sábado, 14 de abril de 2012

O INCONSCIENTE E O BULLYING

A AÇÃO DO INCONSCIENTE NA OCORRÊNCIA DO BULLYING ESCOLAR
Por Paula Aparecida dos Santos Rodrigues



 
Formas educativas de cunho hostil no âmbito familiar e o sentimento de inferioridade, do qual todo ser humano é possuidor, têm como consequências projeções inconscientes nas relações interpessoais. 

Quando negativa, na ocorrência de atos de humilhação com agressões físicas ou psíquicas, pode – se afirmar a ocorrência do Bullying. Os estudos sobre o Bullying escolar tiveram início na Suécia, na década de 70 e na Noruega, na década de 80.

Bullying é um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente, adotado por um ou mais alunos contra outro (s), causando dor, angústia e sofrimento. Insultos, intimidações, apelidos cruéis, gozações que magoam profundamente, acusações injustas, atuação de grupos que hostilizam, ridicularizam e infernizam a vida de outros alunos levando-os à exclusão, além de danos físicos, morais e materiais, são algumas das manifestações do "comportamento bullying" (Fante, 2005, p. 28 e 29).

Quando um indivíduo sente – se humilhado, alguém é responsável por tal sentimento devido alguma atitude negativa. Essa inferioridade, é integrante dos conteúdos inconscientes de nossa formação, que podem ser alterados ao longo de nossa existência, de acordo com as experiências vivenciadas.

Não que seja uma regra, mas a constituição de condutas e personalidade dos indivíduos, segundo a Psicologia, se dá desde as primeiras vivências. Estes podem inserir em seu cotidiano formas inconscientemente mais fáceis e inconseqüentes para atingir seus objetivos e próprios interesses, o que para muitos, é necessário colocar alguém em situação inferior, em nível de desvantagem, para que possam sentir o poder à partir da importância, não direcionando respeito nem mesmo preocupações com o emocional dos que participam de seu ciclo afetivo.

A criança ou o adolescente dos dias de hoje, lidam com a nova tecnologia, resultado da globalização e as novas formas de explicações sociológicas interferem no aspecto intelectual, mas também financeiro do indivíduo, isto é, o ambiente escolar torna – se cenário de exposição dos objetos de desejo atuais, sejam eles eletrônicos, as tão questionadas “pulseiras do sexo”, um ídolo famoso ou o dito respeito hierárquico diante dos colegas, por outros motivos.

Nessa transição de faixa etária existe o desejo de evidência em relação aos outros, que pode agir inconscientemente. Muitas vezes, as células familiares já disseminam uma essência de arrogância e desejo de poder no lar, exigindo da criança ou adolescente, posturas firmes e precoces que vão além de seu tempo, ou seja, exige a ausência de respeito ao se impor na escola, com um colega ou até mesmo professores, pode exigir defesa constante dessa moralidade exacerbada que foge da realidade desses indivíduos. Há um esquecimento dentro desse lar, que esses indivíduos necessitam de carinho e respeito, há uma necessidade nesse período, de explicações claras do certo e do errado, e a presença do amor é extremamente importante para que esses jovens sintam – se compreendidos.

É visto em entrevistas e pesquisas que o maior incômodo de crianças e adolescentes em relação aos seus responsáveis é a ausência da compreensão. Sim, é uma fase complexa e em muitos casos os pais estão corretos, mas o que acontece é que o lar onde o carinho é extinto e a compreensão de que cada idade tem seu tempo e suas limitações, é um grande candidato a formar um agressor que possui como arma social o bullying.

“Quando os pais/cuidadores protegem, preservam de incômodos ou perigos (…) estão construindo um espaço de proteção. (…) A ausência desse espaço é desabrigo, ataque, enfim, violência (…).” (PORTELLA, 2006, p. 81).

Como já citado, tal ação acontece devido projeções inconscientes das vivências de um lar com predicados negativos. Considerando que uma criança não tem capacidade de reflexão e análise para o entendimento de uma humilhação sofrida, causada por um adulto, que externa o seu próprio sentimento de inferioridade, podemos observar que a criança poderá levar muito tempo para uma reconstrução de personalidade.

Uma educação funcional é constituída de carinho e afeto, onde os responsáveis por essa criança ou esse adolescente, compreendam desde a sua idade até o meio em que o mesmo está inserido. Daí a importância do diálogo, da explicação clara do significado da palavra respeito, que deve ser inserido em todos os relacionamentos interpessoais, destacando a tolerância com possíveis diferenças que muitas vezes são objetos de preconceito como cor, sexo, gênero, situação financeira, religiões ou até mesmo os estilos, que hoje são muitos e diversificados, que podem ser os emos, sertanejos, rockeiros, pagodeiros, góticos e etc.

O indivíduo ao sofrer em seu cotidiano, ensinamentos que fazem com que o mesmo internalize, inconscientemente, insatisfações e sofrimentos que o reprimem, têm como conseqüência a dita projeção, que no caso do bullying acontece socialmente, de forma física ou psíquica. 

Em psicologia, projeção é um mecanismo de defesa no qual os atributos pessoais de determinado indivíduo, sejam pensamentos inaceitáveis ou indesejados, sejam emoções de qualquer espécie, são atribuídos a outra(s) pessoa(s). De acordo com Tavris Wade, a projeção psicológica ocorre quando os sentimentos ameaçados ou inaceitáveis de determinada pessoa são reprimidos e, então, projetados em alguém. (Wade, Tavris “Psychology” Sixth Edition Prentice Hall 2000 ISBN 0-321-04931-4)

Com essa projeção psicológica, reduz – se a ansiedade do indivíduo por permitir que a expressão dos impulsos inconscientes, indesejados ou não, fazendo com que o consciente não os reconheça. No caso da ação do bullying culpar determinada pessoa por um fracasso, evita o desconforto da admissão consciente da falta cometida, mantendo os sentimentos do inconsciente do agressor e projeta, assim, as falhas em outras pessoas, no caso a vítima.

Segundo Sigmund Freud, a projeção é um mecanismo de defesa psicológico em que determinada pessoa projeta seus próprios pensamentos, motivações, desejos e sentimentos indesejáveis numa ou mais pessoas.

A projeção se faz presente ao longo de nossa vida, nos relacionando com o mundo externo, onde, inconscientemente, percebemos algo do nosso eu em outra pessoa. Sendo inconsciente, externamos esse processo de forma positiva ou negativa, sem o controle do nosso ego, ou seja, não pontuamos o que, nem onde, iremos projetar tal sentimento.

Onde existe a relação interpessoal é normal a ocorrência de conflitos, considerando que o ser humano é imprevisível e está sujeito a situações de desejos inconscientes e conscientes de poder, evidência diante dos outros colegas ou até mesmo a crueldade propriamente dita.

A perversidade não provém de um problema psiquiátrico, mas de uma racionalidade fria combinada a uma incapacidade de considerar os outros como seres humanos. (Freitas, 2001: 13).

O agressor costuma demonstrar pouca empatia, com uma imagem de mais forte da turma, sentindo uma necessidade de dominar e subjugar os demais, impõe suas vontades, gostos e preferências, custando a adaptar-se ás regras, não aceita ser contrariado, é considerado pela turma como malvado, durão e tudo que, em sua visão agressiva resulte em uma evidência necessária, que o faz se sentir melhor em relação aos colegas. Com essa desigualdade imposta em seu meio, o agressor espalha comentários da vítima, recusando se socializar com a mesma e influenciando os demais colegas a fazer o mesmo.

O agressor possui rapidez em se enraivecer e usar a força, somando com comportamentos agressivos, o ato de encarar as ações de outros como hostis, a preocupação com a auto-imagem e o empenho em ações obsessivas ou rígidas. É freqüentemente sugerido que os comportamentos agressivos têm sua origem na infância, portanto, se os mesmos não forem burlados nesse período há o risco de que eles se tornem habituais, ou seja, o indivíduo será um constante agressor, onde o bullying pode existir na escola (infância e adolescência), na faculdade (juventude), evoluindo para que o agressor seja protagonista do assédio moral (forma evoluída do bullying) no ambiente de trabalho. O indivíduo se torna, então, uma pessoa de difícil temperamento, o que resulta em possível solidão em relação as suas relações interpessoais. Há evidências que apontam que a prática do bullying durante a infância situa a criança em risco de comportamento criminoso e violência doméstica na idade adulta, pois a citada solidão pode fazer com que o indivíduo entre em contato com o uso de drogas e bebidas alcoólicas, o que também pode desencadear uma personalidade suicída.

O bullying não se confunde com outras formas de violência, sendo claramente definido, principalmente pela característica de causar traumas psíquicos às vítimas de tal ato. Vai além do ambiente escolar, podendo estar presente, de forma evoluída, em prisões, exércitos e empresas.

A vítima não compreende a situação de forma clara, pois o agressor não oferece satisfação ou motivo, hostilizando, ignorando e ridicularizando a mesma. Na maioria das vezes a vítima se sente culpada pela agressão sofrida, podendo até se auto - inferiorizar, também, se desestabilizando emocionalmente.

No caso das mulheres a fragilidade se refle com momentos de pranto intenso e constante. A sensibilidade e a magoa podem resultar em ressentimentos complexos. Ao ver o agressor a vítima reage emocionalmente sofrendo palpitações, tremores e intenso medo.

Os homens reagem com sentimento de fúria e vingança. Evitam comentar o assunto por vergonha, se auto - definindo como desprezível e inútil, devido sua masculinidade estar ferida e sua dignidade afetada.

Em muitos casos, as consequências são extremas, e os homens podem entrar em contato com drogas, o que ocasiona, muitas vezes, a violência doméstica. Quando chegam à solidão, com a auto - estima em baixa, sentem – se fracassados.

Em ambos os casos, podem ocorrer irritações constantes, não acreditam mais em si mesmos, há um cansaço intenso e diminuição na capacidade de enfrentar o estresse existente. Iniciam – se, então, momentos conturbados com pesadelos ou até mesmo a insônia, dificuldade de concentração e memorização (a dita amnésia psicógena: diminuição na capacidade de recordar os acontecimentos), dificuldade no relacionamento interpessoal, bloqueando o surgimento de novas amizades, aumento ou diminuição de peso, devido o surgimento de distúrbios digestivos, hipertensão arterial, diminuição da libido, fortes dores de cabeça, e em alguns casos a ocorrência de ações fatais como o suicídio.

Outro personagem, que muitas vezes internaliza um intenso trauma é o espectador, que, presenciando a ação do bullying, reage inconscientemente, calando – se, temendo ser a próxima vítima do agressor.

Existe a possibilidade de ocorrer, também, uma resposta aos maus tratos sofridos na escola, isto é, a vítima do agressor, e até mesmo o espectador, pode externar o intenso trauma sofrido ou presenciado, tornando – se, também, um agressor. Isso acontece devido a exclusão sofrida que desperta o desejo de pertencer a um grupo, fazendo com que estes indivíduos traumatizados necessitem de uma auto – afirmação, se evidenciando no seu ciclo afetivo, tornando extinta a agressão vivenciada.

Em todos os casos está presente a inabilidade para expressão dos sentimentos íntimos, excluindo a humildade do cotidiano, não sabendo se colocar no lugar do colega para racionalizar as conseqüências dos seus atos agressores.

[...] estas situações estão associadas a uma série de comportamentos ou atitudes que se vão agravando e mantendo por toda a vida e que arrastam consigo conseqüências negativas, na maior parte dos casos de alguma gravidade, que estarão sempre presentes, influenciando todas as decisões, imagens, atitudes, comportamentos que a pessoa constrói em relação a si, aos outros, ao mundo e até a própria vida (Pereira, 2002, p.23).

A atenção com a rotina dos indivíduos, inseridos em um ambiente escolar, é de suma importância para que se estude de forma minuciosa a permanência de um bem estar afetivo e emocional aos mesmos. A conscientização dos responsáveis, membros da família desses estudantes, é essencial para que a compreensão e a disponibilidade de afeto seja funcional na educação desses indivíduos. Nos casos citados, de nível grave, já com a ocorrência do Bullying, é importante a intervenção psicológica, considerando a ação do inconsciente, pois, dessa forma torna – se possível uma melhor compreensão pessoal, ou seja, o auto – conhecimento, fazendo com que sejam superados traumas vivenciados na história de vida específica, trazendo para um cotidiano conturbado, uma melhor qualidade de vida, visando a socialização futura com uma essência respeitosa e satisfatória, intimamente.



BIBLIOGRAFIA:

FANTE, Cleonice Zonato. Fenômeno Bullying – Como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2ª edição. Campinas SP: Veros Editora, 2005.

INÁCIO, Sandra Regina da Luz. Bullying: A Síndrome da Humilhação.2008. Disponível em: <http://www.artigonal.com/auto-ajuda-artigos/bullying-a-sindrome-da-humilhacao-644664.html> Acesso em 27 de maio de 2010.

PORTELLA, Fabiane Ortiz. Família e Aprendizagem: uma relação necessária. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Wak, 2008.

WADE, Tavris. "Psicologia". 6ª Edição. Prentice Hall 2000.

ABRAMOVAY, Miriam. Cotidiano das escolas: entre violências. Brasília: UNESCO, 2006.

PEREIRA, Beatriz Oliveira. Para uma Escola sem violência: estudo e prevenção das práticas agressivas entre crianças. Edição: Fundação Calouste Gulbenkian, Porto, 2002.

4 comentários:

  1. Obrigada pela Oportunidade e Atenção!! Mto Sucesso ao Blog!!

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  2. Obrigada pessoal!! O sofrimento psíquico causado pela ocorrência do Bullying é mto danoso para a vida futura do indivíduo! Deve ser trabalho nas famílias e nas escolas com mta atenção e amparo!!

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