quinta-feira, 1 de março de 2012

PEDOFILIA E ABUSO SEXUAL

A MAIORIA DOS CASOS FICA IMPUNE



A prisão do médico Antônio Claret Lima em 2007, acusado de molestar crianças, põe luz sobre um problema que ocorre com maior freqüência do que se imagina. O abuso sexual infantil é considerado pela Organização Mundial da Saúde como um dos maiores problemas de saúde pública, devido aos altos índices de incidência e às sérias conseqüências para o desenvolvimento cognitivo, afetivo e social da vítima e de sua família. No caso de Goiânia, a Polícia Civil gravou em dois meses mais de 3,7 mil ligações telefônicas que trazem relatos contundentes da ação criminosa. “São diálogos impublicáveis, repletos de palavras chulas e que descrevem como o grupo agia. É deprimente”, resume a delegada Adriana Accorsi, da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente.

Estudos realizados em diferentes partes do mundo sugerem que o percentual de crianças e adolescentes que sofrem algum tipo de abuso sexual varia de 3% a 36%. Muitas crianças não revelam o abuso, somente conseguindo falar sobre ele na idade adulta. As estatísticas, portanto, não são dados absolutos. Geralmente o crime é encoberto por um “muro de silêncio” do qual fazem parte os familiares, vizinhos e, algumas vezes, os próprios profissionais que atendem as crianças vítimas de violência.

Estudo realizado nos EUA com 935 pessoas revelou que 32,3% das mulheres e 14,2% dos homens tiveram abuso sexual na infância. Dados da Polícia Civil do Rio Grande do Sul apontam que, em 2002 e 2003, 3.163 crianças foram vítimas de violência; destas, 2.038 (64%) foram vítimas de violência sexual. De janeiro a julho de 2004, de 525 crianças vítimas de violência, 333 ou 63,43% estavam relacionadas à violência sexual. Já o programa Rede de Proteção às Crianças e Adolescentes em Situação de Risco para Violência, da cidade de Curitiba, apurou que das 1.356 notificações de maus-tratos no ano de 2003, 17,6% foram casos de abuso sexual.

Por sofrer intenso repúdio social e por sua própria natureza, o crime de pedofilia geralmente é cometido com todos os cuidados para não ser notado. O pedófilo tende a se proteger em uma teia de segredo, mantido às custas de ameaças e barganhas à criança abusada. Se não bastasse isso, uma série de situações e elementos de ordem social e técnica acabam por gerar uma subnotificação dos casos.

Segundo o estudo “Abuso sexual infantil e dinâmica familiar: aspectos observados em processos jurídicos”, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), os abusos acontecem geralmente com crianças de 5 a 10 anos. Já a denúncia quase sempre só ocorre na adolescência, quando a vítima já possui entre 12 e 18 anos. Essa notificação tardia evidentemente beneficia o criminoso, dificulta a apuração dos casos que vêm à tona, gerando impunidade, e ainda aumenta os danos sofridos pela vítima.

Embora a denúncia seja um procedimento determinado em lei, estudos indicam que a subnotificação ainda é uma realidade muito forte no Brasil. Se da parte da vítima há sentimentos de culpa, de vergonha e de tolerância, existe a relutância de alguns médicos em reconhecer e relatar o abuso sexual. O trabalho nesse campo ainda é fragmentado, desorganizado e, em geral, metodologicamente difuso. “Há um despreparo generalizado envolvendo desde os profissionais da área de saúde, educadores e juristas até as instituições escolares, hospitalares e jurídicas, em manejar e tratar adequadamente os casos surgidos”, conclui o estudo da UFRS.

Na maioria dos casos que chegam a conhecimento das autoridades, alguém (geralmente familiar) informou que já sabia da situação abusiva e não denunciou. “Estes dados revelam a dificuldade que a família e a sociedade ainda apresentam para denunciar situações de suspeita ou confirmação de abuso sexual contra crianças e adolescentes aos órgãos de proteção”, destaca a psicodramatista Luciane Toledo Borges.

A psicóloga aconselha os pais a ficar de olho em reações e comportamento estranho das crianças, especialmente aquelas que ficam aos cuidados de outras pessoas. “As crianças de alguma maneira externam isso, muitas vezes através de uma retração excessiva, medo demasiado ou então vai perdendo contato com brincadeira e outra criança”, exemplifica.


EFEITO SOBRE AS VÍTIMAS PODE SER DEVASTADOR

Os efeitos psicológicos do abuso sexual podem ser devastadores e os problemas decorrentes do abuso persistem na vida adulta das vítimas. O desenvolvimento da criança pode ser afetado de diferentes formas, uma vez que algumas apresentam efeitos mínimos ou nenhum efeito aparente, enquanto outras desenvolvem graves problemas emocionais, sociais e até mesmo psiquiátricos.

“A vítima pode desenvolver quadros de depressão, transtornos de ansiedade, alimentares, dissociativos, hiperatividade e déficit de atenção e transtorno de personalidade”, explica a psicóloga Cristiane Toledo Borges.

Quem é abusado sexualmente freqüentemente repete o ciclo de “vitimização”, perpetrando o abuso sexual intergeracional com seus próprios filhos. Nestes casos, estabelece-se um processo defensivo, o qual tende a se perpetuar: a identificação com o agressor como uma maneira psíquica de sobreviver ao abuso.

Os sentimentos de medo, raiva e vergonha da vítima em relação ao perpetrador são comuns, principalmente em casos de abuso sexual intrafamiliar, uma vez que a violência rompe a relação de confiança e o vínculo afetivo. “Com relação à situação abusiva, os estudos apontam que as crianças desenvolvem crenças distorcidas, tais como percepção de que são culpadas pelo ocorrido, de que são ruins e diferentes de outras crianças com a mesma idade, bem como apresentam alterações na percepção quanto à confiança interpessoal”, destacam os pesquisadores da UFRS.

Além de deixar marcas definitivas no desenvolvimento físico e emocional das vítimas, o abuso sexual deve é apontado como um fator predisponente a sintomas posteriores, como fobias, ansiedades e depressão, bem como envolvimento de um transtorno dissociativo de identidade, também conhecido como transtorno de personalidade múltipla com possibilidade de comportamento autodestrutivo e suicida.


PERFIL DO PEDÓFILO

Os casos de abuso sexual na infância e adolescência são praticados, na sua maioria, por pessoas ligadas diretamente às vítimas e sobre as quais exercem alguma forma de poder ou de dependência. Portanto, é uma distorção associar esse tipo de violência a um agressor estranho, marginal ou psicopata de rua. Na mesma linha, as pesquisas indicam que na maioria dos casos o agressor não apresentava antecedentes criminais, o que dificulta o trabalho dos profissionais que investigam suspeitas de abuso sexual. Para complicar ainda mais, as pessoas que convivem com o pedófilo o descrevem como “trabalhador, religioso e cuidador zeloso de sua família”.

“Este perfil pode confundir os profissionais e levá-los a cometer o erro de considerar o relato da criança fantasioso diante da negação do agressor”, lembra Cristiane Toledo.

De acordo com a psicodramatista, os criminosos pedófilos “são muito inteligentes”, têm consciência do ato que cometem e geralmente não buscam o tratamento. “Às vezes por vergonha ou preconceito, isolamento, e medo de ser denunciado. Aí acabam entrando num círculo vicioso, porque têm que aliviar aquele desejo. Às vezes, fogem do tratamento e voltam de novo. São angustiados, sofrem muito, especialmente aqueles que não querem lembrar que foram abusados.”, destaca.

Cristiane Toledo, que já atendeu caso de pedofilia, diz ainda que é possível que o pedófilo sofra realmente uma “atração irresistível” para a realização do seu desejo, mas não lembra que isso não o exime do crime. “Não é desculpa, mesmo porque ele tem consciência e poderia procurar tratamento. De qualquer forma, vai depender de como o juiz analisa o caso concreto”, diz.


O QUE É PEDOFILIA

Abuso ou violência sexual na infância e adolescência ocorre quando a criança, ou o adolescente, é usada para satisfação sexual de um adulto ou adolescente mais velho, incluindo desde a prática de carícias, manipulação de genitália, mama ou ânus, exploração sexual, voyeurismo, pornografia, exibicionismo, até o ato sexual, com ou sem penetração. Em qualquer caso a lei brasileira sempre presume que houve violência quando a vítima é menor de 14 anos.

Nos casos de abuso sexual, o ato libidinoso é o mais freqüente. Inicialmente, através de manobras de sedução e intimidação, seguidas de ameaças à própria criança ou a algum membro de sua família, comumente à mãe, o agressor obriga essa criança a praticar atos sexuais que não incluam a penetração vaginal para não caracterizar o estupro, mas sim uma série das mais variadas formas de contato sexual, constantemente incluindo sexo oral e penetração anal. A maioria dos abusos sexuais cometidos contra crianças e adolescentes ocorre dentro de casa e são perpetrados por pessoas próximas, que desempenham papel de cuidador destas. Cerca de 80% dos casos de abuso sexual contra crianças é perpetrado no contexto doméstico, tendo uma duração de mais de um ano.



Um comentário:

  1. Tenho uma imensa vontade de falar sobre isso,mas sempre me calo.não sei se a dor maior foi ter sido abusada toda minha infância pelo meu próprio pai,ou se foi o fato de minha mãe não acreditar ,me chamando por vezes de mentirosa e até de louca.Uma das coisas que mais me pertuba , é que eu nunca fui forçada,sempre concedi os abusos.A penetração era anal ,e ele nunca me machucou.Acho que por isso nunca pude provar a minha mãe,e eu nunca denunciei.Eles me pediam para guardar segredo para não prejudicar minha família.Acho que nunca vou ter uma vida normal,Já que até hoje choro quando penso nisso.Eu precisava desabafar obrigada pelo espaço.

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