sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

SEXUALIDADE... OU SEXUALIDADES?


O falar sobre sexualidade, muitas vezes vem atrelado à idéia de órgãos genitais, cenas de sexo, ou qualquer outra manifestação que, embora também faça parte dessa ampla construção social, não representa o seu todo. Embora existam comportamentos considerados próprios do homem e próprios da mulher, é evidente que essa abordagem está em plena mudança, com base nos avanços da ciência e na lutas dos movimentos feministas e homossexuais, fontes geradoras de mudança de paradigmas, sendo, portanto, inevitável a pluralidade nas formas de expressão.

A sexualidade consiste numa construção social, historicamente datada e culturalmente localizada, que transcende a genitalidade. A antropóloga Carole Vance mostra que as culturas fornecem categorias, esquemas e rótulos muito diferentes para enquadrar experiências sexuais e afetivas. A relação entre o ato e a identidade sexual, de um lado, e a comunidade sexual, de outro, é igualmente variada e complexa. Assim, o exercício da sexualidade é ancorado nos mais variados significados e sentidos dados de acordo com a cultura e o período histórico. Essa definição de sexualidade é significativa para a compreensão da transformação de formas outras de expressão sexual que vão além do modelo heterossexual reprodutivo.

A sexualidade humana não se limita à reprodução da espécie, apesar de que, no passado, havia uma forte vinculação entre a sexualidade e reprodução baseada nos modelos médico-morais. Segundo o documento Promotion of Sexual Health: Recommendations for Action, da Organização Pan-Americana de Saúde e da Organização Mundial de Saúde, com colaboração da Associação Mundial de Sexologia, a sexualidade está relacionada ao núcleo do bem-estar humano que inclui gênero – conjunto de valores, atitudes, papéis, práticas ou características culturais baseadas no sexo biológico (macho ou fêmea) –, identidade sexual e de gênero – define como a pessoa se identifica, enquanto masculino, feminino, ou uma combinação de ambos –, orientação do desejo sexual ­– uma organização específica do erotismo e/ou vínculo emocional de um indivíduo em relação à parceria que pode ser heterossexual (entre pessoas do sexo oposto), bissexual (entre pessoas de ambos os sexos), e homossexual (entre pessoas do mesmo sexo) –, erotismo – capacidade humana de experimentar respostas subjetivas que evocam os fenômenos físicos percebidos enquanto desejo sexual, excitação sexual e orgasmo –, vínculo emocional – estabelecimento de laços com outros seres humanos que se constroem e sem mantém mediante emoções –, atividade e práticas sexuais – expressão em que o componente erótico é evidenciado ­, relações sexuais sem risco – especifica práticas e comportamentos sexuais que evitem o risco de contrair e transmitir doenças sexualmente transmissíveis e AIDS –, e comportamento sexual responsável – que é expressado nos planos pessoal, interpessoal e comunitário, caracterizado pela autonomia, maturidade, honestidade, respeito, consentimento, proteção, busca do prazer e bem-estar. Dessa forma, a sexualidade é experienciada ou expressada em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, atividades, práticas, regras, relacionamentos. O documento firma que a sexualidade é resultado da integração de fatores biológicos, psicológicos, sócio-econômicos, culturais, étnicos e espiritual/religioso.

Diante da diversidade de formas na expressão da sexualidade, emerge o questionamento de modelos fixos do que é ser masculino e do que é ser feminino, dando espaço para o reconhecimento de masculinidades e de feminilidades. Tais possibilidades devem ser reconhecidas e preservadas, numa perspectiva de valorização da singularidade humana. No tocante a essa questão, utilizamos o termoidentidade de gênero para se referir à construção das masculinidades e das feminilidades. Essa idéia se apóia no fato de que temos machos e fêmeas na espécie humana, sendo que a qualidade de ser homem e de ser mulher é condição construída socialmente. A construção dos gêneros está ancorada no sistema particular de valores culturais, a partir de um conjunto de práticas, formas simbólicas, representações, normas e valores sociais, que moldam o corpo humano e suas práticas em noções de masculinidade e feminilidade.

O conceito sexualidades traz consigo a idéia da inclusão de diferenças ediferentes identidades e formas de expressão. Muitas vezes as queixas afetivo-sexuais levadas aos consultórios psicológicos estão embasadas em uma carência de informação e/ou orientação sobre sexualidade, além da consciência da existência de múltiplas formas de ser-no-mundo. A riqueza humana está fundada nas diferenças e não na incessante luta para enquadrar diferenças em moldes pré-estabelecidos. Cabe a cada um de nós contribuir com a nossa própria diferença para a construção de um contexto de igualdade, respeito, eqüidade de gênero e de aceitação – não discriminação – por razão de gênero, bases estas que favorecem a saúde sexual, na convivência ética e cidadã.



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