quinta-feira, 22 de março de 2012

DO TRABALHO AO CONSUMO (PARTE 2)

DO DESEJO A OSTENTAÇÃO
Por Luana Joplin


Prosseguindo o texto anterior (link aqui)...
   

 4. Da organização do trabalho à exclusão do desejo

 
Dentro de cada instituição, para que haja organização e docilização dos corpos, há uma necessidade de divisão hierárquica. Dentro das fábricas e das empresas, há essa divisão, por necessidade de manutenção, organização e controle. De acordo com DEJOURS (1992) “o sofrimento mental, resulta da organização do trabalho”. Quando o autor se refere a organização, da instituição, ele se refere ao espaço físico, que envolve ambiente químico e biológico, higiene e segurança, no entanto, o sofrimento mental causado pelo trabalho, se designa, de acordo com o autor, pelas divisões hierárquicas e pelos encargos de responsabilidades acometidas ao trabalhador.

Essas relações de poder, seria o maior causador de sofrimento ao trabalhador, pois há uma coibição do desejo do trabalhador, em prol da satisfação de organização do comando do patrão. De acordo com DEJOURS (1992) a relação do trabalhador e do patrão é de ‘dominação’ e de ‘ocultação’, ou seja, a dominação da vida mental do trabalhador em prol da organização social e hierárquica da instituição, e da ocultação dos desejos, induzindo-os a um comportamento estereotipado. O autor fala da elucidação do trajeto do trabalhador que vai do comportamento ‘livre’ ao comportamento ‘estereotipado, e explica;


“ Por comportamento livre nós não entendemos a liberdade metafísica, mas um padrão comportamental que contém uma tentativa de transformar a realidade circundante conforme os desejos próprios do sujeito. Livre, mais que um estado, qualifica uma orientação na direção do prazer” (DEJOURS, 1992)

De acordo com MARCUSE (1968), o motivo pelo qual a sociedade impõe modificação no seu comportamento, organizando seus instintos, é por razão econômica, todavia transformando o princípio de prazer em princípio de realidade, canalizando seu desejo libidinal para o trabalho.


“O papel predominante da sexualidade tem raízes na própria natureza do aparelho mental, tal como Freud o concebeu; se os processos mentais primários são governados pelo princípio de prazer, então aquele instinto que, ao atuar sob esse princípio, sustenta a própria vida, deve ser o instinto de vida.” (MARCUSE, H. 1968, P. 42)

A necessidade do indivíduo de autopreservação (Ego), e de preservação social, faz com que o mesmo se sujeite a dominação, organizando seus instintos, que para Freud, é pulsionado pela libido individual, fazendo com que haja uma tendência regressiva e conservadora de sua vida instintiva. Para Freud o princípio de prazer possui a tarefa de


“libertar inteiramente o aparelho mental de excitação ou manter constante a quantidade de excitação nele existente, ou mantê-la tão baixa quanto possível” (FREUD, 1922-p. 86).

Neste caso, pode-se dizer que a patologia aparece a partir da necessidade de auto-preservação, a partir da contenção libidinal para organização instintiva, e assim reproduzindo o desejo no trabalho. Mas após a segunda metade do século XX, a libido, que antes era transferida para o trabalho, na sociedade do Espetáculo (DEBORD,1967), agora seria transferida para o consumo, para as prateleiras das lojas, em produtos padronizados, padronizando o comportamento, e as relações. De acordo com DEBORD (1967),


“(...) o espetáculo é ao mesmo tempo o resultado e o projeto do modo de produção existente. (...) Sob todas as suas formas particulares – informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimentos -, o espetáculo constitui o modelo atual da vida dominante na sociedade. É a afirmação onipresente da escolha já feita na produção e o consumo que decorre dessa escolha.” (p. 14 e 15)


O final do século XX marca um período onde o consumo passa a ser um fetiche, e a ostentação do bem-estar, uma necessidade. A ideologia da necessidade consumista passa a ser uma lógica de diferenciação social; o bem-estar passa a ser
“exigências de prestígio e de reconhecimento, de status e de integração social” (Lipovetisky, 2007).



5. O trabalho e o investimento da ostentação


A partir de meados da década de 1960 a aquisição de carros, televisão, aparelhos eletrodomésticos e viagens de férias já seduziam a sociedade, que via no consumo ostentatório uma maneira de fazer a diferença em seu meio social. De acordo com LIPOVETISKY (2007), viver de acordo com a idéia de ‘felicidade’ à partir de lazeres, da sedução da mídia e da publicidade, aumentava o desejo do consumo, e conseqüentemente a labuta do indivíduo. Segundo o autor, a sociedade se dispõe a essa conduta consumista para ficar menos sujeito ao “primado do julgamento do outro”. O indivíduo passa a buscar a admiração do outro, sentir que sua vida é desejada, que o outro lhe tem respeito por ser um indivíduo economicamente estável que vive melhor, goza os prazeres da vida e não se priva do supérfluo, e sendo assim,

“ a sociedade esforça-se em louvar os produtos como símbolo de condição social: são mulheres maquiadas, “finas” e elegantes que encenam os visuais publicitários para o carro, a batedeira ou o aspirador de pó.” (LIPOVETISKY,2007)


Os operários das fábricas, os funcionários das empresas, a família de classe média, sentem-se seduzido pelo ideal de bem-estar e pelos ditames do conforto que a publicidade arremessa nas vitrines, e que os comerciais contaminam a ideologia e o conceito de vida que o indivíduo tem instaurado. Não estar dentro desses paradigmas de conforto é não estar “bem” socialmente, significa não ter controle nas finanças, tão pouco sucesso profissional.


No final do século XX, o consumo fica mais democrático, há então uma grande diversificação entre produtos tecnológicos, lazer, conforto e novidades mercantis.


O consumo democrático individualizou o desejo de compras transformando o comportamento social em relação ao consumo; agora o indivíduo se preocuparia mais com a qualidade de vida, comunicação e a saúde. Entretanto, a qualidade de vida, a comunicação e a saúde, viraram produtos que encheram a prateleira e o desejo do proletário de classe média. LIOVETISKY (2007), vai chamar essa fase de Hiperconsumo, uma fase de
“mercantilização moderna das necessidades e orquestrada por uma lógica desintitucionalizadas, subjetiva, emocional”.

Lembrando que, no tópico 1 deste texto, apresenta que, no século XIX o indivíduo possui como motivação do trabalho, estar vivo. Não se falava em saúde física do trabalhador, tão pouco de saúde mental, pois segundo o autor, a luta pela saúde nesta época era a “luta pela sobrevivência”, ou seja, para o operário do século XIX, viver era não morrer. No final do século XX, o indivíduo é motivado pelo consumo, pelo desejo, ou seja viver era ter conforto, “bem-estar”, objetos de desejo.


“ Queremos objetos “para viver”, mais que objetos para exibir, compramos menos isto ou aquilo para nos pavonear, alardear uma posição social, que com vista a satisfações emocionais e corporais, sensoriais e estéticas, relacionais e sanitárias, lúdicas e distrativas. Os bens (...) funcionavam tendencialmente como símbolos de status, agora eles aparecem cada vez mais como serviços à pessoa.” (LIPOVETISKY, 2007-p.42)


Segundo o autor, o indivíduo espera aliviar seus problemas, ou diria, o flagelo cotidiano, à partir da aquisição de mercadorias, coisas que lhe dêem mais auto-confiança, lhes façam sentir mais independentes, móveis, lhes façam viver experiências, melhorar e a qualidade de vida, conservando a saúde e a juventude.


De acordo com LIPOVETISKY, a ostentação dos objetos a partir das conquistas de espaços-tempos personalizados servem de base para esse consumo emocional, e o gosto pelo consumo ultrapassa os limites sociais, ou seja, não é mais um privilégio de ricos, mas de todas as classes. O consumo no final do século XX não mais ditará identidade econômica ou social do indivíduo, como costumava acontecer desde a idade Média, ou seja, o consumo deixará de ser uma tradução de posição econômico-social, haja vista que, todas as posições sociais terão uma necessidade, pulsionada pelo desejo e anseio pelo novo, de consumir, e de ostentar esse desejo pelo consumo, e esse consumo, será ostentado à partir de um trabalho árduo que exigirá muitas horas de trabalho.


O consumo, antes de tudo, revelará uma identidade, expressará a cultura de determinado indivíduo, pois, no fim do século XX, as prateleiras, e a publicidade investirão no consumo padronizado, diferentemente do consumo anterior a década de 1960 (consumo em massa); o indivíduo passa a expressar-se e revelar quem é (como eu real, ou Eu ideal), à partir dos objetos que compro. Como afirma LIpovetisky,
“o Homo consumericus esforça-se mais ou menos conscientemente em dar uma resposta tangível, ainda que superficial, à eterna pergunta: quem sou eu?”

Esse consumo emocional vai proporcionar ao indivíduo consumidor (que também é trabalhador, que também tem uma experiência pessoal e uma necessidade em identificar-se com o mundo), “experiências afetivas, sensoriais e imaginárias” com os objetos que povoam seu mundo.


“(...) a nova relação emocional dos indivíduos com as mercadorias, instituindo o primado do que se sente, a mudança da significação social e individual do universo consumidor que acompanha o impulso de individualização de nossas sociedades.” (LIPOVETISKY, 2007)


Encerrando sem concluir (continua...)

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