segunda-feira, 7 de maio de 2012

O PARADOXO DO COTIDIANO DIONISÍACO


Por Luana Joplin


“Hedonismo dionisíaco manifesto não apenas na incandescência das festas e das errâncias sexuais, mas também, de maneira mais ampla, na vida cotidiana (consumo, moda, lazeres) através de emoções e de sensibilidades comuns dominadas pela ‘saída extática de si’ em micro grupos”. (LIPOVETISKY, GILLES- 2007).


Na contemporaneidade, o indivíduo e suas overdoses de novidades, consumos extravagantes, contribuiu para o boom de momentos de êxtase coletivo, a partir da necessidade de transformar seu cotidiano em uma Odisséia Urbana, ou diria melhor, uma poesia do cotidiano, repleto de figurino, enredo, música e uma rede social cibernética que transpareça cotidianos dionisíacos. Segundo LIPOVETISKY, essa atitude expressa o ”princípio de individuação”, e a partir de uma maneira individual, viver essa emoção “dionisíaca” em grupo, ou diria, micro grupos (emoções em comum compartilhada na mesma rede social) que dispõem da mesma sensibilidade coletiva.

Desde meados do século XX ocorreram revoluções comportamentais em prol da liberdade de expressão, liberdade sexual, e exaltação do corpo como um instrumento de guerra social, e trouxeram o ideal de modos de vida inéditos a serem vividos, e enaltecidos, causando assim um rompimento com a sociedade de modelo autoritário.

Para tentar entender este processo de transformação social, precisamos entender as conseqüência, causas e intenções das revoluções comportamentais que ocorreram no século XX e que vem acontecendo na contemporaneidade. Para isso seria necessário também, definir o conceito de “comportamento” e suas abordagens. Não aprofundarei nesses conceitos, vou deixá-los para meus amigos Psicólogos e pesquisadores em psicologia. Vamos entender essas revoluções como uma guerra pela liberdade sexual, social e de pensamento, e tendo como armas corpo e estética, com o intuito de transformar o cotidiano e o hábito em ideologias concretas. Ou seja, fazer das utopias sessentistas uma realidade adaptada.

Percebe-se, que a partir da década de 1960, houveram transformações comportamentais na sociedade, transformações ideológicas, transformações no hábito cotidiano, transformações no desejo, transformações das pulsões – tirando-as do trabalho e transferindo para o corpo. O Ideal dionisíaco passa a ser enaltecido como uma proposta de lazer, em comunhão com a felicidade. Dentre todas as revoluções, nenhuma teve mais peso do que a GLOBALIZAÇÃO (COELHO,F.O. 2004), um fenômeno histórico que favoreceu o consumo e a informação.

A Globalização foi uma das bases fortes para a estrutura desse Império do “Efêmero” (LIPOVETISKY, 1987), de mãos dadas com uma revolução da tecnologia da informação - INTERNET, conseguem transformar o desejo, o pensamento político e social do indivíduo, e fazer de seu cotidiano, na web, um paradoxo ( onde há um culto de si através da fetichização da própria imagem, trazendo uma visão concreta-distorcida da própria realidade, do cotidiano e de si. É nesse culto de si, como um fetiche, que o consumo acontece; a publicidade vai investir no estímulo do desejo, nas imagens luxuriantes e na sexualização do corpo, à partir de produtos que proporcionem gozos instantâneos, e que possam ser exibidos na Web e no cotidiano.

“Os aprofundamentos dessa relação estreita entre o consumidor, a forma como se vende um bem e o uso estratégico do bem consumido, reforçam um processo histórico em que as imagens estéticas e valores éticos passam a ser elementos fundamentais na busca pessoal – e coletiva [...]” (p. 326 – COELHO, 2004)


1. CONSUMO: O CORPO COMO UM ESPETÁCULO DA SOCIEDADE DO DESEJO.

No final do século XX, a sociedade do desejo passa a viver um frenesi diante da constante inovação tecnológica. As inovações tecnológicas trouxeram transformações nas gerações do século XXI, modificando os lazeres, a sociabilidade, e por que não, o desejo. Os jogos de futebol, as brincadeiras de rua, foram substituídas por videogames com tecnologias super avançadas, jogos RPG conectados a uma rede social, a internet, blogs, entre outras redes sociais, que expandiram a sociabilidade na WEB, porém trouxe a individuação no cotidiano do indivíduo. As linguagens visuais com inovações estéticas transformam o objeto de desejo, a sociedade, a comunicação, o consumo e o corpo, trazendo tendências imbuídas de discursos sedutores e invasivos.

“A constante especialização e mecanização – ou informatização - das relações sociais, a incrível inovação tecnológica do mundo do trabalho e do lazer, [...] e a positivação do hedonismo, do capital e da fama deram-se, em grande parte, através da veiculação insistente e lucrativa desses padrões de consumo em busca do novo e do efêmero [...]” (COELHO, F.O 2004.- p.327).

Como afirma o autor FREDERICO OLIVEIRA COELHO, em seu artigo “Revolução comportamental no século XX”, no livro “O Século Sombrio: uma história geral do século XX” (Francisco Carlos Teixeira da Silva (org.) – 2004), essas transformações foram promovidas por uma indústria de entretenimento em massa e pela ativação do desejos de consumidores ativos, e segundo o autor, dinheiro e fama passaram a ser vistos como valores positivos e que transformou o comportamento do homem contemporâneo. A fama e o dinheiro para a ser uma porta de entrada em um mundo de consumo onde o culto ao corpo traz o gozo no mundo efêmero, transparece uma auto-afirmação da vida hedônica e dionisíaca.

Esse culto ao corpo, uma maratona autoflagelante em busca da beleza, leva o corpo do indivíduo contemporâneo ao seu limite de uso e desuso de academias, cirurgias, anabolizantes, vitaminas, lojas, submetendo homens e mulheres obcecados pela boa forma, em uma sociedade com ideais prostrados e obstinados a obter o corpo perfeito. O ideal de beleza passa a ser o corpo magro, seminu e malhado.

Esse ideal de beleza vai transformar os hábitos do indivíduo contemporâneo aliados a medicina estética e nutricional, juntamente com os mercados Diet e Light; o culto ao corpo se transforma em uma indústria (COELHO, 2004).

“[...] o esnobismo, o gosto de brilhar, de classificar-se e diferenciar-se não desapareceram de modo algum, porém não é mais tanto o desejo de reconhecimento social que serve de base ao tropismo em direção as marcas superiores quanto o prazer narcísico de sentir uma distância em relação a maioria, beneficiando-se de uma imagem positiva de si para si.” (LIPOVETISKY,2007- P.47)

Segundo LIPOVETISKY, a vaidade social estará mais voltada para a temática de saúde, tendo esse discurso como um argumento decisivo de venda. A medicina irá, pois, se ocupar desse discurso, tendo em voga a beleza e a saúde do corpo, com o intuito de desacelerar os processos naturais da vida. O processo de industrialização do discurso de beleza e saúde, em prol da construção de um neo indivíduo da pós modernidade (que na modernidade era o indivíduo de movimentos políticos e sociais), passa a ser o indivíduo que cultua o corpo, a saúde, e que consegue a auto-afirmação narcísica tirando o Sexo do centro das patologias, proibições e contestações vivenciadas em início e meados do século XX, para o Marketing do corpo, ou por que não, o marketing de si.

O cuidado de si, o culto ao corpo, a satisfação do desejo a partir do consumo, e a auto-afirmação do Ego partindo do controle social do corpo e experimentando seus limites, denota um ritmo de satisfação plena de si, a partir do olhar do outro. Esse olhar do outro, traz anseios e necessidade de adquirir bens para obter determinadas regras de conduta, no inconsciente coletivo, que envolve, status, beleza e o marketing de si como auto-afirmação do EGO.

“O convívio social torna-se um espaço em que aparências estéticas são estrategicamente dispostas e confrontadas na formação de novos parâmetros éticos de comportamento: etiqueta, postura, vestimenta, vocabulários e gostos culturais são elementos de diferenciação e construção de identidades [...]” (COELHO,2004- P.337)

Na sociedade de Hiperconsumo, consumir e ser consumido passam a ser necessidades de extrema importância, pois a publicidade inspira o “ser indivíduo” através de seus ‘protoplasmas’ (ROLNIK,Suely-2007), ou seja o bem-estar propagado na mídia, e os protótipos de beleza e consumismo, inspira a sociedade do desejo, pesando o “ser” sobre o “parecer”; “ É por isso que grandes ambições e extrema modéstia nessa insólita promoção de você e eu que se espalha pelos novos circuitos interativos: glorifica-se a menor das pequenezas enquanto se parece buscar a maior das grandezas” (SIBÍLIA, Paula – 2008, p. 11), uma promoção de si. Acredito que o a ‘vontade de potência’ de Nietzsch tenha alcançado seu objetivo.


2. ORGIAS E BULIMIAS CONSUMISTAS; UMA ATMOSFERA DESTILADA

Nos movimentos de contracultura que ocorreram durante a década de 1960, o deus Grego Dionísio torna-se um símbolo de valor hedonístico, de ideais de liberdade, e utopias, fazendo com que os jovens se movimentem contra a repressão social e política. O princípio de sublimação social passa a ser substituído pela exaltação do corpo, como um instrumento de livre prazer, mensagens através da arte e o culto a substâncias psicotrópicas serão as armas de protesto. Essas armas de protesto passam a ser tidas como engrenagens da sociedade do espetáculo, e já no final do século XX, a sociedade já estaria embriagada pelo êxtase do sexo, da psicodelia e pela sedução do consumo e para o consumo como sedução.

O peso desenfreado de ser, de parecer, e estar inserido na sociedade e em acordo com os padrões da sociedade do desejo, traz um êxtase consumista, uma obsessão pela moda e pela imagem, causando uma embriaguez e distorcendo o gosto da própria existência. A busca pelo cotidiano dionisíaco, embriagado de consumo, causa convulsões eróticas diante do espelho social, produzindo uma necessidade de orgias com as prateleiras e os Magazines.

“[...] o homem dionisíaco não tem outro intuito senão romper os limites de seu EU, livrando-se de todo centro e de toda subjetividade num paroxismo de sensações e de pulsações de desejo. O grande desejo de Dionísio é evadir-se de si, repudiar o Ego mergulhado no informe e no caos, afundando no oceano de sensações ilimitadas. Libertar-se da prisão do Eu, livrar-se das dores da individuação [...]: esse é o sentido do homem dionisíaco do ontem e do hoje.” (LIPOVETISKY,2007- P. 208)

O indivíduo contemporâneo expressa a ansiedade do hiperconsumismo em seu cotidiano, em uma bulimia cultural, onde o indivíduo engole paradigmas, em busca do hedonismo dionisíaco, expressando sexualismo em seus costumes, no seu cotidiano e nos produtos que consome. Deste modo, o indivíduo cospe a própria cultura, se entregando a uma cultura erotizada em busca do gozo imediato, numa trama de desejos transformando o cotidiano em uma relação orgásmica, inserido em um cenário de orgias do consumo. Esse cotidiano dionisíaco não expressa somente a busca pelo lazer, mas a relação do desejo pelo lazer como sendo algo a se comprar, a necessidade de auto-afirmação do Ego, e a constância de busca de prazer nas emoções promovidas pelos cartões de crédito e as imagens publicitárias.

A necessidade da tribalização afetiva nas redes sociais exerce no indivíduo uma busca pelo espetáculo dionisíaco dos finais de semana, das férias ou do lazer de fim de tarde. As sensibilidades afetivas, como expressa Lipovetisky (2007), expõe o desejo do indivíduo a partir de um espetáculo de luxúria, fazendo com que a individuação seja mascarada com essa felicidade paradoxal expressa no lazer desses microgrupos. As cidades, que antes eram organizadas em favorecimento política e a produção
econômica, hoje passam a ser organizada, decorada e customizada para o espetáculo do consumo. Tudo vira um espaço onde se possa consumir lazer, moda, etc. Sendo assim, a cidade, passa a ser, também um cenário que transborda felicidade, e esbanja lazer, fazendo com que inconscientemente haja uma negação da labuta; de dia sou operário, de noite sou hedônico.

“Nos muros da cidade, exibem-se a felicidade ao alcance das mãos e as imagens do sex-appeal. A moda sensualiza os corpos e rostos. As imagens publicitárias das praias e das festas destilam sonhos e desejos. É toda a vida cotidiana que vibra de hinos aos divertimentos aos prazeres do corpo e dos sentidos. Sedução publicitária, cidade ludicizada, febre dos lazeres, mania de férias, traços que, evidentemente, acenam a felicidade dionisíaca, a seu universo marcado pela abundância e pelos prazeres, a despreocupação e a ausência do trabalho.” (LIPOVETISKY, 2007. P.210-211)

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