segunda-feira, 5 de março de 2012

POR QUE FREUD REJEITOU DEUS?

Esta foi a pergunta motivadora que levou Ana-Maria Rizzuto a empreender uma pesquisa sobre o assunto, com resultados muito interessantes, disponibilizados ao público no livro sob o mesmo título.

Rizzuto conta que a busca por resposta à pergunta “por que Freud rejeitou Deus” começou quando se preparava para fazer uma palestra para a qual foi convidada, durante a exposição “As antiguidades de Sigmund Freud: fragmentos de um passado esquecido”, promovido pelo Freud Museum de Londres em comemoração ao qüinquagésimo aniversário da morte de Freud, no período de 28 de fevereiro a 5 de abril de 1992. Ao aceitar o convite, Rizzuto decidiu olhar mais de perto as coleções de Freud e ficou impressionada com a seguinte constatação: as “similaridades entre os objetos reproduzidos no catálogo [da exposição] e as ilustrações da Bíblia” que pertencia a Freud, presenteada por seu pai. Essa bíblia de Freud “continha mais de 500 gravuras de animais, árvores, objetos e paisagens mencionados no texto” – tratava-se, na verdade, de três volumes. Rizzuto então afirma:

Diante de mim estavam centenas de ilustrações bíblicas. Os objetos em exposição representavam apenas pouco mais de três por cento da coleção de Freud. Isso tornava ainda mais surpreendente o fato de que tantos objetos na mostra evocassem as ilustrações bíblicas. (…) As ilustrações bíblicas devem ter influenciado Freud na escolha dos objetos e talvez até mesmo em sua paixão por colecionar” (p. 13).

A partir dessa observação intrigante, Rizzuto toma então como sua tarefa “apresentar uma explicação psicanalítica para as similaridades”. Assim,

Seguindo o método de investigação do próprio Freud, explorei as circunstâncias de seu colecionamento, o significado pessoal explícito dos objetos, seus prováveis motivos inconscientes e a satisfação consciente que os objetos proporcionavam ao seu proprietário (p. 13).

No percurso de sua investigação, a autora dá-se conta de que a tese freudiana de que a religião perpetua a ilusão infantil de estar protegido por um pai bondoso levou-o a uma busca de libertação desse anseio considerado, por ele, como infantil. Rizzuto descobre que Freud, quando criança, formara em sua mente uma certa representação de Deus que merecia ser pregado e louvado. A partir dessa observação, sua tarefa passou a ser, então, a de descobrir as mudanças intrapsíquicas que transformaram a imagem de Deus que ele possuía quando criança, “em sua denúncia adulta de Deus como um produtor de desejos infantis” (p. 14).

O processo investigatório de Ana-Maria Rizzuto traz-lhe surpresas inusitadas acerca da relação de Freud com a bíblia e com o seu pai. O livro descreve o curso de suas investigações e revela os resultados. Rizzuto mostra, assim, que foi a partir da relação construída com seu pai (de onde provém a idéia de Deus, segundo o próprio Freud) que torna-se impossível a Freud desenvolver uma relação com Deus. A Freud restava uma única escolha, segundo Rizzuto: a de “aceitar que estava sozinho, desprotegido, sem modelo, e que a evidente afeição de seus pais não podia ajudá-lo. (…) O único consolo para ele e para a raça humana era ser estoicamente auto-confiantes” (p. 252). Para Rizzuto,

a dor da pequena criança [de Freud quando criança] levou à insistência veemente em que todos devemos desistir de um Pai-Deus, incapaz de proporcionar qualquer proteção ou consolo. O sofrimento pessoal de Freud se tornara articulado em sua teoria sobre a religião para toda a humanidade. (…) Sua descrença desafiadora expressava a dimensão de sua integridade psíquica e também de sua coragem e de sua capacidade de sublimação: transformar o profundo sofrimento da criança e do adolescente numa nova ciência que abriu os horizontes inexplorados da mente humana. Deus fora substituído pela razão de Freud. O homem desprotegido criara sua própria autoproteção” (p. 252).

Freud generalizou sua experiência pessoal acreditando que esta deveria ser normativa. “Ao perder a perspectiva a respeito do seu próprio sofrimento pessoal, ficou cego para a ‘variedade das experiências religiosas’”, descrita tão bem por William James, seu contemporâneo.

Enfim, a autora concluiu que as experiências infantis de Freud não lhe proporcionaram as condições psíquicas para a crença em Deus. “Seu Deus pessoal não tinha confiabilidade, não merecia crença. Uma forte descrença era a única proteção contra a dor intensa causada pelos anseios não-satisfeitos da criança, do adolescente e do adulto” (p. 253).

Rizzuto pontua que Freud dominou seu sofrimento e sua raiva transformando-os em “obras-primas”. Em outras palavras, poderíamos dizer que ao invés de se configurar um narcisismo reativo em sua subjetividade, as forças ativas, de criação e de afirmação da vida foram as que predominaram. Entretanto, esse modo como sua subjetividade compôs as forças de narcisação “não deixa de revelar, de forma disfarçada e sublimada, sua premente necessidade de uma proteção não conseguida” (p. 253).

5 comentários:

  1. Há controvérsias, e os filhos que tiveram ampla proteção paterna,com atenção,cuidados e acesso á educação e que Adultos se declaram Ateus?

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  2. Engraçado como o fato de uma descrença incomoda tanto as pessoas. A maioria dos autores da Psicologia são Ateus como normalmente são os cientistas. Freud como muitos tem textos falando sobre este tema. Não é porque uma Psicanalista faz uma analise cheias de atribuições como normalmente são as analises, que todos sabemos que se passar na analise de 5 analistas serão 5 versões diferentes, que deve-se negar a teoria do Freud. Se fosse assim é só fazer uma analise com todos os cientistas para desmerecer suas teorias caso não lhe agrade, caso seja conflituosa com seus valores. Porque então ela não faz uma analise pra descobrir o porque Freud criou a teoria do Édipo, me poupe dessas analises.

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  3. Para mim a Psicologia não funciona misturada com a religião,principalmente a cristã que se acha a detentora da verdade absoluta.A psicologia é uma ciência,e como tal não pode se prender a religião pois essa tem a maior capacidade de fechar a mente das pessoas.Um pesquisador pode ser cristão,judeu, islâmico e etc...desde que na hora de suas pesquisas os dogmas de sua religião não o influenciem(por isso grande parte dos cientistas são ateus).Nota-se claramente que muitas matérias desse blog são altamente influenciadas pelo cristianismo.

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  4. Psicanálise, criando análises imaginativas por contra do próprio analista desde sempre :)
    Nem Freud escapa das atribuições! Haha.

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  5. É engraçado a perspectiva de ateus sobre a fé e a religião. Sempre os religiosos são os pequenos, tapados, mente fechada. É uma pena, porque tem que ter uma boa dose de fé para acreditar que D-us não existe e religiosos vêem ateus como carentes e não como ameaçadores.
    A prescrição cristã para lidar com ateus é ama-los e os ateus fazem o que com cristãos? A bíblia toda fala sobre a evolução do ser humano, sobre ter uma mente transformada, sobre ser um transformador, sobre o dom do conhecimento, enfim, chega a ser uma postura ignorante da fé e crença considerar religiosos como inferiores a ciência, sendo que na própria bíblia diz que D-us dá o dom de ciência.
    Um dia cientistas acreditaram que a Terra era quadrada e viveram por esse conceito mesmo tendo as escrituras bíblicas dizendo:"na redondeza da Terra..." Isaias 40:22.Mais tarde chegaram nesta conclusão por si mesmos e assim sempre acontece quando tem uma descoberta definitiva ou descobriram que a Terra tem outra forma com a evolução científica?
    Talvez o respeito as escrituras poderia beneficiar pesquisas científicas, assim, como a religião respeitar a ciência como sendo parte da sua fé, porque é isso na verdade, tudo caminharia com mais fluidez.
    Amei as observações do colega Bucher mais acima, dizendo que Freud não rejeitou a D-us, mas desprezou durante boa parte da vida.É o que dá mais a entender avaliando o contexto de sua obra.

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