sábado, 5 de maio de 2012

CONTOS DE FADA E O SEU DESTINO


Por Julia Rohr


Os contos de fadas não foram criados para serem histórias infantis. Originalmente eram histórias contadas em círculos sociais adultos como formas de entretenimento e, assim, possuíam doses de elementos sexuais e de violência, como adultério, incesto, voyeurismo, exibicionismo, canibalismo ou estupro. Pode-se pensar que essas histórias, como as fábulas voltadas para crianças, tentavam mostrar originalmente as consequências dos diferentes comportamentos, os bons e os maus. Porém, muitas das histórias não apresentavam sequer alguma veia de moralidade. Então, durante boa parte da Idade Média, os contos de fadas eram bastante populares – em vários sentidos.

No final da idade média, as fadas aparecem nas histórias arturianas, na figura de Viviane e Morgana e ainda no romance francês Melusine, do século XIV, que contava a história de uma criatura feminina sedutora e originária das águas. A força maior dos contos nessa época, porém, estava nas histórias de amor romântico. Foi nessa época, por exemplo, que surgiram outras histórias como Tristão e Isolda e O Segredo de Áquila, histórias que possuem todos os elementos de contos de fadas, cujo tema principal é justamente a história de amor.

No Renascimento, as fadas apareceriam novamente em diversas fontes, como na peça Sonho de uma noite de verão de Shakespeare e até mesmo em Romeu e Julieta do mesmo autor. Na primeira história, as fadas aparecem como seres da floresta onde os protagonistas estão. Na última, as fadas são citadas no prólogo da peça, como musas inspiradores. Em Os Lusíadas, Camões apresenta a  “Ilha dos Amores”, que seria um resgate da Ilha de Avalon ou da terra das fadas.

No século XVIII foi escrita a tradução para o frances de As mil e uma noites, uma coletânea de contos árabes, do oriente médio e do sul da Ásia, escritas e reunidas a partir do século IX. Devido à popularidade dos contos de fadas na Europa, esses contos orientais foram muito aceitos, principalmente porque eles apresentam vários elementos místicos e comuns aos contos de fadas europeus.

No século XVII, o escritor francês Charles Perrault reescreveu vários dos contos de fadas populares, acrescentando uma moral ao final, atribuindo a eles um valor pedagógico. Os contos de fadas passaram a ter, então, um direcionamento maior para as crianças. Então, muitos dos contos originais foram mudados e inclusive conhecemos a versão de Perrault para eles, não a forma como eram contatas nos círculos mais populares.

Foi Perrault que escreveu os “Contos da Mãe Gansa”, com a intenção de ajudar na formação moral das meninas. Essa mãe gansa seria uma figura folclórica que contava histórias para crianças e, devido a uma prática popular de mulheres que contavam histórias enquanto teciam, a tradição passou que ela seria uma mulher, não uma gansa. Em vários países, ela ganhou outros nomes, como Carocinha, a fiadeira. Inclusive, isso faz referência à figura da mitologia africana, Anansi: uma aranha fiadeira contadora de histórias. Nos Estados Unidos e Inglaterra, ela continuou sendo a “Mother Goose” e suas traduções ganharam rima. Alguns desses contos incluem: A Bela Adormecida, Chapeuzinho Vermelho, O Gato de Botas, A Gata Borralheira (cinderela) e O Pequeno Polegar.

No início do século XIX, os estudiosos Jacob e Wilhelm Grimm fizeram uma coletânea dos contos tradicionais alemães, na tentativa de encontrar nesses contos populares alguma raiz linguística relacionada à cultura. 
Eles recolheram mais de 100 contos voltados a crianças e adultos, mostrando versões diferentes dos mesmos contos de Perrault. Alguns deles são: A Bela e a Fera, e João e Maria. A grande diferença entre as versões dos Irmãos Grimm e de Perrault é que a dos Irmãos Grimm está muito mais próxima da versão original, sem as modificações morais de Perrault. O intuito deles era mostrar a evolução da linguagem através dos diferentes contos, então quanto mais original, melhor.

Ainda no século XIX, na dinamarca, Hans Christian Andersen escreveu mais de 200 contos infantis, parte retirado da cultura popular, parte de sua imaginacão, contribuindo com vários contos de fadas diferentes, como A Roupa Nova do Imperador, O Patinho Feio, A Pequena Sereia, A Princesa e a Ervilha e Os Sapatinhos Vermelhos.

No final do século XIX, as histórias abrem mão do sobrenatural e abraçam o absurdo. São histórias como Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll e Pinóquio, de Carlo Collodi. Este apresenta não só um boneco que quer ser gente que tem amigos animais e um grilo falante como consciência, mas a Fada Azul, capaz de conseder desejos. 

Na verdade em nivél manifesto, os contos de fadas ensinam pouco sobre as condições especifícas da vida em sociedade. Mas através deles pode-se aprender mais sobre os problemas interiores dos seres humanos e sobre as soluções corretas  para seus predicamentos em qualquer sociedade, do que com outro tipo de história dentro de uma comprenão infantil. Como a criança está exposta à sociedade em que vive, certamente aprenderá as condições que lhe são próprias, desde que seus recursos interiores o permitam.
Exatamente porque a vida é freqüentemente desconcertante para a criança, ela precisa ainda mais ter a possibilidade de se entender neste mundo complexo com o qual deve aprender a lidar. Para ser bem sucedida neste aspecto, a criança deve receber ajuda para que possa dar algum sentido coerente ao seu turbilhão de sentimentos. Necessita de idéias sobre a forma de colocar ordem na sua casa interior, e com base nisso ser capaz de criar ordem na sua vida. Necessita - e isto mal requer ênfase neste momento de nossa história - de uma educação moral que de modo sutil e implícito conduza-a às vantagens do comportamento moral, não através de conceitos éticos abstratos, mas daquilo que lhe parece tangivelmente correto, e portanto significativo.


A CRIANÇA ENCONTRA ESTE TIPO DE SIGNIFICADO NOS CONTOS DE FADAS.

Como muitas outras modernas percepções psicológicas, esta foi antecipada há muito tempo pelos poetas. 

O poeta alemão Schiller escreveu:

"Há maior significado profundo nos contos de fadas que me contaram na infância do que na verdade que a vida ensina"

Os contos de fada transmitem à criança de forma múltipla: que uma luta contra dificuldades graves na vida é inevitável, é parte intrínseca da existência humana mas que se a pessoa não se intimida mas se defronta de modo firme com as opressões inesperadas e muitas vezes injustas, ela dominará todos os obstáculos e, ao fim, emergirá vitoriosa. As histórias modernas escritas para crianças pequenas evitam estes problemas existenciais, embora eles sejam questões cruciais para todos nós. A criança necessita muito particularmente que lhe sejam dadas sugestões em forma simbólica sobre a forma como ela pode lidar com estas questões e crescer a salvo para a maturidade.

Um comentário:

  1. Maravilhoso seu texto!! Quais foram suas fontes de pesquisa??

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