quarta-feira, 21 de março de 2012

CONTRACULTURA E A ABORDAGEM ROGERIANA

Por Denilson Paixão



Hoje falaremos sobre a influência de época que ajudou a consolidar a abordagem rogeriana em detrimento da psicoterapia rogeriana (MOREIRA, 2010). A escolha do uso da palavra “abordagem” em contrapartida da palavra “psicoterapia” diz respeito à evolução no foco de estudo, análise e aplicação dos conhecimentos que levaram ao surgimento da Abordagem Centrada na Pessoa (ACP), tendo esta um caráter mais coletivo, de grupo, de cunho social!

Entre 1970 e 1987, é um período nomeado por Moreira (2010) de “fase coletiva ou inter-humana” de Rogers. Este período se situa no pós II Guerra Mundial e todo seu zeitgeist (espírito de época). Este período pode ser caracterizado como emblemático pela mudança de paradigma social, desde a quebra dos ideais de Ciência pura e neutra (como é o caso do Tribunal de Nuremberg) aos movimentos de contracultura.

Segundo Carpiteiro et. al. (1990):

“[...] la Psicología Humanista se halla también vinculada a las características sociales y a los valores culturales de las sociedades occidentales en la década de los sesenta, y en particular de la sociedad americana.” (p. 76)
“La llamada «tercera fuerza», que no sólo se interesa por lo que la persona es en el presente, sino por lo que pueda llegar a ser en cl curso dc su autorrealización, surgió en un momento en el que muchos individuos de franjas importantes de la población se cuestionaban valores tradicionales como el éxito a toda costa, la dominación de unos países sobre otros Incluso por la guerra. y la lucha económica contaminando el ambiente y destruyendo el equilibrio ecológico del planeta. Semejante cuestionamiento existencial y la búsqueda de nuevos horizontes políticos y éticos que abrieran paso a aspiraciones de riqueza y calidad de vida más genuinas. coadyuvaron de manera fundamental a configurar el contexto social, colectivo, que propició el nacimiento de la Psicología Humanista. (pp. 76-77)

Deste modo, podemos ver que, neste ponto, as teorizações rogerianas vão de encontro a propostas ousadas de sua época, como o “Flower Power” e todos os discursos diferenciados. Sua teoria passa a ter um forte teor místico oriental, que é traço também da Beat Generation de Jack Kerouac, fundador de um movimento literário (de mesmo nome) de sua época. Os ideais de liberdade e espontaneidade vão de encontro ao discurso hippie tão vigente. Temos como exemplo, no livro de Ginger & Ginger (1995), para não deixar de falar de Pelrs e dos gestaltistas, que Perls foi eleito o “rei dos hippies” por uma comunidade hippie!

Sendo assim, podemos inferir que o movimento rogeriano (e demais humanistas) desta época estava engajado nas problemáticas vividas em seu tempo, sobre a crise que o mundo passava e o processo de reestruturação da paz. Estas teorias tentavam alcançar horizontes utópicos de ideais de sociedade que as demais abordagens pareciam não problematizar. Estas demais abordagens e teorias pareciam colocar o homem de modo

muito asséptica, distante dos determinantes sociais que influenciam o homem. As teorias humanistas pareciam ir de encontro a uma proposta de formação humana mais engajada e explicitamente ativa, negando o determinismo encontrado nas outras abordagens.

A liberação do potencial de auto-realização proposta pela ACP seria um processo inerente a todo ser humano, através do qual se constrói a autonomia e responsabilidade pela própria vida. O poder de escolha e o grau de autonomia do homem é reflexo do seu processo de conscientização e mobilização frente às influências externas, pois estas são responsáveis pelo bloqueio da capacidade natural humana de se realizar e realizar no mundo.

Percebe-se que a força motriz da contracultura é justamente a mobilização pelas transformações libertadoras e atualizadoras dentro das sociedades. A certeza de que o potencial de crescimento e transformação está dentro de cada um - e que cabe a cada um combater a apatia e o conformismo frente às representações hegemônicas e deterministas que permeiam a vida em sociedade - é um importante legado da contracultura para a ACP. Assim como o desenvolvimento de uma consciência mais crítica capaz de romper paradigmas dominantes e padrões de conduta, proporcionando a manifestação natural dos potenciais de realização do homem.

Infelizmente, não tenho tanto conhecimento sobre os fatos. Este post é apenas para dar o primeiro passo em possíveis aprofundamentos sobre o assunto. Espero que ele tenha, pelo menos, aguçado a curiosidade de todos!


REFERÊNCIA

CARPINTEIRO, H. MAYOR, L. ZALBIDEA, M. A. Condiciones del surgimiento y desarrollo de la Psicología Humanista. Revista de filosofia, 3º época. vol. III (1990). núm. 3. p. 71-52.

GINGER, S. GINGER, A.- Gestalt- uma terapia do contato , São Paulo: Summus, 1995.
MOREIRA, V. Revisitando as fases da abordagem centrada na pessoa. Estudos de Psicologia, Campinas – SP, out-dez, 2010, 27(4), pp. 537-544 



AGRADECIMENTO

O Blog Psicoquê? agradece a colaboração de Aline Esashika com a revisão do texto!

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