terça-feira, 3 de abril de 2012

PSICOMOTRICIDADE PARA O PSICÓLOGO

Nos últimos anos, um número cada vez mais expressivo de psicólogos, em suas diversas áreas de atuação – clínica, educacional e organizacional, tem recorrido a uma técnica, uma abordagem chamada Psicomotricidade. A abordagem psicomotora propõe uma visão holística do homem, integrando as funções cognitivas, motoras e emocionais, pensando o homem em sua interação no contexto psicossocial.
Quando se fala nisso, precisamos entender importância que a Psicomotricidade assume no contexto da psicologia, para isso, ressaltamos o número significativo de crianças que chegam à clínica com queixas escolares, como, problemas de interação social e queixas de dificuldade de alfabetização.
Devemos levar em consideração a dinâmica familiar e o contexto onde a criança está inserida. Violência, medo, falta de tempo, tudo isso acarreta a perda do brincar na rua, excesso de atividades como inglês, computação, judô, futebol, a falta de tempo dos pais para estarem com seus filhos, para levá-los a um parque, por exemplo, constituem fortes características da infância. A tecnologia presente na vida da criança desde muito cedo também é um fator de destaque no contexto atual – computador, vídeo game. Todas essas situações restringem muito o brincar da criança que é a fonte de descobertas, de aprendizagem, não só em relação com si mesma, mas em interação com o grupo. A criança é capaz de passar horas sozinha, na frente do computador ou da televisão, mas não consegue brincar de pular corda. Pode se mostrar desajeitada ao tentar subir em uma árvore, porém irá ter uma habilidade fantástica ao manusear o controle do vídeo game. As atividades acabam sendo, em grande parte, solitárias e sem estimulação motora. A criança não corre mais, não percebe os movimentos que pode realizar, não domina seu próprio corpo, sentindo-se insegura em relação com o mundo.
Essa realidade irá repercutir no desenvolvimento emocional, cognitivo e social, restringindo possibilidades nas aquisições motoras que serão a base para muitas aprendizagens escolares.
Por exemplo, a criança que não tem o domínio corporal e que, portanto, não sabe com que lado desempenha as suas atividades com maior facilidade e desenvoltura, exercendo – indiscriminadamente – ora uma atividade com membro direito, ora com membro esquerdo, terá mais dificuldade para reconhecer as noções de esquerda e direita sendo essas noções importantes num processo de aprendizagem mais sistemática. Talvez essa criança não reconheça com facilidade a diferença do das letras p,b, q, d.
Toda criança se sente bem na medida em que seu corpo lhe obedece, que o conhece bem, que se sente segura e confiante ao se movimentar e ao agir. Como exemplo podemos citar a criança que consegue se vestir sozinha, que manuseia com facilidade os talheres à mesa é certamente uma criança mais realizada e satisfeita com suas conquistas, pode por isso ser mais valorizada e reconhecida pela escola, família e amigos, favorecendo a auto-estima e a auto-imagem positiva.
Ampliando essas questões podemos pensar no adulto que expressa no corpo o seu modo de ser. Mesmo à distância é possível identificarmos uma pessoa mais insegura ou aquela mais agressiva, assertiva, simplesmente pela maneira de se portar, andar, gesticular. O corpo é o berço de uma vivência emocional, e é justamente esse corpo um dos focos de estudo da Psicomotricidade. O quanto essas questões emocionais podem ser trabalhadas na medida em que haja uma intervenção corporal. Novas vivências emocionais dependem de uma nova relação com o próprio corpo.
Por fim, citamos o homem em seu contexto profissional. A Psicomotricidade com suas propostas de vivência em grupo procura estimular e favorecer a comunicação, o trabalho em equipe, o despertar para a liderança, na medida em que faz pensar e falar aquele que participa da proposta. Valores como participação, solidariedade, espírito de equipe, entre outros são trabalhados nas propostas psicomotoras.
Assim, a Psicomotricidade procura instrumentalizar o homem, não só a partir de sua vivência corporal, mas também da vivência sócio-emocional e cognitiva, para que este, mais realizado e satisfeito com suas conquistas, perceba-se em sua totalidade vivenciando sua existência de modo pleno.

Um comentário:

  1. O primeiro contato que tive com o conceito de psicomotricidade foi ao ler o estudo de caso clássico de Aucouturier e Lapierre com o menino Bruno. Ao meu entender a terapia psicomotora utiliza-se das contribuições da teoria psicanalítica, onde o sintoma do conflito inconsciente é expressado de forma direta na via motora. O trauma muitas vezes como bloqueador das pulsões que via de regra regulam a vivência do sujeito.

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