sexta-feira, 23 de março de 2012

ESCREVER DIFÍCIL NÃO FUNCIONA

Por André L. Souza 
 

Todo semestre, eu leciono a disciplina obrigatória Estatística e Métodos Experimentais para os alunos de graduação em Psicologia na Universidade do Texas. Como sempre, essa é a disciplina mais odiada pelos alunos: eles precisam não só aprender estatística, como precisam também aprender a escrever sobre os resultados dos experimentos que eles fazem.

Apesar de todo mundo achar que estatística é a parte mais difícil do curso, geralmente os alunos tiram essa parte de letra. O difícil mesmo é escrever. Acho curiosa essa idéia esquisita que todo mundo tem de que, escrever bem é escrever difícil. Ou melhor: escrever difícil é sinal de inteligência. Parte dessa idéia pode ser explicada pelo que L. Festinger chamou de dissonância cognitiva. Essa idéia funciona mais ou menos assim: lemos um texto que não entendemos p***** nenhuma. Nosso sistema cognitivo, para não ficar pra trás, vai logo buscar uma explicação para esse fato. E a explicação mais plausível é “oras, eu não entendi esse texto porque é um assunto muito complexo que EU não entendo mais a pessoa que escreveu entende“. Além disso, faz parte do nosso senso comum acreditar que pessoas inteligentes entendem coisas complexas.

Mas será que escrever difícil faz com que as pessoas pensem que você é mais inteligente? Danny Oppenheimer, psicólogo cognitivo na Universidade de Princeton, se fez a mesma pergunta e resolveu investiga-la empiricamente.

Nos Estados Unidos, para ingressar em um programa de Mestrado e/ou Doutorado, o candidato precisa escrever o que eles chamam de “personal statement“. É uma espécie de carta, curta e objetiva, em que o candidato deve convencer o comitê de admissão de que eles devem escolhe-lo. Para esse estudo, Danny selecionou uma série de personal statements de candidatos que foram aceitos em Princeton e retirou de cada um deles um excerto (uma passagem). Utilizando um algoritmo de substituição, Danny criou três níveis de complexidade para as passagens selecionadas: no nível simples, as passagens não foram alteradas. No nível médio, a cada três substantivos, verbos e ou advérbios, o algoritmo substituía a palavra por um sinônimo mais complexo. No nível complexo, todos os substantivos, verbos e adjetivos do texto foram substituídos por sinônimos mais complexos.

Danny pegou essas passagens e pediu aos participantes do estudo que as lessem e respondessem sobre (1) o nível de complexidade da passagem, (2) o quão inteligente eles achavam que a pessoa que escreveu era e (3) se eles aceitariam ou não a pessoa que escreveu para fazer Mestrado e/ou Doutorado em Princeton. Os resultados mostraram que os textos mais complexos foram, de fato, classificados como difíceis pelos participantes. No entanto, de acordo com os participantes, quanto mais complexo o texto, menos inteligente era a pessoa que escreveu. Além disso, quanto mais simples o texto, maior a probabilidade do autor ser aceito como aluno de Mestrado e/ou Doutorado.

Esses resultados sugerem que a estratégia de escrever difícil para parecer mais inteligente não funciona. Mas será por que? De onde vem isso? Existe um efeito muito robusto investigado pela Psicologia Cognitiva relacionado à fluência de processamento de informação. Vários estudos têm mostrado que informações de fácil processamento são percebidas mais positivamente, ao passo que uma dificuldade maior de processamento acarreta em julgamentos negativos relacionados à informação (ou à fonte da informação). Por exemplo, produtos que apresentam rótulo de difícil processamento são percebidos como sendo de qualidade inferior. Campanhas publicitárias que apresentam fontes que são difíceis de ler (ou que apresentam um contraste de cores que dificulta o processamento) acabam afetando negativamente a forma como percebemos o produto.

A mesma coisa parece estar acontecendo aqui. Quando lotamos nossos textos com palavras difíceis, estamos dificultado o processamento da informação contida no texto e, como consequência, as pessoas automaticamente criam uma percepção negativa com relação à qualidade do texto e ao escritor do texto. O importante é comunicar a informação sem complexidades desnecessárias. Fica aí a dica! :)



REFERÊNCIA:

Oppenheimer, D. (2006). Consequences of erudite vernacular utilized irrespective of necessity: problems with using long words needlessly Applied Cognitive Psychology, 20 (2), 139-156 DOI: 10.1002/acp.1178


Fonte: COGNANDO

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