quarta-feira, 2 de maio de 2012

MINHA MÃE COM ALZHEIMER

Por Dann Toledo


Faz algum tempo que sinto a necessidade de escrever com um maior comprometimento para o blog, porém, não achava um tema específico.

Aventurei-me sem muita emoção pelas bandas da esquizoanálise, mas confesso que essa definitivamente não é a minha área. Sendo assim, sentia-me em falta com os outros colunistas, com o blog e principalmente comigo mesmo. Todavia mais uma vez, venho confessar que ainda não encontrei O assunto que faça meus olhos brilharem. Porém, hoje, ao vivenciar uma situação - que mais tarde discorrerei sobre ela - senti a necessidade de começar a escrever sobre.

Pois bem, vamos lá.

Há pouco mais de um ano, minha avó veio a falecer. Viveu até seus 89 anos, e simplesmente foi apagando. Ela que sempre foi uma pessoa forte, com um raciocínio rápido e ótima resposta cognitiva, sofreu muito em seus últimos anos, por causa do Mal de Alzheimer.

Segundo a Wikipedia:

O Mal de Alzheimer, Doença de Alzheimer (DA) ou simplesmente Alzheimer é uma doença degenerativa atualmente incurável mas que possui tratamento. O tratamento permite melhorar a saúde, retardar o declínio cognitivo, tratar os sintomas, controlar as alterações de comportamento e proporcionar conforto e qualidade de vida ao idoso e sua família. Foi descrita, pela primeira vez, em 1906, pelo psiquiatra alemão Alois Alzheimer, de quem herdou o nome. É a principal causa de demência em pessoas com mais de 60 anos no Brasil e em Portugal, sendo cerca de duas vezes mais comum que a demência vascular, sendo que em 15% dos casos ocorrem simultaneamente. Atinge 1% dos idosos entre 65 e 70 anos mas sua prevalência aumenta exponencialmente com os anos sendo de 6% aos 70, 30% aos 80 anos e mais de 60% depois dos 90 anos.

Lembro-me mesmo muito novo, de uma conversa que tive com ela alguns anos antes de sua morte onde ela me relatava como se sentia;

"...É como se viesse uma borracha e apagasse tudo o que tem aqui dentro [mostrando a cabeça]!
Em um momento eu sei quem eu sou e quem é você, no outro, simplesmente tudo se vai; Não sei onde estou, quem sou eu e o que estou fazendo aqui..."

Os sintomas que minha avó apresentava, foram aumentando dia após dia, e mesmo com todos os esforços que meus tios fizeram, ela foi aos poucos esquecendo-se de tudo, esquecendo-se de quem era. Seu humor sofria uma constante mudança e muitas vezes nós, mesmo com toda a informação, não sabiamos como lidar com a situação.

Por diversas vezes lembro de meus tios e de mim mesmo discutindo com ela, durante os estágios primários da doença, pois minha avó estava mais teimosa do que já era. Toda essa situação gerou em nossa família um desgaste, e fez com que aos poucos os cuidados dela fossem postos ao encargo de uma tia minha que por uma feliz ou infelicidade é enfermeira.

Ao lerem isso, vocês podem até achar minhas palavras um tanto quanto rudes, porém sei que muitos aqui pensam a mesma coisa, e assim como eu, flagelam-se e repreendem-se por pensarem assim. Tivemos (os outros filhos e netos) a sorte de termos minha tia que é enfermeira, que tomou as rédeas da situação e com muitos erros e acertos, cuidou de minha avó até o fim da sua vida.

O restante da família reservou o dever/direito de manter visitas sociais a minha avó, coisa que aos poucos alguns deixaram de fazer. Sei que essa postura é quase que desumana, mas as coisas tenderam a acontecer assim.

No fim de sua vida, minha avó passou alguns dias na UTI de um hospital de minha cidade, o que fez com que a família adotasse uma postura mais preocupada, e de uma certa forma proporcionou à nós uma espécie de união. Ao final de dez dias minha avó, veio a falecer, e um ciclo foi encerrado, de uma maneira triste, porém, as coisas pareciam ter acabado.


O ALEMÃO VOLTOU

Ao olhar os filhos da minha avó hoje, eu começo a identificar neles, alguns desses primeiros sintomas do DA, e isso faz com que eu venha a pensar; "Será que vamos agir com eles, da mesma forma como agiram com minha avó?".

Tudo tem começado a se repetir, e cada vez mais próximo. Minha mãe está começando a apresentar alguns desses sintomas! Mesmo com toda a informação e com toda a vontade, eu temo que assim como eles fizeram com minha avó, meus primos e eu, venhamos a fazer o mesmo com eles. Não estou falando aqui sobre aqui se faz, aqui se paga, mas sim, sobre algo que pode sim ocorrer, talvez por medo, falta de capacidade, ou simplesmente por não querermos vivenciar novamente a experiência que já tivemos.

Temo por nós, temos por eles, temo por todas essas pessoas que passam por isso. O que parecia distante, tem a cada dia se aproximado, e eu me pergunto; "Como agirei quando esse momento chegar?" ou "Será que terei a capacidade e paciência para passar por isso?". Esse texto então torna-se pra mim uma válvula de escape, onde coloco o que estou pensando, não como profissional ou estudante de psicologia, mas sim como homem. Como filho!

Sei que não será nem um pouco fácil, e sei que meu conhecimento poderá ajudar nessa situação, sei também, que se para mim e meus primos, as coisas não serão fáceis, para meus tios e mãe, elas serão assustadoras.

Estarei escrevendo mais sobre essas experiências e espero que possamos nos ajudar em relação a tudo isso!

Muito Obrigado!

Dann Toledo


7 comentários:

  1. Qual a idade de sua mãe e quais os sintomas apresentados por ela hoje? E o que pode ser feito para retardar esse processo? se é que pode ser feito alguma coisa?

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  2. Ao ler a história da sua avó parecia estar lendo uma história vivida por mim até bem pouco tempo. Minha avó também foi diagnosticada com demência de Alzheimer, e à medida que a doença progredia a maior parte da família afastava-se, e ao final restaram poucos cuidadores assíduos, mas que valeram por todos os outros, e eu pude acompanhar bem de perto toda a trajetória da doença da minha avó, que teve fim a exatamente um ano. Acredito que seu conhecimento de psicologia lhe ajudará nessa nova empreitada e espero que não se exima dessa responsabilidade, como pessoa e como futuro profissional.

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  3. Acompanharei seus posts, Dann Toledo e espero que tudo ocorra da forma mais tranquila que for possível.

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  4. Esse post não só é emocionamte,mas é esclarecedor. Conheço amigos que têm ou tiveram parentes com alzheimer. Obrigada por compartilhar esse momento tão delicado conosco. Sua mãe apesar da triste situação tem sorte de ter um filho como você, pois muitas famílias passaram ou passarão por isso sem a tranquilidade que você passa. Fique com Deus e força!!!

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  5. Sei bem o quanto essa situação é difícil. Minha avó sofre de Alzheimer que se agravou bastante rápido após o falecimento do meu avô. É muito triste ver quem você ama passando por isso. Mas, precisamos ter força pra estar junto nessa hora, cuidar e fazer o máximo possível pra minimizar o sofrimento de quem amamos. Que Deus nos ajude e nos dê FORÇA!!

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  6. Sinto na pele tudo o que você descreve/narra. Minha mãe tem DA e é muito difícil pra mim ficar ao lado dela. Me sinto no meio de conflitos muito dolorosos, ver minha mãe partir trazendo traços de personalidade tão difícies de lidar e que, muitas vezes me afastam mais ainda dela... é muito difícil. Muitas vezes olho para o futuro, para aquilo que os médicos chamam de prognóstico da doença e estremeço. A DA é a doença do medo, ao menos para mim, pois é a perda de si mesmo, algo amedrontador que muitas vezes me toma e me tira a paz. Não desejo desistir de minha mãe, mas não sei até onde vão minhas forças, essa é uma doença que afeta a família como um todo... muito doloroso, tudo isso. Coragem à mim, meus irmãos e a todos os familiares das pessoas que sofrem essa doença, é o que peço!!!

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    1. Meu amigo(a) sinto a mesma angústia. Além de tudo, você não faz mais nada com a consciência tranquila, ao tentar se divertir você se pune por não estar buscando o melhor para a mãe. Mts conflitos. Força para todos.

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