domingo, 20 de maio de 2012

O SENHOR DOS ANÉIS - ANÁLISE JUNGUIANA

ANÁLISE DO FILME: "O Senhor dos Anéis / A Sociedade do Anel"; PARTE 1
Por Rangel Roberto M. Fabrete
CRP 06 / 77.328


A NOVA ERA

O filme começa com a narrativa de como foram criados certos anéis, e posteriormente distribuídos os mesmos a líderes de três raças diferentes, tais anéis deveriam servir ao propósito da vontade de governar com paz e inteligência os reinos de cada raça. Foram distribuídos: 3 anéis aos elfos, 7 anéis aos anões mineradores e 9 anéis aos homens. Mas o Um Anel estava em oculto no poder de Sauron, que forjou os anéis partilhados e forjara para si o Um Anel. O Um Anel controlava todos os outros anéis e seus portadores, levando os à sua própria destruição. E tal destruição chegou ao seu clímax com a batalha travada  do exército de homens e elfos contra o exército de Sauron.

Os números dos anéis são interessantes, pois expressam um falso significado, quando analisados separadamente, pois o 3 exprime uma ordem intelectual e espiritual, a triunidade do ser a conjunção do 1 e do 2, a Trindade cristã por exemplo. Ao analisar o três deixando de lado o contexto do Um Anel, certamente poderia se pensar numa ordenação, em um governo de equilíbrio por meio dos três anéis confiados aos elfos. Os 7 representam a conclusão do mundo e a plenitude dos tempos, criação do mundo no livro de Gênesis como exemplo. Os sete anéis enfim trariam um governo de plenitude à raça dos anéis, se formos pensar apenas no 7 e deixar o Um em oculto. E os 9 anéis entregues aos homens vem simbolizar a medida das gestações das buscas proveitosas, o coroamento dos esforços, o término de uma criação, o término de um ciclo e o início de um novo. Finalmente os homens iriam desfrutar de um novo governo mediante ao contexto isolado do 9, mais uma vez não nos atendo ao Um.

As três raças possuem 19 anéis (3+7+9), as três raças desconhecem a existência do Um Anel, que permanece aonde deseja estar, trabalhando em oculto. O problema de Sauron e do Um Anel simbolizam o problema da neurose. O Um está em oculto, Sauron trabalha em oculto na sombra, a consciência é enganada pela sua percepção de um governo melhor, quando na verdade caminha para sua própria destruição. Sauron simboliza o arquétipo da vontade de poder, permanecendo em oculto na sombra, um complexo autônomo, que pode trabalhar livremente em um Ego "preso" em sua visão unilateral de mundo.

Quando o Um Anel é inserido no contexto dos 19 anéis, surge a verdade. Pois agora temos a totalidade do problema, a quaternidade do problema da "Divisão dos Anéis" está resolvida; 3 anéis aos elfos + 7 anéis aos anões + 9 anéis aos homens + 1 o Um anel de Sauron = 20 anéis. O 20 altera todo o pressuposto do prognóstico anteriormente dado aos governos por seus respectivos anéis dado às três raças, pois o 20 simboliza o número do homem, o homem tem 20 dedos, 4 x 5= 20, se somarmos: 4 + 5 = 9, teremos o número de anéis recebidos pelos homens. O 9 simboliza o fim de um ciclo e o início de um novo, isto é claro e explicitado na obra pois é o fim da era dos elfos na Terra Média, e o início da era dos homens na Terra Média e sendo 20 o número dos anéis, 20 também é o número do homem. No Hinduísmo a duração e o fim de cada era cósmica é de 432.000 anos,ou seja 4+3+2=9.

E foi por conta do homem que o Um Anel não fora destruído, o ego obstinado (Isildur) não dera ouvidos à voz do Inconsciente (Elrond), e acabou sucumbindo. O Um Anel então ficou adormecido no fundo de um lago por 2.500 anos (uma referência clara aos conteúdos imersos no Inconsciente) e na posse de Sméagol/Gollum, por mais 500 anos até que Bilbo viesse se apossar do mesmo. E o anel ficou também em posse de Bilbo por 60 anos, na antiga Mesopotâmia eram utilizados dois sistemas de medições numéricas : a decimal e a sexagesimal. A medida sexagesimal era baseada no soss (60), e até hoje utilizamos esta medida numérica; 60 segundos totalizam um minuto, 60 minutos totalizam uma hora, 360 graus um círculo. O ano mesopotâmico constava de 360 dias, a morte e ressurreição de um ano então constavam de 360 dias. Bem, se olharmos para esta totalidade de anos:

2.500 anos (Um Anel no fundo do lago)
+ 500 anos (Um Anel  na posse de Sméagol/Gollum)
+ 60 anos (Um Anel na posse de Bilbo)
= 3.060 anos


E com esta quantidade de anos podemos inferir algumas coisas:

Sauron teria necessitado de 3060 anos para recuperar seu poder.
3+6=9, Sauron  recupera suas forças na era dos homens .
20 número do homem, 3 foram as etapas de anos diferenciadas no processo de morte e ressureição de Um Anel/Sauron (1. fundo do lago, 2. posse de Sméagol/Gollum e 3. posse de Bilbo), assim sendo: 60 totalidade sexagesimal / 3 etapas = 20 era do homem.
60 anos na posse de Bilbo, 60 minutos = 1 hora. Enfim chega: "A hora certa do despertar do Um Anel/Sauron."Chegada é a era dos homens, e aqueles que um dia foram homens e hoje são espectros, também são 9. Os nazgûl tem um papel de suma importância para Frodo, conforme vamos ver agora. 


O RITUAL DE INICIAÇÃO

Se pensarmos sobre quem era Frodo e quem passou a ser Frodo pós a jornada do Anel, teremos um grande exemplo do que é um ego entregue ao processo de individuação. Uma das narrativas do filme diz o seguinte: "E os hobbits governarão o destino de todos." Na divisão dos anéis, os hobbits foram a única raça a não receber anel algum, os hobbits, da quaternidade das raças foi a raça desprezada, a menor raça, aquela tida com pouco ou sem valor. Mais uma vez a simbolização da neurose aparece expressa, 3 raças receberam atenção e foram reconhecidas como sendo parte da totalidade (Terra Média), 1 raça fora dissociada mesmo fazendo parte do contexto. E assim dependendo do grau de valor e ou importância ao Inconsciente por parte do ego, ele aparecerá expresso em símbolos de tamanhos opostos, certamente como vivemos em uma sociedade onde o ego tem a falsa impressão de estar "no comando do todo", o Inconsciente em certas representações aparece como alguém pequeno.

Tal como  Frodo, e raça dos hobbits, O Grilo-Falante (Pinóquio), erroneamente denominado de "a consciência de Pinóquio", os Umpa-Lumpas, personagens que criam os chocolates da fábrica de Willie Wonka no filme "A Fantástica Fábrica de Chocolates", e exortam as crianças que desrespeitam as regras da fábrica. (Obs: Odiei a versão nova de Tim Burton, prefiro a versão antiga com Gene Wilder e os Umpa-Lumpas laranjas de cabelos verdes). E na Alquimia temos o centro, o alvo, o objetivo de todo alquimista na Idade Média, a lápis phiposophorum e assim libertar o Homúnculo que vive dentro da mesma. O Homúnculo aliás, clamou por séculos até ser libertado "pós Idade das Trevas", embora hoje em dia o mesmo parece ter sido aprisionado novamente, e o redentor clama àqueles que necessitam de salvação e não o sabem. Basta olharmos para o "culto ao materialismo" em que vivemos, e a degradação e ou desprezo dos valores espirituais em nossa sociedade.

Mas retomando o problema de Frodo, um hobbit pacato que nunca havia saído do Condado que nunca sequer havia segurado uma espada, passa em um "estalar de dedos" a ter de salvar toda a Terra Média. "Fácil" não??? Eis o nosso "Hobbitúnculo", mas nada é fácil na jornada do processo de individuação, é necessário que se abra mão de certas coisas das quais já estamos acostumados a ter, e acomodados em viver de determinadas maneiras e isso sempre provoca algum desconforto, alguma dor. E por que não até a própria "morte"? Frodo precisava "morrer", antes de iniciar sua jornada, e foi o que aconteceu, quando o mesmo é atingido pela lâmina do naszgûl, faz parte do ritual de iniciação do herói o auto-sacrifício, morre uma velha natureza, nasce uma nova natureza. A cena do filme evidencia o aspecto do ritual de iniciação, de sacrifício, pois Frodo se encontra na torre de vigia, um local semelhante ao velho círculo de pedras do Stonehenge na Inglaterra, uma mandala de pedras empilhadas onde eram feitos rituais de sacrifícios humanos.


Este texto é bem explicativo sobre a importância do papel do ritual de iniciação:

Moyers: E a mensagem das cavernas?

Campbell: A mensagem das cavernas é sobre uma relação entre o tempo e os poderes eternos, que de algum modo deve ser experimentada ali.

Moyers: Para que eram usadas essas cavernas?

Campbell: A especulação dos investigadores diz que elas tinham a ver com a iniciação dos meninos à caçada. Os meninos aprendiam não somente a caçar, mas a respeitar os animais, que rituais executar, e, em suas próprias vidas, como deixar de ser menino para ser homem. As caçadas você sabe, eram extremamente perigosas. Essas cavernas eram os primitivos santuários dos ritos masculinos, onde os meninos deixavam de ser os filhos das suas mães para se tornarem os filhos dos seus pais.

Moyers: O que me aconteceria se eu fosse uma criança e participasse de um desses ritos?

Campbell: Bem, não sabemos o que eles faziam nas cavernas, mas sabemos o que fazem os aborígenes da Austrália. Pois bem, quando o menino começa a ficar desobediente, um belo dia os homens chegam, e estão nus, exceto por umas esteiras de penas brancas, de ave, que eles grudaram na pele usando o próprio sangue como cola. Eles dançam e soltam mugidos de boi, que são vozes de espíritos, e os homens chegam ali como espíritos. O menino tentará proteger-se junto à mãe, e ela fingirá que está tentando protegê-lo. Mas os homens simplesmente o tomam. Como você vê, a partir desse instante, a mãe deixa de ser útil. Você não pode voltar à Mãe, você está em outro campo. Então os meninos são levados para fora, para o chão sagrado dos homens, e submetidos a duras experiências – circuncisão, subincisão, beber sangue humano, e assim por diante. Assim como tinham bebido o leite materno, quando crianças, agora bebem o sangue dos homens. Vão ser transformados em homens.


Enquanto isso se dá, encenam-se episódios mitológicos, dos grandes mitos. Eles são instruídos na mitologia da tribo. Então no final, são levados de volta à aldeia, e a menina com a qual cada um casará já foi escolhida. O menino retorna agora, como homem. Ele foi arrancado da infância, seu corpo foi marcado de cicatrizes, a circuncisão e a subincisão foram cumpridas. Agora ele tem o corpo de um homem. Não há como voltar à infância, depois de um espetáculo desses…"
CAMPBELL, Joseph. "O PODER DO MITO", pg.85.

E Frodo fora "circuncidado no coração", em meio aos gritos dos espíritos (nazgûl) e a cicatriz pemaneceu, evidenciando que aquele Frodo do Condado estava morto, nascia agora, Frodo da Terra Média. Interessante notar que os espectros não podem ser mortos por homens, mas os mesmos temem o fogo, o Fogo do Espírito. João Batista batizava com água, mas Jesus veio para batizar com fogo, Heracles derrotou a Hidra queimando com fogo os pescoços que tinham as cabeças cortadas, pescoço queimado, não nasciam mais as cabeças, a malignidade era extirpada de vez pela iluminação do Espírito.


AS SOCIEDADES

Abordada já a questão do 9, não se faz necessário maiores explicações do significado do mesmo no contexto da obra. Para termos uma sociedade são necessários 9 membros, e este é o tema que dá título a esta primeira parte da obra. Todo símbolo tem sua dualidade, assim como há a Sociedade do Anel, formada pelos 4 hobbits + 2 homens + 1 elfo + 1 anão + 1 mago = 9, há também o oposto desta sociedade. A sombra dela é sociedade composta dos 9 espectros, reis bruxos.

Dentro da Sociedade do Anel, há suas subdivisões:

A quaternidade dos hobbits: Frodo (função pensamento) X Sam (função sentimento) / Pippin (função intuição) X Merry (função sensação)

A tríade: Aragorn, Legolas e Gimli.

O par de opostos: Gandalf X Boromir.


Desta forma temos uma totalidade expressa pela quaternidade dos hobbits, porém a tríade composta demonstra que algo está faltando, ou seja a destruição do Um Anel. E o par de opostos entre Gandalf e Boromir nos remete aos irmãos Castor e Pólux, um mortal o outro imortal, os dois ladrões ao lado de Cristo na cruz, um desce à mansão dos mortos e o outro sobe para o paraíso, da mesma maneira como Cristo desce à mansão dos mortos e sobe aos céus posteriormente. Boromir morre, Gandalf morre e ressurge.

Esta subdivisão em 3 partes da sociedade nos remete mais uma vez ao número de duração e término de uma era cósmica, 432.000 anos. Pois, 4 hobbits + 3 + 2 opostos = 9 A Sociedade do Anel.


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