quinta-feira, 24 de maio de 2012

O SENHOR DOS ANÉIS - ANÁLISE JUNGUIANA 3


ANÁLISE DO FILME "O SENHOR DOS ANÉIS / AS DUAS TORRES"
Por Rangel Roberto M. Fabrete
CRP 06 / 77.328




A IMPORTÂNCIA  DA SOMBRA

O filme começa com Frodo e Sam  caminhando em círculos,sem sair do local onde estavam, passando pelos mesmos lugares  e não obtendo êxito em sua jornada rumo a Mordor .

Justamente porque ambos representam uma verdade unilateral do Self, ambos são funções racionais: Frodo (pensamento) e Sam (sentimento).

Falta a Frodo e Sam , a  complementação das funções irracionais, a sensação e a intuição personificadas em  Smeagol (sensação) / Gollum (intuição).

"… "Ars totum requirit hominem!" (a Arte requer o homem inteiro!), exclama  um velho alquimista. Justamente é este "homo totus" que se procura.

O esforço do médico, bem como a busca do paciente, persegue esse "homem total" oculto e ainda não manifesto, que é  também o homem mais amplo e futuro.

No entanto, o caminho correto que leva à totalidade é infelizmente feito de desvios e extravios do destino. Trata-se da "longissima via", que não é uma reta, mas uma linha que serpenteia, unindo os opostos à maneira do caduceu, senda cujos meandros labirínticos não nos poupam do terror. Nesta via ocorrem as experiências que se consideram de "difícil acesso". Poderíamos dizer que elas são inacessíveis por serem dispendiosas, uma vez que exigem de nós o que mais tememos, isto é, a totalidade…" PSICOLOGIA E ALQUIMIA, C.G.JUNG, pg.20.

Sim, o caminho correto que leva a meta da individuação é feito de desvios e extravios do destino.

Frodo e  Sam continuariam em desvios e extravios de caminho, caso não tivessem encontrado o seu lado oposto em Sméagol / Gollum.

Pois são justamente tais funções irracionais, perceptivas que podem guia-los por caminhos escondidos e ocultos que levam até "O Portão Negro", as funções de julgamento racionais desconhecem tais caminhos.

O sentimento (Sam) pode até querer desprezar aspectos repulsivos (Sméagol / Gollum) em relação a si próprio, mas o pensamento é capaz de conviver com tais aspectos,pois entende que os mesmos são necessários em prol do objetivo da totalidade:

"Sam (sentimento): Por que não o atamos e o deixamos para trás ?
  
Frodo (pensamento): Talvez ele mereça morrer, mas agora que o vejo tenho pena dele."

E assim como a pena segurou a mão de Bilbo, e governou o destino de muitos, a mesma situação se repete com Frodo . Frodo afirma que sem Sam ele não teria conseguido chegar tão longe, mas não conseguiria de forma alguma completar sua jornada sem  Gollum.

Mas aí, para se admitir isso, é necessário um esforço muito grande por parte da consciência em reconhecer a suma importância da sombra.


MEDUSELD

Aragorn, Legolas e Gimli seguiam o rastro de Merry e Pippin. Porém, os três se deparam com Éomer e seus homens que haviam sido banidos por Gríma do reino de Rohan.

Na noite anterior os rohirins entraram em confronto com os orcs que detinham a posse de Merry e Pippin, tal acontecimento possibilitou a fuga dos hobbits para a Floresta de Fangorn.

Seguindo os rastros deixados por Merry e Pippin, os três valentes adentram a Velha Floresta onde se encontram com Gandalf inesperadamente.

Gandalf lhes conta que :

"Por fogo, água, desde a caverna mais profunda, até o monte mais alto lutei contra o Balrog de Morgoth"

E o texto bíblico conta que:

Isaías 43,2: "Quando passares pelas águas, estarei contigo, e quando passares pelos rios, eles não te submergirão. Quando passares pelo fogo, não te queimarás,nem a chama arderá em ti."

Nesta fala de Gandalf, encontra-se a representação do Self, Gandalf atingiu a totalidade.

A conjunção de opostos está completa em Gandalf o Branco, é na virada da maré que ele retorna aos que precisam de sua ajuda, sua missão não está completa .

Os quatro agora se dirigem a Rohan, pois o rei Théoden se encontra sob a influência de Gríma Língua de Cobra. Então podemos ver que, a consciência fora tomada pelos aspectos obscuros do Inconsciente, a luz não se encontra no Ego de Théoden, mas na sombra.

Gríma personifica as forças destrutivas do Inconsciente, a estória não nos conta sobre a personalidade de Theóden anterior a possessão do arquétipo maligno na consciência do rei dos rohirrins, porém é muito provável que o mesmo adotava uma postura orgulhosa e onipotente, sempre buscando mais poder, até que a atitude compensatória do inconsciente transformou Théoden em um simples fantoche. Caso contrário teria sido muito difícil ocorrer tal cisão conforme o acontecido.O rei se tornou cego, rígido e petrificado diante dos desígnios e ordens de Gríma.

O nome do palácio dourado do rei de Rohan tem um nome sugestivo, que parece transmitir um significado tanto da cegueira do momento vigente, como também de sua cura e libertação no futuro.

Ao separar o termo desta forma, Medus – eld, encontramos um significado no presente e no futuro da neurose de toda Rohan.
O termo Medus, nos remete ao mito de Medusa, personagem a qual todo aquele que olhasse para ela se petrificava.

Théoden  se tranfromou em uma estátua de pedra, sem individualidade alguma ao olhar para os conselhos de Língua de Cobra. Este texto explicará melhor a tragédia do Rei Theóden:
"Górgonas

Três irmãs, três monstros, cabeça aureolada de serpentes enfurecidas, presas de javali saindo dos lábios, mãos de bronze, e asas de ouro: Medusa, Euríale, Esteno.
Simbolizam o inimigo a abater. As deformações monstruosas da psique são devidas às forças pervertidas dos três impulsos: sociabilidade, sexualidade, espiritualidade.

Euríale seria  a perversão sexual, Esteno a perversão social; Medusa simbolizaria o princípio desses impulsos: o espiritual e evolutivo, mas pervertido em estagnação vaidosa.

Só se pode combater a culpabilidade originada da exaltação vaidosa dos desejos com um esforço no sentido de realizar a justa medida, a harmonia. 

É isso que simboliza quando  as Górgonas ou as Erínias perseguem alguém, à entrada no templo de Apolo, deus da harmonia, como num refúgio.

Quem via a cabeça da Medusa ficava petrificado. Não seria por refletir a Górgona a imagem de uma culpa pessoal? Mas o reconhecimento da falta, no contexto de um justo conhecimento de si mesmo, pode também perverter-se em exasperação doentia, em escrúpulos paralisantes de consciência.

Paul Diel observa com profundidade: 'A confissão pode ser – o é quase sempre – uma forma específica da exaltação imaginativa: um remorso exagerado. O exagero da culpa inibe o esforço reparador. Só serve ao culpado para refletir vaidosamente na complexidade,imaginada única e de profundeza excepcional,da sua vidas subconsciente…

Não basta descobrir a culpa. É preciso suportar a visão dela de maneira objetiva, nem exaltada nem inibida (sem exagera-la ou minimiza-la). A própria confissão deve estar isenta de excesso de vaidade e de culpabilidade… A Medusa simboliza a imagem deformada do eu… que petrifica de horror ao invés de esclarecer na medida justa' (DIES, 93-97 )." DICIONÁRIO DE SÍMBOLOS, JEAN CHEVALIER / ALAIN GHEERBRANT, pg.476.


E quanto ao termo eld, ele trás uma referência com a palavra inglesa Elder:

ELDER <'elde>, s. Ancião; antepassado; dignitário; chefe de uma tribo; oficial superior em algumas igrejas protestantes; (bot) sabugueiro. a . comp. de old, mais velho .

É bem claro sobre quem seja o Ancião da estória, Gandalf. Ele é justamente o oposto de Theóden. O rei está cego e petrificado, nas sombras. Gandalf é o Branco, o que ilumina e trás a visão. O termo Meduseld seria então uma referência a cegueira e imobilização de Theóden (Medusa), juntamente com a iluminação e transformação que Gandalf ( Elder) trás à consciência nublada e obscurecida.

O termo Meduseld  encerra em si próprio o início e o fim da estória em "As Duas Torres", pois o termo expressa como uma consciência nublada, indiferente em relação a seus próprios problemas e desafios e sem esperanças (povo de Rohan / Ents) personificado por Théoden, passa a ter uma visão ampliada quando recebe a cura de sua cegueira pela relação restaurada com o inconsciente (Gandalf / Merry e Pippin).

A luz de Gandalf descendo a montanha cegou os orcs, que logo foram derrotados. Gandalf simboliza o arquétipo do Self, o homem total emana "luz própria", e por onde passa transforma os que estão ao seu redor.

"A transformação espiritual da humanidade ocorre de maneira vagarosa e imperceptível, através de passos mínimos no decorrer de milênios e não é acelerada ou retardada por nenhum tipo de processo racional de reflexão e, muito menos, efetivada numa mesma geração. Todavia, o que está a nosso alcance é a transformação dos indivíduos singulares, os quais dispõem da possibilidade de influenciar outros indivíduos igualmente sensatos de seu meio mais próximo e, às vezes, do meio mais distante.

Não me refiro aqui a uma persuasão ou pregação, mas apenas ao fato da experiência de que aquele que alcançou uma compreensão de suas próprias ações e, desse modo teve acesso ao inconsciente, exerce, mesmo sem querer, uma influência sobre o seu meio.

O aprofundamento e ampliação da consciência produz os efeitos que os primitivos chamam de "mana". O mana é uma influência involuntária sobre o inconsciente de outros, uma espécie de prestígio inconsciente, e seu efeito dura enquanto não for perturbado pela intenção consciente." PRESENTE E FUTURO, C. G. JUNG, pg. 50.


O DIQUE SE ROMPE

Os orcs levavam consigo Merry e Pippin, pois a única informação que Mordor e Isengard tinham era de que  o Um Anel estava com um hobbit. O objetivo de Sauron e Saruman era obter o Um Anel, e desta forma a ordem era levar o hobbit vivo para concretizar tal meta.

Mas o que os orcs desconheciam, era que na verdade estavam ajudando os pequenos hobbits,levando-os mais próximos de Fangorn .

Da mesma forma Gríma também ajudou os hobbits ao expulsar Éomer e seus cavaleiros de Rohan. Pois fora no momento do combate dos rohirrins contra os orcs que Merry e Pipin conseguiram fugir rumo a Floresta Velha. E as Moiras continuaram seu trabalho :

Romanos 8,28: "Sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus,daqueles que são chamados segundo o seu propósito."

"Saruman também desejava apossar-se do Anel, para uso próprio, ou pelo menos capturar alguns hobbits para seus propósitos malignos.

Então, agindo em conjunto, nossos inimigos só conseguiram trazer Merry e Pippin, numa velocidade espantosa, e no momento certo, até Fangorn, para onde eles nunca teriam vindo de outra forma!" O SENHOR DOS ANÉIS: AS DUAS TORRES, J. R. R . TOLKIEN, pg. 95

Merry e Pippin são encontrados por Barbávore, o pastor dos Ents, antes de entrarem na Floresta, os hobbits comentavam sobre os Ents, que teriam ganho vida por conta de alguma coisa na água do rio.

Os Ents sempre foram um povo pacífico e não muito sociáveis, não se relacionavam com as outras raças. Eram dissociados do que acontecia na Terra Média, sem preocupações, sem problemas, totalmente apáticos em relação a grande guerra que estava acontecendo.

Porém os Ents não eram dissociados apenas em relação ao que acontecia na Terra Média, eram dissociados também em relação a si mesmos.

Barbávore racionaliza sua atitude e a de seu povo:

"Não estou do lado ninguém, porque ninguém está do meu lado."

Mas o propósito de Merry e Pippin em estar na Floresta, começaria a dar certo. Barbávore convoca os ents para um entebate, uma reunião dos ents, algo não muito comum de ocorrer. A língua entês também é um idioma que se leva muito tempo para se dizer algo, quando utilizada para uma conversa .

E o diálogo também só é feito quando vale a pena, ou seja o povo ent é um povo que reprime a função sentimento, priorizando a função pensamento.

A postura extremamente racional da consciência dos Ents aparece nesta fala de Barbávore:

"Os ents não podem deter esta tempestade. Devemos agüentar os acontecimentos como sempre fizemos. Esta guerra não é nossa."

Mas o dique estava por se romper, não o dique do rio Isen, o rompimento do dique de Isen na verdade só irá ser ocorrer casso o dique do rio do Inconsciente se rompa e inunde a consciência dos ents.

"Não foi em vão que os jovens hobbits vieram conosco, mesmo que tenha sido apenas para o bem de Boromir. Mas esse não é o único papel deles. Foram trazidos a Fangorn e a chegada deles foi como a queda de pequenas pedras que iniciam uma avalanche nas montanhas. Neste momento em que estamos conversando, ouço os primeiros estrondos. Será melhor para Saruman não ser pego fora de casa quando a represa explodir."


O SENHOR DOS ANÉIS: AS DUAS TORRES, J. R. R. TOLKIEN, pg. 93-4

Esta é a missão dos hobbits, complementar as funções racionais caracterizadas nos Ents. Merry personifica a função sensação, Pippin personifica a função intuição. Ambos representam as funções perceptivas irracionais, funções estas que até então faltavam a Barbávore e seu povo.

Pippin (intuição) pede para o velho Ent levá-los ao sul, para Isengard, onde está o rio Isen, onde será rompido o dique do inconsciente. Barbávore (pensamento) não entende o pedido do pequeno, mas  atende a demanda :

"Sempre eu gostei de ir ao sul. De certa forma, é como descer colina abaixo"

Esta é a catábase de Barbávore, sua descida ao sul, ao inconsciente. Lá o ent encontrará a função sentimento, que será a grande responsável pela marcha dos Ents rumo a Isengard. O dique do inconsciente se rompeu inundando as consciências antes frias e racionais, agora os Ents marcham inflamados pelos sentimentos trazidos à tona pelo inconsciente. O discurso de Barbávore agora é outro, pois ouve o rompimento da represa do inconsciente no momento em que vê (sensação) seus amigos ents mortos:
"Tenho que me ocupar de Isengard esta noite com rodas e pedras. Os ents partem para a guerra. É provável que encontremos nosso fim. Que seja a última marcha dos ents."

"O velho Ent agora pegou os Hobbits de volta, e colocou-os sobre os ombros outra vez, e assim eles foram orgulhosos à frente do grupo que cantava, com os corações palpitando e as cabeças erguidas. Embora tivessem tido expectativas de que alguma coisa ocorresse eventualmente, ficaram chocados com a mudança que ocorrera ao Ents. Parecia abrupta como o estouro de uma correnteza há muito tempo estancada por um dique." O SENHOR DOS ANÉIS: AS DUAS TORRES, J. R. R. TOLKIEN, pg. 83
O Rio antes represado, agora corre livre pelos Ents. Por conta deste rompimento os Ents libertam o rio Isen, este passa levando embora toda sujeira, transformando tudo por onde passa.

Ezequiel 47, 1-12:

1. DEPOIS disto me fez voltar à porta da casa, e eis que saíam águas por debaixo do umbral da casa para o oriente; porque a face da casa dava para o oriente, e as águas desciam de debaixo, desde o lado direito da casa, ao sul do altar.

2. E ele me fez sair pelo caminho da porta do norte, e me fez dar uma volta pelo caminho de fora, até à porta exterior, pelo caminho que dá para o oriente e eis que corriam as águas do lado direito.

3. E saiu aquele homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir; e mediu mil côvados, e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos artelhos.

4. E mediu mais mil côvados, e me fez passar pelas águas, águas que me davam pelos joelhos; e outra vez mediu mil, e me fez passar pelas águas que me davam pelos lombos.

5. E mediu mais mil, e era um rio, que eu não podia atravessar, porque as águas eram profundas, águas que se deviam passar a nado, rio pelo qual não se podia passar.

6. E disse-me: Viste isto, filho do homem? Então levou-me, e me fez voltar para a margem do rio.

7. E, tendo eu voltado, eis que à margem do rio havia uma grande abundância de árvores, de um e de outro lado.

8. Então disse-me: Estas águas saem para a região oriental, e descem ao deserto, e entram no mar; e, sendo levadas ao mar, as águas tornar-se-ão saudáveis.

9. E será que toda a criatura vivente que passar por onde quer que entrarem estes rios viverá; e haverá muitíssimo peixe, porque lá chegarão estas águas, e serão saudáveis, e viverá tudo por onde quer que entrar este rio.

10. Será também que os pescadores estarão em pé junto dele; desde Engedi até En-Eglaim haverá lugar para estender as redes; o seu peixe, segundo a sua espécie, será como o peixe do mar grande, em multidão excessiva.

11. Mas os seus charcos e os seus pântanos não tornar-se-ão saudáveis; serão deixados para sal.

12. E junto ao rio, à sua margem, de um e de outro lado, nascerá toda a sorte de árvore que dá fruto para se comer; não cairá a sua folha, nem acabará o seu fruto; nos seus meses produzirá novos frutos, porque as suas águas saem do santuário; e o seu fruto servirá de comida e a sua folha de remédio.


BIBLIOGRAFIA:

CHEVALIER, J & GHEERBRANT, Dicionário de Símbolos . 14ª ed. Rio de Janeiro . José Olympio . 1999

SERPA, Oswaldo, Dicionário Escolar/Inglês-Português/Português-Inglês. 6ª ed. Rio de Janeiro.Fename. 1957.

TOLKIEN, J.R.R, O Senhor dos Anéis/As Duas Torres. 2ª ed. São Paulo. Martins Fontes. 2001 .

JUNG, C.G., Presente e Futuro. 4ª ed. Petrópolis. Vozes. 1999.

JUNG, C.G., Psicologia e Alquimia .2ª ed. Petrópolis. Vozes. 1994.

Textos da Bíblia Sagrada :

Ezequiel 47; 1-12.

Isaías 43; 2.

Romanos 8; 28.

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