sexta-feira, 18 de maio de 2012

MEU PEQUENO FRANKENSTEIN KAFKADÉLICO

Por Leonardo Cappi Manzini


A seguir são apresentadas quatro cenas, quatro fragmentos, quatro textos, se é que se pode assim chamá-los, que em si não conduzem necessariamente a uma única peça monográfica, a um único texto. Talvez dispersem em outros muitos até que o leitor chegue a convergi-los, se é que seja possível. Independentemente eles podem conectar-se a outros textos que estejam já nas praias do próprio leitor, sob seus anseios, sob seus domínios e possibilidades. A síntese, quiçá, inacabada, possa relampejar como uma breve imagem convexa ou pairar por alguns minutos como uma fresta de sol na parede da sala e assim logo escapar-nos novamente, e mesmo que retorne amanhã, outra fresta, prenhe de outros sentidos, de outras significâncias estará a iluminar outras salas, porões, chãos, paredes. O leitor faz do texto o que quiser, ou deixe que o texto faça dele aquilo que permitir que o texto faça. Eles se conectam, mas não em todas as partes, nas suas grandezas e pequeninices, por decidi mantê-los separadamente, pois adquiriram vida própria, são errantes, criam pernas e braços, se metamorfoseiam, aqui e ali, transbordam a sim mesmos, derramam, esparramam, de repente somem, perdem fôlego, como ondas no mar, se quebram e voltam ao corpo oceânico. Ao final, uma experiência esquizodidática, um gesto, um devaneio, uma articulação, umas descontinuidades.


CENA 1

O sujeito é tomado pela psicanálise diante de sua condição de desamparo ou da posição do desamparo (Birman, 2007).  Encontra-se diante da pressão constante das forças pulsionais, o sujeito seria tomado pela produção de um “excesso”, momentos resultantes dessa economia libidinal. Momentos que se sucedem em movimentos entre minimizações e maximizações de forças que produzem certas territórializações, campos de enfrentamento e satisfação, campos de negociações e trocas desejantes onde não se sabe, depois de certa profundidade quem é o produto, o produtor e o negociado. Um certo lugar onde se sustenta o segredo e a diluição das forças atuantes, seus objetivos, suas finalidades, seus destinos, suas dispersões.

O sujeito psicanalítico é tomado a partir da discussão, pelo menos aqui, entre as duas teses centrais na proposta Freudiana do sujeito e da subjetivação individual. Isto é, o estudo dos estimulantes ou estados mentais naturais precursores da subjetivação individual, onde dados fisiológicos e simbólicos aparecem intrinsecamente interligados. São elas a da sexualidade e a do desamparo humano. A primeira, vale lembrar, o sujeito é entendido a partir de sua história libidinal movido pela demanda de prazer onde a subjetividade é tomada como fruto dos traços libidinais e regras culturais, onde a cultura é tomada  apenas como o contexto organizador da exteriorização sexual. Já a segunda acepção sobre o sujeito toma o desamparo ao invés da sexualidade como estado de base orgânico/mental da subjetivação individual, onde o sujeito é exposto permanentemente a demandas para as quais não possui respostas naturais eficientes, onde é tomado por sentimentos de desproteção e desamparo existencial. Por outro lado, o que impulsiona-o pela vida em busca de  apoio e segurança (Ferraz, 1996).Constituindo-se no campo do desejo e da falta Essa distinção é tomada também como a diferenciação entre as perspectivas antropológica e mentalista sobre o status do sujeito na teorização Freudiana da subjetividade. Cabe mencionar que na primeira a cultura é tomada como produto e na segunda como ambiente genérico e periférico da subjetivação.

Em uma perspectiva otimista, pode-se dizer, Rubem Alves toma de empréstimo o desamparo do sujeito psicanalítico em uma de suas reflexões sobre a escola e a infância. Diz ele “Diz à psicanálise que o projeto inconsciente do ego, o impulso que vai empurrando a gente pela vida afora, esta infelicidade e insatisfação indefinível que nos faz lutar para ver se, depois, num momento futuro, a gente volta a rir. Que este projeto inconsciente é a recuperação de uma experiência infantil de prazer, redescobrir a vida como brinquedo.” Parece ter descrito de forma tocante os destinos possíveis do empreendimento psíquico de alguém que toma as rédeas da própria vida, tomada como uma experiência ético-estética com o mundo.


CENA 2

Mas voltemos às incertezas, ao campo do inesperado que flerta com as possibilidades em um caleidoscópico social efêmero e sedutor, hora preenchendo as diferentes matizes e cenários para esse órfão desamparado que busca na exterioridade os princípios de sua interioridade, tendo a transitoriedade e provisóriedade como  fluidez de seu exercício subjetivacional. Extraindo singularidade-singularizações dos lugares, funções e papeis sociais, que no exercício de suas narrativas e significações comercializam os significantes investidos de amor, identificação, desejos, esconderijos, silenciamentos e ressonâncias, descobrindo os buracos pra se agarrar. Bicho geográfico e antropofágico que dilui e atravessa a teia do poder, que ao fazê-lo sofre, faz sofrer, goza. Uma geografia menor, outra geografia maior. Busca-se olhando para fora o que corresponda a algo do dentro. Os dentros estão La fora, partes, acessórios, agregados, signos, identidades, algo que o torne enunciável, que seja marcado por uma discursividade, que automaticamente re-posiciona o sujeito dentro de uma discursividade do poder, que autoriza/desautoriza, incorpora/exclui, tipifica e valora dentro de uma rede de significações infinitas investidas de poder.

Utilizando o enfoque e as contribuições de Bleger (1984) que possui em Freud sua sustentação parte-se da idéia de que “os grupos e os sistemas sociais também constituem “partes das personalidades dos indivíduos e, às vezes, toda a personalidade que eles possuem”. E ainda de que a personalidade é estruturada pela dinâmica entre um ego organizado e um ego sincrético, postulando assim a existência de uma comunicação grupal como derivada dessa estruturação. (Guirado, 2004) Com isso podemos inferir, mesmo que arbitrariamente, por enquanto, que o grupo, enquanto espaço intersubjetivacional implementa sua estruturação do indivíduo, agenciando suas vicissitudes pulsionais, as forças inconscientes. A respeito, na atualidade vive-se sob a égide de formações identitárias e grupais cujo aspectos revelam no limite a necessidade extrema com que as pessoas tomam os grupos como fontes únicas, restantes, para grudarem-se, com toda viscosidade e simbiose exigida afim de possuírem alguma identidade, alguma indiferenciação/diferenciação. Por outro lado, há uma prevalência também quanto  às formas de laços, marcadas por traços perversos, ou senão pelo registro da perversão simplesmente, são aqueles grupos onde nunca se obteve qualquer relação simbiótica, sendo o grupo tomado apenas como subsidiário provisório e momentâneo, sobressaindo apenas como objeto de gozo próprio. (Bleger, 1984, Guirado, 2004, Reis, 2009).Talvez aí resida o ponto de perversidade que marca as relações contemporâneas, onde  a sustentação dos laços é frágil e superficial, onde o simbólico é apenas uma tatuagem Foracluída no corpo dos sujeitos.

 
CENA 3

Em algum momento, mesmo aquele sujeito que separou bem sua existência consciente, operando a partir de seu sintoma com um acordo pulsional com as forças que persistem nas camadas inferiores * (mera termologia topológica para fins de entendimento) vai ter suas certezas vaciladas, seus guardiões se retirarão para seu temor e horror, será ele inundado pela enxurrada irrefreável de uma angústia lancinante que colocará o acordo sob suspeita. Pois, a angustia sucede na própria via dos acertos de contas com o acordo e o desejo. Ela mesma fruto das paixões e dos medos.

Angústia produto do desejar. O acordo se quebra, pois implica o eu na decisão antes sustentada pelo acordado. O equivocar-se das crenças, certezas, ambições. Quando essas, pouco interessam ou são acolhidas pelo(s) outro(s), vive-se experiências dilacerantes, esvaziantes, despressurizantes, praga de vazios, verdadeiros ralos abertos, nada se sustenta nada para de flutuar, escoar buraco abaixo. Por isso o sujeito é efeito de momentos de constantes negociações que se sustentam com certo nível de regularidades e flutuações. O ego fazendo seu papel de equilíbrio entre as forças internas e externas.

O acima exposto também pode ser pensado na esfera coletiva como vimos, o desmoronamento de um acordo coletivo na individualidade como o sentimento que acometeu a Coréia do Norte com a morte de seu déspota. Ao contrário de um desmoronamento, a ascensão das forças destrutivas no caso do Nazismo de Adolf Hitler e sua mobilização política transferêncial simbiotizante com o povo alemão, dando condições de emergência ao fenômeno de massa que tão bem conhecemos seus resultados e desfechos. No entanto, vale lembrar que, há um efeito de produto na emergência do nazismo alemão, como efeito excêntrico de uma possibilidade do homem obter o total controle sobre a natureza, veiculadas pelos restos agonizantes do iluminismo tardio que tão bem produziu suas bestas vociferantes e totalitárias até meados do século XX.

Mas com relação ao fenômeno em si, no caso do exemplo Norte Coreano, a população perde a certeza do olhar de seu Algoz tirano que com seus absurdos meios articulava uma política pulsional, dando-lhes um sentido, uma fantasmagoria, dava-lhes um campo de objetos de satisfação e de in-satisfação, a constituição de um circuito de simbolização das forças pulsionais representantes-representação, Assim era tomado, testemunhando e avalizando a matilha de acordos infames e inadiáveis. Processualidades semelhantes aconteceram no Nazismo, no Terrorismo, na Contra-Cultura, no Stalinismo, no Capitalismo Tardio, nas ditaduras militares sul-americanas e nas crises simbólicas/ institucionais do contemporâneo. Assim como em proporções grupais menores, locais, micro-geográficas, moleculares.


CENA 4

A hipnótica (des)programação capitalista (des)subjetivante ou simplesmente sua política de subjetivação, parece seguir a mesma lógica. Ninguém sabe ninguém percebe ninguém se dá conta. Mas a televisão, sua programação, seus filmes, seus assuntos, suas cores, sua música, seu repertório, sua comercialização simbólica, os sentidos prontos, seus enredos, suas tramas invadem o telespectador que desliza para um amortecer confortável, uma suspensão e uma agradável sensação de plenitude, segurança, conforto, controle, simbiose?Ora, ao oferecerem territórios já prontos para as subjetividades fragilizadas por desterritorialização, tais imagens tendem a sedar seu desassossego, contribuindo assim para a surdez de seu corpo vibrátil e, portanto, a uma invulnerabilidade aos afetos de seu tempo que aí se apresentam” (Rolnik, 2011).

Um filme hollywoodiano de qualquer gênero e veiculação, quantos prazeres suscitam? Quantas coisas morrem e deixam de se tornar por só existirem agora num filme, isso é coisa de filme só acontece nos filmes! E a vida é um filme! É um filme ela não poder ser filme! Hipnose. __ “Sofremos uma hipnose! Programaram nossos pais, e nos programaram, não ha vida fora da programação, desaprendemos a respirar fora dela, não existiríamos lá! Não saberíamos quem somos fora da matrix.” Não é a toa que o valor ético-estético capitalista é o conforto, não é a toa que foi ele, algo supérfluo capaz de unir gregos, anglo-saxões, xiitas, árabes e fascistas. Em certo sentido desfez em partes tais registros identitários que lutam em seus momentos finais de asfixia e corrosão. Os antigos totalitarismos cedem espaço a algo ainda incerto, não enunciado, ou simplesmente agenciadores de enunciação capitalísticas. O que uniu o mundo não foi o necessário e sim o supérfluo (Lipovétsky 2009). Por outro lado é uma união a partir da fragmentação.

 Suely Rolnik, quanto a tal política de subjetivação, destaca ainda:

O cenário de nossos tempos é outro: não estamos mais sob regime identitário, a política de subjetivação já não é a mesma. Dispomos todos de uma subjetividade flexível e processual tal como foi instaurada por aqueles movimentos – e nossa força de criação em sua liberdade experimental não só é bem percebida e acolhida, mas é inclusive insuflada, celebrada e freqüentemente glamourizada. Mas há nisso tudo um “porém”, nem um pouco negligenciável: hoje, o destino mais comum desta flexibilidade subjetiva e da liberdade de criação que a acompanha não é a invenção de formas de expressividade movida por uma escuta das sensações que assinalam os efeitos da existência do outro em nosso corpo vibrátil. O que nos guia na criação de territórios em nossa flexibilidade pós-fordista é uma identificação quase hipnótica com as imagens de mundo veiculadas pela publicidade e pela cultura de massa.


Um poder generalizado, dês-centrado, difuso, imagético parece ter sucedido as formas totalitárias de dominação e subjetivação, onde num há líderes, deuses, mitos, instituições, mas simplesmente performance, desempenho, movimento, fluxo, velocidade, sob os auspícios da mercantilização do desejo, das subjetividades, do entretenimento. Se há uma cultura de massa, a massa desconhece, a aparente liberdade individual hedônica parece valer o preço. A cultura de massa possui no seu estoque um reservatório transgeracional que se encontra à margem e a espera de sua incorporação, esperando poder consumi-la e proliferá-la. Em outras palavras é a massa de miseráveis de capital e de direitos, os que esperam ser capitalizáveis, os que esperam e desejam simplesmente adentrar em um supermercado e  escolher um produto por sua performance e não só pelo preço, pois o preço indica classe, e  classe indica qualidade, acesso, vantagens. Tudo isso, paradoxalmente parece muito sutil e ao mesmo tempo tão evidente para alguns. A todo o momento as imagens de mundo veiculadas fomentam tais distinções, criando desejo, instaurando falta, indicando maneiras de (di) simulação e agenciamentos subjetivacionais capitalísticos. Pois parece não existir nada interessante na interioridade esvaziada, tudo que se pode ter e ser esta do lado de fora, dentro, só resta à miséria que nos lembra que ainda somos humanos, numa estranha inversão esvaziada da crítica à interioridade subjetiva essencialista, naturalizada e ou metafísica. Dentro só resta o biológico, e mesmo esse, transformado há tempos em mercadoria, em produto, em valor agregado, isto é, inserido em uma discursividade contábil, mercadológica e publicitária.


“Pela condição de funcionamento mental estabelecida o sujeito perde sua autonomia e, por conseqüência de um ego debilitado, não tem forças para realizar o trabalho de reflexão em que está envolvida toda sua existência, pois “as variáveis de personalidade mais relevantes na determinação da objetividade e racionalidade da ideologia são as pertencentes ao Ego, a parte da personalidade que avalia a realidade, integra as demais instâncias, e opera da forma mais consciente. É o ego que percebe as forças não racionais que atuam na personalidade, e se responsabiliza por elas” (Adorno; Horkheimer, apud Rouanet, 1983:170).


González Rey (2007) enfatiza que a singularidade sofre um processo de deterioração em virtude da tendência universalista de padronizar e quantificar os componentes psíquicos, reduzindo-os “a categorias analíticas suscetíveis de medição”.  Com isso diminuíram-se as possibilidades de compreensão dos sistemas psíquicos na sua diversidade e complexidade. É a emergência da produção científica de um novo sujeito, cujos componentes são convertidos em competências e habilidades. Várias disciplinas científicas estão comprometidas com tal projeto, inclusive algumas psicologias, onde a tarefa é descobrir e treinar os aspectos necessários para a utilização do Homem “Clean”. A subjetividade deve ser minuciosamente metrificada, tendo todas suas vicissitudes corrigidas por um processo ortocognitivo. O sujeito deve escolher seu pacote de super-poderes, maximizar sua performance, minimizar seu déficit, e  fazer o “Input” de programas complementares, escaneando-se e atualizando-se sempre. É o surgimento de uma política anatômico-cognitiva que esta prestes a parir um novo ser, por enquanto muitos testes, dados, protótipos, psicólogos e instauração infra-estruturais.

Quanto à psicologia, concorda-se com Freud (1987b: 61 quando assinala que “um psicólogo que não se ilude sobre a dificuldade de descobrir a própria orientação neste mundo, efetua um esforço para avaliar o desenvolvimento do homem, à luz da pequena porção de conhecimentos que obteve através de um estudo dos processos mentais de indivíduos durante seu desenvolvimento de criança a adulto”


CENA Metafórica- ilustração esquizodidática pinturatextopoética.

Palavras-imagens que ilustram os processos inconscientes, sua ambiência, fluxos, vicissitudes. Um mundo Boscheano e Dalinesco animado e em movimento, fazendo algo de seu subterrâneo. Tudo resta em algum lugar de algum jeito, de todo esse lixo do cotidiano, descompactação de arquivos, pulverização, despixelização. Onde as idéias morrem e pensamentos se esvaem, onde as palavras nem nasceram, cedo demais para o som, espaço de outras ressonâncias, profundidades de outros sonares.” É assim, com a lanterna espreito as regiões alagadas, movediças, estados de pura transição, com múltiplos tempos larvais e ancestrais.


A Desintegração da Persistência da Memória – 1952 (salvador dali)



“Um comércio de fantasmas, escambo de segredos, cenas, esquecimentos, uma ecologia feita de barganhas e negociações. Uma multidão de idiomas em um milhão de bocas e lábios, ele adora lábios e dobras, orifícios e líquidos, ele adora ritmo e inércia.

Mil engenhos de sonhos moendo, esmagando, triturando, extraindo, destilarias de dor, fornalhas de desejos, o estranho mundo de dentro onde as cortinas nunca fecham, onde o show nunca acaba e o baile nunca termina. 


Metamorfose de Narciso - 1937



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