quinta-feira, 10 de maio de 2012

OS X-MEN E O APELO À TOLERÂNCIA


O mundo do cinema tem uma grande proximidade com o mundo dos sonhos. Tanto em um quanto em outro, somos capazes das maiores proezas. Seres fantásticos e histórias inverossímeis povoam o imaginário de milhões de pessoas no mundo.

Não é por menos que os super-heróis fascinam tanto a nossa imaginação: homens e mulheres invencíveis, com poderes sobre-humanos e habilidades que vão além da nossa própria natureza. São seres quase perfeitos, destemidos, corajosos, acima de qualquer falha.

Talvez seja por isso, que os personagens da Marvel Comics despertem tanto interesse entre os seus jovens leitores, a exemplo do grupo de mutantes conhecidos como X-Men, que foram transportados do mundo dos quadrinhos para as grandes telas, há pouco tempo.

Ao contrário do que se poderiam imaginar, os super-heróis mutantes são atormentados com o seu próprio dom e o seu próprio destino, vivendo em um futuro próximo numa sociedade que não está preparada (ainda???) para aceitar as nossas visíveis diferenças. Os X-Men sofreram uma mutação genética, um "salto na evolução humana", e é daí que vêm seus poderes, levando-os a uma segregação entre os mesmos seres humanos que tentam proteger. Nos três filmes até agora lançados, isso fica muito evidente, além, é claro, da eterna luta do bem contra o mal.

De um lado, temos o Professor Charles Xavier, um mutante com poderes telecinéticos responsável por uma escola que ensina aos mutantes mais jovens controlarem e compreenderem melhor os seus poderes. Do outro, temos Eric Lensherr, também conhecido como Magneto, que como o próprio nome já diz, tem a capacidade de controlar todo o magnetismo na face da terra e cujo passado judeu vivido nos campos de concentração na era do nazismo, despertou-lhe o ódio irracional contra os seres humanos a um ponto de querer extingui-los da face da terra. Magneto lidera um grupo de mutantes que compartilha do seu ideal contra a humanidade e contra o Professor Xavier, líder dos mutantes na escola que dirige.

Ora, se Magneto acha que os seres humanos foram capazes de fazer o que fizeram contra os seus semelhantes durante a Segunda Guerra, porque eles deveriam gozar de mais respeito e privilégios do que aquilo que ele denomina de "raça superior"? "Somos o futuro, Charles", diz Magneto no primeiro filme, ao sair de uma reunião onde se debatiam as liberdades individuais dos mutantes, para excluí-los do resto da sociedade. E isto não é mera coincidência: quem já sofreu o preconceito na própria pele sabe do que eu estou falando, ou quem já leu ou ouviu falar do horror do nazismo, pode imaginar muito bem o que é ser discriminado por alguma particularidade mínima sequer. O horror do holocausto é exemplo mais do que suficiente para nos lembrar das atrocidades que um grupo de seres humanos pôde fazer a outros. Em nome da intolerância, do preconceito, da discriminação e do ódio "ao diferente", mata-se!!!

Para muitos, é insuportável a convivência com o minimamente diferente. Para outros, isso é perfeitamente possível. A este segundo tipo de sujeito nós denominamos de tolerante e solidário diante das diferenças do seu irmão em humanidade, porque ele o compreende como fazendo parte da mesma comunidade ou grupo que participa. Quem melhor exemplifica isso é Freud (1856-1939) ao retomar a metáfora dos porcos espinhos de Schopenhauer (1788-1860): dois porcos espinhos em meio à chuva começaram a sentir frio e tiveram a idéia de um se esquentar com o calor do corpo do outro. Ao se aproximarem, os espinhos dos seus corpos espetaram um ao outro, e eles se afastaram, voltando a sentir frio. Mais uma vez, eles revolveram se aproximar e mais uma vez foram espetados pelos espinhos um do outro, até que encontraram uma distância intermediária para se aquecerem, sem se machucarem. Quando compreendemos essa distância intermediária de convivência que nem nos machuca e nem fere as liberdades e o espaço do outro, estamos praticando a tolerância.

O conceito de tolerância está historicamente relacionado às crenças religiosas e questões políticas tratadas por Voltaire (1694-1778). A tolerância se opõe a intolerância e vice-versa. Ela se justifica no plano moral pelo respeito à pessoa do outro, não apenas de forma política, socialmente desejável e válida nos regimes democráticos, mas igualmente devida ao respeito ético inerente ao reconhecimento do Outro. Por outro lado, o sentimento de intolerância na contemporaneidade, criado na Europa em plena era do nazismo, não foi totalmente derrubado, como podem pensar alguns. Pelo contrário, ele se desenvolveu, se modernizou e se atualizou, multiplicando-se numa velocidade tal que sequer temos condições de controlá-lo: assassinatos de índios em pontos de ônibus, massacres em presídios públicos, guerras em países de cultura mulçumana, escravização de crianças no campo, prostituição, tráfico e turismo sexual com menores de idade, assassinatos em massa nos grandes centros urbanos, extermínio de homossexuais por grupos neonazistas, violência física e psicológica contra mulheres, humilhação pública de idosos e portadores de necessidades especiais, mutilação de órgãos genitais em mulheres africanas, guerras entre facções do narcotráfico das drogas nas favelas do Brasil, e assim por diante.

Tudo parece perfeitamente justificável em nome da "pretensa normalidade ou superioridade" daqueles que se consideram estar acima desses atores sociais, ou mesmo das diferenças culturais. O que se revela aqui, de maneira brutal e insofismável é a impossibilidade do reconhecimento e do convívio com a alteridade que se funde num horror da experiência da diferença, pois é insuportável o reconhecimento da diferença e da alteridade pelo sujeito da atualidade, em parcelas significativas do mundo, sem que aquelas sejam imediatamente transformadas em signos hierárquicos infalíveis de superioridade e de inferioridade de ser melhor e de ser pior do que os outros. Ou seja, é a ação da pulsão de morte, já anunciada por Freud no seu texto "Além do Princípio do Prazer", que faz suas vítimas e tem explicado não só a ação do nazismo como também todos os atos cuja vítima é o ser humano.

Tolerar, portanto, é respeitar nosso semelhante naquilo que ele tem mais de singular e específico. É compreender a sua individualidade e sua alteridade reconhecendo o outro como a referência do "nós".

Richard Rorty (1931-2007), filósofo norte-americano falecido em 2007, nunca se debruçou exaustivamente sobre o assunto nesses termos, mas expôs suas idéias de forma clara naquilo que compreendo ser o sentimento de tolerância para com o nosso semelhante como o correlato do que ele define e defende como sendo o sentimento de solidariedade. Rorty diz que o sentimento de solidariedade depende necessariamente das semelhanças e dessemelhanças que surgem em função do vocabulário de um determinado grupo, ou seja, o desejo de solidariedade não está calcado apenas na concepção banal do amor ao próximo, tal como proposto pelos ideais cristãos ou nos ideais humanistas na era do Iluminismo, mas sim, no reconhecimento de determinados grupos como fazendo parte de uma grande comunidade liberal, atados através dos atos ou jogos de linguagem. Para este filósofo, quanto mais o sentimento de solidariedade humana, maior a capacidade de compreender e estender a referência do "nós" a um número cada vez maior de pessoas. Quanto mais nos colocamos no lugar do outro, quanto mais tendemos a enxergar nós mesmo no outro, maior será a nossa tendência de incluí-lo no grupo do qual fazemos parte.

Nesse sentido, Rorty opõe crueldade à solidariedade. Ele diz que cruel é todo aquele que não sabe ou não pode identificar-se com a dor e a humilhação dos outros, e solidário é aquele que aprendeu a se colocar na posição de quem sofre, de modo a descrever crueldade como aquilo que de pior podemos fazer ao nosso semelhante. Quanto mais nos colocamos no lugar do outro, quanto mais tendemos a enxergar nós mesmo no outro, maior será a nossa tendência de incluí-lo no grupo do qual fazemos parte.

Nesse sentido, Rorty opõe crueldade à solidariedade. Ele diz que cruel é todo aquele que não sabe ou não pode identificar-se com a dor e a humilhação dos outros, e solidário é aquele que aprendeu a se colocar na posição de quem sofre, de modo a descrever crueldade como aquilo que de pior podemos fazer ao nosso semelhante.

Seu objetivo, enquanto herdeiro do pragmatismo, é alcançar uma sociedade liberal, através da construção de novos laços discursivos, fazendo da igualdade ou da solidariedade, um desejo para muitos de nós, reconhecendo um pouco (senão muito) de nós mesmos nesse outro que nos é estranho, diminuindo o preconceito, a discriminação, o desrespeito e a intolerância. O que Rorty propõe, portanto, é a construção de uma cultura da ética e da solidariedade, baseado fundamentalmente na igualdade.

Ora, quando desqualificamos ética e moralmente esse grande Outro que nos é estranho, estamos fomentando a "ética do alheamento do outro", que consiste em uma atitude de distanciamento, hostilidade e perseguição ao sujeito, onde só o ideal de igualdade poderia diminuir esses sentimentos hostis.

Para o sociólogo Zigmunt Bauman, o ideal de igualdade é um ideal perfeitamente possível quando associado ao ideal de humanidade e solidariedade humana. Para ele, é pelo direito do outro que meu direito se impõe, diminuindo os espaços vazios que separam as dicotomias igualdade/diferença, tolerância/intolerância, ou seja, o repúdio à barbárie e a toda sorte de regimes totalitários.

Vale lembrar que "no projeto democrático, o ideal de igualdade é a condição de possibilidade de que as diferenças possam emergir, livres de coerção de um modelo normativo totalizante", ou seja, "é por defender uma sociedade mais justa para todos que singularidades e aspirações particulares se candidatem ao reconhecimento e à legitimidade".

A igualdade funciona, pois, não só como ideal regulador dessas dicotomias, como também um horizonte político que estimula e legitima a redução progressiva das desigualdades injustas e da tolerância. Agora, tirem os X-Men do fronte de batalha, e ponham todo o rol de excluídos e de minorias sociais que fazem parte no nosso país (negros, mulheres, índios, homossexuais, nordestinos, pobres, psicóticos, portadores de necessidades especiais, idosos, crianças, etc.), e talvez essas palavras façam mais sentido.

Os movimentos que lutam pelos direitos específicos de grupos estão nada mais do que contribuindo para a construção de uma igualdade universal da democracia moderna, visto que "a igualdade, a liberdade e a solidariedade só se realizam nesse processo ininterrupto de avaliação crítica de seus limites e de ampliação de suas fronteiras, formando parte de um processo coletivo de construção de uma sociedade melhor para um número cada vez maior de pessoas".

Mas conforme nos lembra a filósofa Hannah Arendt (1906-1975), não é verdade que todos nós nascemos livres e iguais em dignidade e direitos. Nós nos tornamos iguais, e isto só é possível pela organização de uma "comunidade política" através do exercício de nossos direitos políticos.

Neste sentido, as lutas fomentadas pelas minorias sociais aí estariam colocadas, quando grupos de indivíduos requerem direitos que lhes são negados por outros que coadunam com as leis que constroem. É esta luta, por exemplo, da comunidade negra (quando requerem direitos pautados na condição hereditária da cor de sua pele ou pelo passado de escravidão que sofreram), ou homossexual (por causa da sua escolha afetivo-sexual), mas também poderia ser perfeitamente a luta de comunidades indígenas (por conta do seu passado histórico que dizimou em quase sua totalidade os que aqui já se encontravam), ou dos sem-terra (pela burocracia insana que reina neste país, adiando a reforma agrária), ou ainda dos X-Men, quando estes requerem seu status de cidadania.

Ora, a igualdade de direitos é tudo o que os X-Men, liderados pelo Professor Xavier acreditam e desejam para si e para o resto da humanidade. Sabemos muito bem que este ideal de uma comunidade liberal é constantemente ameaçado pelo poder e a influência das desigualdades sociais e pela hegemonia do poder representado pela lógica concreta do capital.

Assim, o X-Men do Professor Xavier lutam não só contra o grupo liderado por Magneto, que vê nos humanos uma ameaça para os da sua espécie, como também contra uma sociedade que suporta e tolera menos as suas diferenças. Acontece que este mecanismo de diferenciação do outro de nós mesmos é capaz de gerar terríveis atos de violência e crueldade, conforme foi visto durante a Segunda Guerra Mundial e foi definido por Freud de "narcisismo das pequenas diferenças", pilar mestre de todo o preconceito, discriminação e intolerância. Isto porque o "narcisismo" suporta menos a convivência com o diferente e suporta menos ainda o convívio com o minimamente diferente, para lembrar as palavras da psicanalista Maria Rita Kehl.

Os negros, os homossexuais, as mulheres, os índios, os portadores de necessidades especiais, os judeus ou os muçulmanos não têm culpa de terem nascido com alguma particularidade que os diferencie da "grande maioria". Os mutantes do Professor Xavier e do Magneto também não. Ou alguém concorda que o destino de jamais poder tocar outra pessoa, é bem aceito pela Vampira? Ou procurar a "cura do gene X" seria a melhor solução para resolver os problemas de ser considerado "diferente" em uma "sociedade de iguais"? Ou quem sabe, é satisfatório carregar os dilemas e a dor de sua existência como tão bem expõe os conflitos internos do Wolverine, toda vez que ele precisa fazer uso de suas garras? "Dói?", pergunta Vampira comovida com a sua história de vida. "Muito!", responde Wolverine. Afinal, quem consegue ter prazer ao exibir as feridas de sua própria existência?

Portanto, o que os X-Men fazem nada mais é do que um apelo à tolerância, pois sufocados pela dor de terem que esconder seus poderes dos seus semelhantes suplicam a esta humanidade que relembrem do horror que ela mesma foi capaz de provocar. Suplicam por um mundo mais justo, por mais utópico que possa parecer, e de modo análogo, recordam as palavras de Adorno (1904-1969), retomadas por Jurandir Freire, quando aquele afirmava: "Barbárie, é pensar que nada faço para que o outro morra, mas também nada faço para que ele viva". A utopia, juntamente com os ideais humanistas de solidariedade, fraternidade e igualdade, e aliados ao sentimento de tolerância, é a crença na possibilidade de construirmos um mundo infinitamente melhor. A utopia, juntamente com os ideais humanistas de solidariedade, fraternidade e igualdade, e aliados ao sentimento de tolerância, é a crença na possibilidade de construirmos um mundo infinitamente melhor. 


Fonte: Sergio Silva

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