito. O resto é esquisito, irritante, dispensável! Aprendemos desde o berço a não conviver com o diferente. É o neoegoísmo de nossa sociedade, e porque não dizer, narcisista?


Foi o homem quem se corrompeu, e se perdeu em sua bestialidade. Em muitas situações somos mais parecidos que nossos parentes primatas, do que esperávamos. Por vezes, até menos racionais.


O site traz fotos de mulheres que carregam mais que um corpo fora de forma, são pessoas que carregam um rosto moldado por um sofrimento que não precisa de palavras pra se manifestar. O nu artístico dessas mulheres é carregado de significado.

Elas não estão exibindo seus corpos em troca de pena, nem implorando pela misericórdia de uma sociedade vil e hipócrita, do contrário, elas estão gritando sua dignidade, e direito à liberdade e igualdade diante de todos, sendo apenas elas mesmas.


O que o site almeja buscar com essas fotos vai muito além de uma simples aceitação social dessas mulheres, bem mais do que isso, as fotografias cobiçam despertar em cada mulher a redescoberta do amor por si mesma, pelo seu corpo, por sua autoimagem, seja ela como for.


Meu propósito aqui também não é o defender a obesidade, nem o de levantar a bandeira a favor dos gordinhos, longe de mim. Também concordo que se é comprovada uma patologia, a pessoa tem sim direito de buscar uma cura. Tampouco quero é o de desacreditar a ciência, mas sim, alertar todos para questões atuais, pertinentes e que precisam ser abertamente debatidas.



8 comentários:

  1. Bem, a beleza corporal não é "ditada" pela sociedade. Há apenas um consenso entre um maior numero de pessoas sobre o que se acha mais ou menos bonito, porém isso não deixa de ser algo que concerne a cada indivíduo.

    Ao meu ver, quem enxerga apenas a beleza física de alguém, não consegue enxergar o todo, "the big picture", e isso constitui uma falha de percepção.

    Mas se sentir bem ou mal consigo mesmo, com suas ideias e seu corpo, é escolha de cada um. Eu, por exemplo, sou magro e gosto de ser assim, mesmo que muita gente me diga que eu sou MUITO magro.

    Se você se sente bem consigo mesmo, não há por que mudar, caso contrário, a mudança será por que você quer, não sendo necessário se sentir mal por isso. Só não vale deixar que as opiniões de fora calem sua voz interior.

    ResponderExcluir
  2. Ótimo texto!
    Só complementando o que foi dito acima, tipo, sou gorda e sou de boa com meu corpo, tento esta sempre de bem com minha saúde, mas ha sim um pressão para que se emagreça, em todo lugar que vc pensar, da família aos colegas do trabalho, ah claro é bom vc se sentir bem e não ligar para opiniões externas é isso q faço. Mas o preconceito com pessoas acima do peso existe, e é mais forte do que pensamos.
    Assim como com o que é diferente, a sociedade em geral não aceita o diferente.

    "A condição humana é hoje, tudo aquilo que é moralmente aceito. O resto é esquisito, irritante, dispensável! "

    ResponderExcluir
  3. Belo texto!

    Acho que o mais importante é estar bem consigo mesma, e não deixar que a opnião das pessoas prejudique(de certa forma)seu modo se ser feliz!

    ResponderExcluir
  4. Legal o texto.
    Discordo do Brabio, não acredito que existam epenas pessoas isoladas que em consenso se prefere algo e não outro. Todo tipo de padrão, seja estético ou não, é um padrão por ser socialmente aceito e para isso não basta apenas um consenso mas sim um tanto quanto de "violência simbólica". Sei que é um blog de psicologia, mas vendo pelo lado da sociologia, do interacionismo simbólico sobretudo, a construção de um corpo diz sim sobre a personalidade. O fato de pintar o cabelo, possuir uma tatuagem, piercing, ou ainda se esforçar para ser magro ou gordo, por mais que seja de maneira inconsciente, diz respeito à uma imagem que deseja ser passada.

    O problema é que certos símbolos se incorporam e cristalizam-se, tornando difícil a desassociação. Como o autor diz: "A condição humana é hoje, tudo aquilo que é moralmente aceito. O resto é esquisito, irritante, dispensável! "... mas não apenas hoje e sim sempre. A condição humana sempre foi e sempre será a moralmente aceita. Cabe-nos, ao meu ver, o alargamento desta moralidade aceita, e não um simples "deixa queto e seja feliz consigo mesmo". Creio que este seja o sentido do projeto.

    ResponderExcluir
  5. Eu detesto estar gorda, detesto me sentir apertada em roupas ou com a barriga saltando ou estufada escondida por roupas.
    Detesto comer em excesso e as vezes como, assim como quase todo mundo.
    Mt dificil manter equilibrio e peso p/ mim e facil p alguns.
    O texto esta muito bonito mas nao me toca. Me desculpe. Mas tb nao estou patologizando o nao gostar de ser gorda e ver como alternativa a dieta e o exercicio. Isso tb eh normal e saudavel na medida certa.
    Isso nada tem a ver com a sociedade.
    Nao tenho simbolos, nem quero ser igual a ninguem, so quero me ver bem numa roupa e ficar leve em saltos altos. Simples assim!

    ResponderExcluir
  6. Hipocrisia eh dizer q o gordinho ou a gordinha sao bonitos. Qualquer roupa veste mal.
    Questionar, filosofar e teorizar sobre o assunto eh facil.
    Nunca vi uma modelo gorda bonita. Nunca vi uma roupa de gorda bonita. Agora em 2012 existe um mercado para a moda obesa, mas ja deveria existir, e nao existia antes. Preconceito eh nao ter roupa pra vender para gordos em lojas comuns e rotularam a partir das medidas (plus size??sei la como se chama)...Mas dai a dizer q eh bonito ser fofinha e ter pernas e bracos ondulados fica bem dificil.

    ResponderExcluir
  7. Desde que ñao afete a saúde acho válido o texto. Pra mim excesso de peso é muito ruim. Ñao acredito que ser gordo (a) é bom. Ao longo dos anos ganhei 10 quilos e vários problemas de saúde. O que já me fez passar pela loucura de uma lipoaspiracao e cirurgia nas mamas que cairam. Agora com reeducacao alimentar e exercicios que estou comecando a ver resultados. Nunca se viu tantas pessoas com problemas de obesidade, todos que conheco estao passando por alguma dieta pra perder uns quilinhos, sem contar que ñao há roupa nesse mundo que fique bem. Pra mim ñao.....com todo respeito aos que sao gordinhos e vivem bem.

    ResponderExcluir
  8. É, não sou gorda pra dizer, mas creio que na verdade mtos que são, estão preocupados em perder seus kilos, também, pela saúde, e pra caber nas roupas que exitem no mercado...
    Hoje é assim, ou você tem corpo de modelo, ou fica difícil ficar bem nas roupas que encontramos nas lojas.. =/

    ResponderExcluir