sábado, 7 de abril de 2012

O QUE É PSICOLOGIA EXISTENCIALISTA?



Por Juliana Alves Santiago

Este texto se fundamenta na tese de doutorado da psicóloga Dra. Daniela Schneider que apresenta novas perspectivas para a psicologia clínica a partir das contribuições de Sartre.

A Psicologia Existencialista é um método terapêutico desenvolvido por Jean Paul Sartre (1905-1980) e intelectuais que o sucederam como Laing, Cooper, Van Den Berg e Thomas Szazs. Vários são os livros de Sartre que elucidam a Psicologia existencialista: A Imaginação (Sartre,1936), A Transcendência do Ego (1937), Esboço de uma teoria das Emoções (1939), O Imaginário (1940), O Ser e o Nada (1943) e Crítica da Razão Dialética (1960). E através das biografias Baudelaire (1947), Saint Genet: autor mártir (1952), e O Idiota da Família: Gustave Flaubert, de 1821 a 1857 (971). Sartre aprofundou as possibilidades metodológicas de se conhecer concretamente a personalidade e as emoções, a partir de uma psicologia que se baseia na fenomenologia e na antropologia.

Em todas estas obras Sartre busca demonstrar as constatações feitas sobre a realidade humana, tais como de que o homem é aquele que faz e é feito pela história, constituindo seu projeto e desejo de ser, e que o homem é um ser no mundo, um ser temporal e histórico. Ou seja, Sartre constatou que a personalidade é resultante de um processo de construção dialética entre o sujeito, os outros e a materialidade de tal forma que a “existência precede a essência”.

A Psicologia Existencialista Sartreana considera a personalidade como a síntese dialética da relação entre o sujeito concreto e a materialidade, entre o indivíduo e a sociedade. A materialidade se define como a época histórica em que o sujeito vive, a classe social, a estrutura familiar, o local geográfico, ou seja, o sujeito vive em relação com os outros e as coisas num contexto material que possibilita um determinado clima antropológico.

O clima antropológico engloba desde a cultura, até o clima meteorológico, a biologia, a natureza, a diversidade material, as formas de relações de todos os dias, a economia, a política, a tecnologia, a religião, a filosofia, a ciência, a educação, a arte, a música, esporte, etc. Geralmente ela é confundida com a cultura, entretanto a cultura é uma fatia do contexto antropológico, assim como a economia (necessidade e escassez). A cultura são os costumes que resultam do clima antropológico, é por aonde o clima antropológico chega ao grupo sociológico familiar. O clima antropológico do Nordeste, por exemplo, é diferente do clima antropológico do Sul, e conseqüentemente a estrutura de escolha de ser do sujeito do Nordeste é diferente do sujeito do Sul. É a natureza levando o homem a um modo de viver e este modo de viver afetando o homem. A realidade antropológica gera conseqüências emocionais e possibilidades de se relacionar com a materialidade e com os outros, gerando, assim, um sistema de vida e a personalidade, a dinâmica de ser do sujeito.

Portanto, as condições de possibilidades de alguém se constituir sujeito estão nas suas relações concretas com suas redes de mediações inseridas no clima antropológico.

Desta forma, a Psicologia Existencialista se fundamenta no método progressivo regressivo que pressupõe que a verificação da realidade considere as situações singulares do sujeito inscritas no contexto universal, ao mesmo tempo em que considera o impacto das situações universais nas individualidades e grupos. Assim, compreende-se a psicopatologia a partir homem concreto, ou seja, a partir do núcleo da vida e da história concreta do sujeito, já que ela é uma perturbação psicofísica resultante do movimento do sujeito no mundo, na existência concreta do sujeito na relação com a materialidade e com os outros. Cada comportamento, gesto, emoção, estado, ação e pensamento do sujeito, implicam em um significado e um fim. Por isso, o objetivo da Psicologia Existencialista é decifrar o projeto e desejo de ser de cada indivíduo que define o que são e para onde se encaminham os diferentes movimentos de uma pessoa no mundo.

Tal objetivo é alcançado pela investigação dos fenômenos de sua vida de relações: episódios concretos constituídos por ocorrências materiais que se inter-relacionam. Isto porque o sujeito só pode ser compreendido levando em conta a sua história concreta que se dá por episódios, assim como levar em conta a sua conjuntura familiar e clima antropológico.

Todo acesso emocional é um conjunto articulados de ocorrências psicofísicas, empíricas características de um determinado padrão de psicopatologia: depressão, síndrome do pânico, esquizofrenia ou psicose. Verificando as ocorrências, identificamos a psicopatologia do paciente. Para tanto, é preciso inventariar o episódio sócio-antropológico – data, lugar, contexto, atores, materialidade, ação, enredo - em que ocorre o acesso emocional, verificando o conjunto e a sucessão das ocorrências empíricas e sua articulação e função no sujeito. Não é possível verificar o acesso emocional sem verificar o episódio em que ele ocorre, pois o acesso emocional é um processo (início, evolução e extinção) desencadeado por algo material e objetivo, atual na realidade que arma uma atmosfera.

Desta forma, todo acesso emocional ocorre numa dada atmosfera, ou seja, num dado futuro real e virtual que se impõe ao sujeito, cujas afetações emocionais são desdobramentos. Isto porque o gatilho material atual tem correlação material com gatilho ou ocorrência passada impondo a certeza de ser do indivíduo num futuro real agradável ou não, conforme o desejo e projeto ser do sujeito. A apropriação de tal episódio, que é pré-reflexiva, desdobra da experiência de ser do sujeito, de quem ele se sabe sendo no plano da percepção da realidade concreta atual com a qual ele se relaciona. Esta apropriação, que é decisiva para a psicopatologia, acontece conforme a possibilidade do sujeito caber, pertencer ou não no grupo e rede familiar sendo quem é e fazendo o que faz. Assim, a complicação psicológica depende do episódio sócio-antropológico, do clima antropológico, do grupo familiar e da apropriação.

Então, através do inventário de episódios sócio-antropológicos em que ocorrem os acessos emocionais o psicólogo realiza uma radiografia psicológica do sujeito, na medida em que translucida o que está acontecendo com o paciente e as raízes de sua problemática psicológica, cumprindo a tarefa da psicologia.

Para Sartre, a tarefa da Psicologia é esclarecer as condições de possibilidades para o sujeito chegar a ser quem ele é, isto é, esclarecer como o sujeito constituiu sua personalidade, sustentada num projeto de ser específico, explanando como foi que ele se complicou psicologicamente. Deve-se, então, primeiramente, investigar as variáveis que delimitam e interferem no fenômeno para ele ser o que é, para num segundo momento investigar suas determinantes, especificando em sua história, clima antropológico e sociológico – rede de relações e de mediações de ser- as condições de possibilidade para sua personalização e psicopatologização.

Tal processo científico deve sempre se iniciar do momento atual para depois esclarecê-lo em sua gênese. Primeiro se demarca o fenômeno, definindo a sintomatologia, o quadro psicopatológico, enfim, o psicodiagnóstico que definirá os rumos da intervenção. O segundo momento se caracteriza pela elaboração da problemática ou equacionamento do teorema em torno das complicações do paciente, investigando-se as variáveis constituintes da dinâmica psicológica do paciente e de seus impasses psicológicos de tal forma que ele se saiba sendo este ser específico em seus sistemas de certezas de ser. É preciso salientar que a personalização se dá numa relação dialética entre a objetividade e subjetividade, num clima antropológico no interior do sociológico.

Desta forma, o processo psicoterapêutico é planejado, definindo quais são os aspectos essenciais a serem trabalhados em uma intervenção clínica, assim como o modo que será realizado tal procedimento, a fim de viabilizar o ser do paciente, cuja alienação é superada, possibilitando ao paciente se tornar o sujeito de sua própria história conforme o seu desejo e projeto de ser.

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