sábado, 10 de março de 2012

DO TRABALHO AO CONSUMO

ENTRE A SAÚDE E A DOENÇA

Por Luana Joplin



A necessidade de patologizar a labuta, e agregar toda dor e sofrimento ao sucesso não obtido no gozo social do indivíduo, me traz para essa pesquisa. Como afirma LIPOVETISKY (2007), que no império do efêmero, a necessidade paradoxal da vida virtual, do desejo ambíguo do consumo, do ‘ter’, ‘parecer’ e da busca de ‘ser’, faz com que o indivíduo, nessa modernidade liquida, com desejos líquidos, futuro líquido, tenha sofrimento sólidos, somatizando todo o flagelo cotidiano como se fosse eterno, e buscando uma culpa em alguma vertente do investimento psíquico que está impedindo o fluxo de prazer, e auto-afirmação do Ego. Ou seja, o desejo de consumo, e de bem-estar, na contemporaneidade, está cada vez mais incompatível com a obtenção de sucesso financeiro do indivíduo, em uma sociedade onde todos são qualificados demais, informatizados demais, cultos “demais”.

No século XX o Brasil foi agraciado pelo slogan do progresso, com a proclamação da República, com as reformas sociais nas cidades, juntamente com o ideal higienista, com as fábricas de produtos Europeus e Americanos. Com a vinda das fábricas houve uma grande demanda de trabalhadores rurais migrando para as cidades, em busca de emprego, e melhores condições de vida. Por medo de passar fome, os trabalhadores se sujeitavam as condições de trabalho subumanas, diferentemente dos trabalhadores das fábricas na Europa, onde já se defendia, brigava por melhores condições e trabalho, no início do século XX. Entretanto, como nesta pesquisa foi utilizada autores Franceses, grande parte dos acontecimentos citados aqui são provenientes de estudos que estes autores fizeram na França.

De acordo com Deleuze, a sociedade passa por uma transformação de ‘Sociedade Disciplinar’, que é descrita por FOUCAULT, para a ‘Sociedade de Controle’. FOUCAULT vai definir a sociedade disciplinar, que nasce na idade média, e atinge seu ápice no século XX. A ‘Sociedade de Disciplinar’, é um modelo social que FOUCAULT descreve como meios de confinamento. Entretanto, segundo o autor, o indivíduo e a sociedade necessitam do funcionamento dessas instituições, e as mesmas necessitam do funcionamento uma das outras. Essas instituições ao que se refere FOUCAULT são; a família, escola, caserna, fábrica, hospital, manicômio, e a prisão, que é o meio de confinamento por excelência. Segundo DELEUZE, após a Segunda Guerra Mundial, as instituições passam por uma transformação (bem como foi citado no meu artigo anterior, no BLOG Psicoquê?). As instituições passam por uma crise, que causam transformações de suas organizações.

De acordo com DELEUZE, “a fábrica era um corpo que levava suas forças internas a um ponto de equilíbrio, o mais alto possível para a produção, o mais baixo possível para os salários; mas numa sociedade de controle a empresa substituiu a fábrica, e a empresa é uma alma, um gás. Sem dúvida a fábrica já conhecia o sistema de prêmios mas a empresa se esforça mais profundamente em impor uma modulação para cada salário, num estado de perpétua metaestabilidade, que passa por desafios, concursos e colóquios extremamente cômicos. Se “os jogos de televisão mais idiotas têm tanto sucesso é porque exprimem adequadamente a situação de empresa.” ( Post Scriptium, Sociedade de Controle, DELEUZE, G.-1992)


Sendo assim, as empresas oferecendo condições de trabalho melhores, “[...] introduz o tempo todo uma rivalidade inexplicável [...], excelente motivação que contrapõe os indivíduos entre si e atravessa cada um, dividindo-o em si mesmo. O princípio modulador do "salário por mérito" tenta a própria Educação nacional: com efeito, assim como a empresa substitui a fábrica, a formação permanente tende a substituir a escola, e o controle contínuo substitui o exame. Este é o meio mais garantido de entregar a escola à empresa.”

Vamos entender um pouco neste texto como surge essa inquietação em relação às condições de trabalho, em relação à saúde e o bem-estar social.



1. O trabalho como um componente físico na História do Homo Psicologicus


Neste primeiro Tópico Falarei um pouco sobre a luta dos trabalhadores por melhores condições “Físicas do trabalho”, e as idéias sobre a saúde e o bem-estar dos operários.

Durante o século XIX a carga horária de trabalho era de 12, 14 ou muitas vezes 16 horas por dia, as crianças a partir dos 7 anos eram inclusas nas fábricas, algumas vezes a partir dos 3 anos. AS condições de trabalho eram precárias, a falta de higiene fazia com que ocorressem epidemias nas fábricas, acidentes de trabalho, muitas vezes fatais, porém, como afirma DEJOURS (1992), não se falava em saúde física do trabalhador, tão pouco de saúde mental, pois segundo o autor, a luta pela saúde nesta época era a “luta pela sobrevivência”, ou seja, para o operário do século XIX, viver era não morrer.

Somente após movimentos operários, sindicais, em prol de melhorias aos operários, é que houve uma transformação e conseqüentemente melhorias aos trabalhadores. E segundo DEJOURS (1992), desde então, a reivindicação dos trabalhadores passa a ser pelo direito de viver; salvar o corpo de acidentes, doenças profissionais, intoxicação, etc.

Em meados do século XIX e início do século XX, segundo DEJOURS, o Taylorismo foi um fator importante para a modalidade de organização do trabalho, e ganhou espaço, especialmente no setor terciário, pois o mesmo foca na saúde do corpo. Assim juntamente com novas ‘verdades’ científicas, de como manter a saúde do trabalhador, gerando submissão e disciplina do corpo, e uma organização científica do trabalho, que geraram exigências fisiológicas nas questões de tempo e ritmo de trabalho. Todavia, percebe-se que o aparelho psíquico não é o foco de somatização do flagelo, de exploração e submissão social, mas, sim, o corpo dócil e disciplinado.

Em 1936, é concedido ao trabalhador, além da proteção, que foi uma lei instaurada em 1919, na Europa, o direito de férias, greve e livre adesão aos sindicatos. O Brasil, durante a primeira Guerra Mundial, ainda sofria um período de transição, onde o país era governado pelo Imperador D. Pedro II, e os Repúblicanos já procuravam maneiras de depor o Imperador, e tomar posso do Governo, tornando o Brasil uma República, o que acontecerá em 1889. Entretanto a industrialização no Brasil começou em 1808, com acordos de interesses da coroa, com a Europa. Em 1810 através de um contrato comercial com a Inglaterra, foi fixada em 15% a taxa para as mercadorias inglesas por um período de 15 anos. Neste período, o desenvolvimento industrial Brasileiro foi mínimo devido à forte concorrência dos produtos ingleses que, além de serem de melhor qualidade, eram mais baratos.

Os operários Brasileiros reivindicaram pelos seus direito no início do século XX, nesse momento nasce o flagelo, mesmo assim, isso acontece devido a convivência de operários Brasileiros, com operários imigrantes Europeus. Mas voltando ao raciocínio, pois não pretendo me aprofundar neste assunto.
Até meados do século XX, os operários irão reivindicar seus direitos diante da exploração do corpo. O indivíduo, como afirmaria Freud, precisa de um líder Narciso, ou Nietzsche, afirma que todo rebanho precisa de um pastor. Para FOUCAULT, o sujeito se deixa adestrar, docilizar, e DEJOURS (1992) falaria mais;


“ Tudo se daria como se as condições de trabalho nocivas só atingissem o corpo, após tê-lo submetido, domesticado e adestrado como um cavalo de tração. Docilidade [...], depende de uma estratégia inicialmente concernente ao aparelho mental, para dele anular as resistências que ele opõe, espontaneamente, à exploração” (página 21. DEJOURS- C. 1992)




2. Entendendo, à partir da Psicanálise, a História do Homo Psicologicus e o Trabalho

Neste Tópico pretendo descrever, como, a partir do pensamento psicanalítico, o homem se torna uma máquina do trabalho, controlando seus instintos, canalizando seu prazer para a mão de obra, para viver em sociedade.

É importante entender que o indivíduo, que é um ser social, é também, um ser psicológico. O conceito de homem na teoria Freudiana é a descrição íntegra da sociedade Ocidental e ao mesmo tempo a defesa dela, ou seja, o homem do desejo, do trabalho, do grupo, da ordem. Entretanto, a cultura coage o indivíduo tanto pela sua existência social quanto pela sua existência biológica, essa coação de si e do outro, foi um fator essencial para o progresso civilizatório, pois o desejo instintivo do homem é incompatível com o ideal civilizatório. “A civilização começa quando o objetivo primário é abandonado” (Marcuse, 1968).

Freud vai descrever essa organização de pulsões, de instintos e prazeres como transformação do ‘princípio de prazer’ em ‘princípio de realidade’. Quando o princípio de realidade supera o princípio de prazer momentâneo incerto e destrutivo, substituindo-o pelo prazer adiado, porém garantido, no quesito social. 

Entretanto, Freud não diz que o homem nega o princípio de prazer, mas o modifica, ou seja, transfere o prazer canalizando-o para o Trabalho. A substituição do princípio de prazer pelo princípio de realidade é o grande acontecimento traumático no desenvolvimento do indivíduo. Segundo Freud(1921) esse evento ocorre ao longo da história do indivíduo, entretanto, o primeiro evento de renuncia do indivíduo, ocorre quando os pais impõem a submissão e a obediência.

A medida que a vida social do indivíduo se amplia na infância, amplia também a sua submissão e a materialização do seu princípio de realidade na escola e em outros ambientes sociais e politicamente institucionalizados, como o trabalho. Baseando-se nisso Freud afirma que a modificação repressiva dos instintos sob o princípio de realidade, é imposta e mantida pela eterna luta primordial pela existência, ou seja o homem aprende que não se pode viver sob o domínio do princípio de prazer.

Segundo Marcuse (1968), o motivo pelo qual a sociedade impõe a modificação decisiva da estrutura instintiva é tracionada pelo anseio econômico, haja vista que Marcuse parte de uma perspectiva de análise Psicanalítica e do marxismo cultural, entretanto, para ele o indivíduo é movido pelo desejo, que por conseguinte foi canalizado para a satisfação econômica a partir do trabalho. Alguns pensadores da escola de Frankfurt, Horkheimer, Adorno e Marcuse, acreditam que a cultura ocidental, do trabalho, consumo, organização e canalização do prazer, é uma doença, que todo mundo educado nela sofria de “personalidade autoritária”, que a população ocidental deveria ser reduzida à condição de paciente de hospício e submetida a uma “psicoterapia coletiva”. Entretanto, os pensadores da escola de Frankfurt são datados a partir do século XX, são pós Taylor, e onde o homem máquina não teria um flagelo somente físico diante do trabalho, mas, sim, uma interferência psíquica que o inoculava a aceitação e a domesticação social, tão bem como o faria não aceitar o ditames da domesticação do trabalho.


Os pensadores da escola de Frankfurt concordam com Freud na discussão sobre a cultura, pois, segundo ele, a cultura se implementa com base no sofrimento e na miséria, e que a liberdade cultural surge à luz da escravidão e seu progresso com base na coação. Nessa mesma linha de pensamento posso concluir que a cultura ocidental é a cultura do trabalho, a cultura da submissão da massa, sob a necessidade do trabalho e de sua remuneração, e seu prazer, ou diria, seu princípio de realidade está em ofertar sua mão-de-obra.


3. Quando o Trabalho se torna um componente psicológico?


Na segunda metade do século XX, mais precisamente, após a Segunda Guerra Mundial, as forças produtivas do processo de organização e das condições de trabalho progridem de forma heterogênea. Os operários ainda clamam por melhores condições de trabalho, mas o sofrimento psíquico permanece invisível, ou melhor, dizendo, ainda é um flagelo não requisitado e tão pouco analisado.

Hoje na contemporaneidade há várias pesquisas sobre as Psicopatologias do Trabalho, no caso de DEJOURS (1992), ele utiliza a linha de pesquisa da Psiquiatria Social. Há outros grupos (Louis de Le Guillant) de pesquisa que utiliza a psicanálise como teoria de base na compreensão dos fenômenos de estresse laboral. Por enquanto falaremos sobre a opinião de DEJOURS (1992) em relação a Saúde mental.

Segundo DEJOURS (1992), o esgotamento do Taylorismo foi um fator importante para se perguntar sobre as angústias em relação ao terreno econômico, greves, e sucessivos acontecimentos como forma de revolta ao sistema de organização e condições de trabalho, que foi tido como uma espécie de “alergia ao trabalho”. 

Hoje o sistema Taylor é, a partir de uma perspectiva ideológica, é acusado de desumanizante, e bastante repudiado pelos psicólogos do Trabalho.

Mas este artigo não tratará de focar na visão psicológica tão somente, mas sim na questão histórico-cultural para que possamos entender melhor, numa perspectiva social e cultural o conceito de Saúde mental e trabalho.

Após a década de 1960 nasce a sociedade que DELEUZE (1992) vai chamar de ‘Sociedade de Controle’, onde , como foi explicado nos tópicos anteriores, nasce outras instituições e outras formas de controle, trazendo a reestruturação social, econômica, e também de trabalho. A partir da Década de 1960, a exigência de mão de obra qualificada passa a ser cada vez maior, trazendo uma alta concorrência no mercado de trabalho, acentuando a dimensão mental do trabalho em todos os sentidos intelectuais.

“ A sensibilidade as cargas intelectuais e psicossensoriais de trabalho preparam o terreno para as preocupações com a saúde mental. [...] A ‘crise de civilização’, é assim que se designa contestações a sociedade, testemunha preocupações aparecidas com a ‘nova onda’, que cresceu com a desilusão do pós-guerra e se ampliou com a contestação da ‘sociedade de consumo’. A perda de confiança na capacidade da sociedade industrial em trazer a felicidade, o desenvolvimento de um inegável cinismo, a nível dos órgãos dirigentes, acabam numa contestação do modo de vida como um todo. As droga e as toxicomanias, temas privilegiados da ‘crise da civilização’, são testemunhas de uma nova procura, onde interessa, sobretudo, o prazer de viver, e que diz respeito tanto aos filhos da burguesia quanto aos da classe operária.” (DEJOURS, C. 1992)


De acordo com a pesquisa de Lipovetisky (2007), a expressão ‘sociedade de consumo’ aparece pela primeira vez na década de 1920, e se populariza durante a década de 1960. Essa cultura consumista que se amplia após a segunda metade do século XX, de acordo com Lipovetisky, coincide com a ‘civilização do desejo’. Para entender melhor essa retrospectiva que se inicia com os trabalhadores reivindicando melhorias no trabalho, para evitar patologias físicas, com a sociedade de consumo, o anseio pelas melhorias de trabalho, as revoluções, o nacionalismo e o lazer, acaba sendo substituído pelo desejo do conforto, melhoramento contínuo de condições de vida, e o ideal de ‘bem-estar’ se torna um desejo em massa.

Em 1968 houve um movimento Francês contra a ‘sociedade de consumo’ e contra a alienação. Esse movimento liderado por estudantes, atingiu os sindicatos de trabalhadores provocando uma greve geral de grande impacto.


“Segundo a professora Olgária Matos, o movimento "criticou a sociedade do espetáculo, a ética do consumo, o urbanismo da alienação em nome da lógica do mercado, da indústria, da ciência e da técnica despoetizadoras". (DIAS, R.B. 2008)


Este movimento revolucionário, juntamente com as greves que sucederam após este acontecimento, trouxeram novas ideologias para a classe trabalhadora, que causaram confusão tanto para o Estado quanto para a economia. As ideologias com intuito de mudar de vida, buscar o bem-estar causaram conflitos sociais.


“ Estes diferentes elementos concorrem para fazer pensar que, do período atual, deveria emergir o tema da relação saúde mental-trabalho [...]” (DEJOURS, 1992)


Todavia foi necessário pensar o que, no trabalho, seria prejudicial à saúde mental, sem deixar de enfatizar a necessidade do indivíduo, que vive em uma sociedade capitalista, de lutar pela sobrevivência, em termos econômicos e sociais (haja vista que agora deve-se preocupar com o bem-estar, conforto e saúde).

A necessidade de bem-estar e conforto não coincidem com a preocupação com a saúde física e mental do trabalhador, haja vista que, para ter conforto é necessário trabalhar excessivamente, todavia “ A luta pela saúde do corpo conduzia à denuncia das condições de trabalho” (Dejours).




Terminando sem concluir... (continua)

2 comentários:

  1. Apesar de toda complexidade ao se investir na escrita de qualquer tema da atualidade, seu texto apresenta uma proposta interessante. Parabéns.
    De fato o trabalho se constitui na espinha dorsal na regulação pulsional do indivíduo moderno, tornando-se o cenario e o palco de passagem ou entrave das vicisstudes pulsionais. tem por funçaõ atenuar certa animalidade do ser, de defini-lo no que possui de humano. Parte fundamental do processo civilizatório. Mas também lugar onde uma inflexão perversa se desenha, a alienação, a opressão, a exploração, onde o humano é devolvido a sua animalidade destrutiva, implodindo qualquer pretensão ou proposta de humanidade e da criação de laços e condições de possibilidade de exercício da singularidade. O contemporâneo tensiona mais uma vez a economia psíquica envolvida nas relações de trabalho, modificando seu campo semântico e representacional nas diferentes classes sociais, de fato como propôs, a lógica da sociedade de consumo desafia o sentido do trabalho e lhe impõe uma condição esvaziante, tornando-o algo tedioso de um lado e desgastante de outro. Esta posta a questão. Bom , tenho que trabalhar!!!

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  2. obrigada. Acho esse assunto mto interessante, por isso me propus a pesquisá-lo. Qria poder me apronfundar mais nesse tipo de pesquisa, sei lá, qm sabe receber orientação de leitura, indicação de livros, pq parei em um ponto deste artigo, e por mais que eu leia Lipovetisky, Marcuse, Osborn, e Dejours, eles ainda não conseguem me dar a luz para a conclusão....
    Luana Joplin

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