segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

PULSÃO DE VIDA E PULSÃO DE MORTE

RETÓRICAS QUE CONTROLAM A LIBIDO INDIVIDUAL E MOVIMENTAM A VIDA EM GRUPO

Por Luana Joplin


No livro “Psicologia do Grupo e análise do Ego” (1921), Freud afirma que o homem é um animal individual que vive em grupo, porém, necessita da condução de um líder que unifica o interesse coletivo e coíbe os impulsos egoístas de seus membros. Essa concepção resume o conceito freudiano sobre o nascimento da vida comunitária, em outras palavras, sociedade. A civilização teria sido fruto, segundo Freud, de renuncias pulsionais de seus membros. Marcuse(1967) denomina essa renúncia de nascimento do instinto organizado. Ele explica através do conceito freudiano, que o homem nasce com extinto animal, porém renuncia esse instinto para viver em sociedade, o indivíduo passa a organizar sua libido.

Esse líder consegue fazer com que através dos seus discursos, o indivíduo, introduza o devir de renúncia da libido instintiva e a canalize, centrando-a no investimento da imagem de um grande líder; o ideal do Eu. Segundo Freud, há um investimento libidinal, na qual facilita o indivíduo viver em grupo, tendo um ideal edípico.

Deleuze fala de um devir edípico, utilizando uma análise freudiana sobre o Édipo, no entanto, transfere essa imagem do Édipo para os discursos institucionais, e utilizarei da análise freudiana para falar da pulsão de vida.

Esse devir edípico é a moral social, que faz com que o indivíduo renuncie a sua libido instintiva para viver socialmente, se inspirando no líder, que possui uma soberania de si, e assim ser inscrito nos códigos sociais tanto no campo material, quanto no campo simbólico.

O conceito de vida em Roma, era manter a soberania do Estado, e manter viva a jurisdição, no entanto a imagem Edípica do Estado era o Soberano, ele era o ideal do Eu; ele mantinha viva a jurisdição, haja vista que era a lei, era um sujeito imbuído de discurso narcísico, porém hospedeiro do discurso edípico, na qual proferia ao coletivo, de forma que mantivessem a sua soberania e respeito. Foucault fala em seu ultimo capítulo “Governamentabilidade” do livro “Microfísica do poder” (1954), que um líder para governar deve ter, primeiramente, um governo de si, da família, das finanças da casa, e assim, ele consequentemente poderia ter o governo sobre o Estado.

Para que ocorresse o nascimento da civilização, segundo Freud, foi necessário que um indivíduo fosse instituído como representante dos ideais coletivos, e estabelecessem regras iguais para todos, agindo assim de maneira despótica, detendo os prazeres e castrando os interesses. Essa castração é uma forma de disciplina, e uma maneira de conter a ascensão de outro líder no mesmo grupo. Essa castração ocorre na sociedade, porém, nunca impediu que aparecessem outros líderes no mesmo grupo. Esses foram o mecanismo, segundo Freud, de um líder civilizatório.

Na Idade Media o poder da lei, segundo uma analise freudiana, que estava antes sob a jurisdição do líder, que representava o pai simbólico (a Igreja e o Estado), o devir edípico, um pai primitivo (concreto), onde a pulsão de vida e o conceito de vida era manter viva a jurisdição e manter a soberania desse Líder. No entanto, essa pulsão de vida é transferida, ao longo do século XVIII para a instituição (um devir edípico, um pai simbólico), ao passo que a instituição, simbolicamente, passa a representar o pai (simbólico) do indivíduo, que antes se inspirava em um líder, haja vista que a instituição representa o controle, a disciplina, a punição ao indivíduo, tal qual um pai (material).

A sociedade disciplinar descrita por Foucault tinha como função vigiar, controlar e punir, torna-se o pai dos indivíduos. No entanto a pulsão de vida passa a ser manter viva a instituição, através do discurso edípico, pois além de vigiar e punir, a instituição também curava (hospitais) e protegia (exército).

A instituição é o lugar onde o indivíduo constrói e afirma a sua identidade, pois ela determina as regras, manipulando os hábitos e ditando o aceitável e o inaceitável. Há uma relação edípica com a instituição, pois somos parte dela, ela esta presente na vida do indivíduo do nascimento até a sua morte.

Para o indivíduo vinculado a uma instituição, a pulsão de vida se constitui através da recompensa social, através da labuta, o prazer em longo prazo, que faz com que o indivíduo sinta o gozo de ter seu instinto organizado, e através da “recompensa divina” receba do dom da imortalidade, representada de forma simbólica, pois não desperdiçando um tempo de Deus que é contado pelos homens, é ter disciplina.

Durante a transição da sociedade disciplinar, descrita por Foucault para a sociedade de controle, descrita por Deleuze, há uma sublimação para o bom convívio social, e uma modificação da pulsão de vida.

A pulsão de vida, ao longo da transformação da sociedade nesse período (o final da primeira metade do século XX), além de manter as instituições vivas, passa a ser também a necessidade da competição. A fábrica, de certa forma, além de produzir produtos, produziu também empresas, onde nasce uma política de mercado, uma certa concorrência, e disputa de consumidor, tal qual fala Lipovetsky (2007), e dentro da instituição (empresa), há também a competição, pela recompensa (o salário).

A sociedade de controle, traz consigo a tendência consumista para a sociedade ocidental, fazendo com que essa sublimação seja inserida através de práticas discursivas em regras civilizatórias, promovendo assim o incentivo à competição, colocando o outro como inimigo (simbólico), e dificultando a tarefa de autopreservação e adaptação do Eu, e assim, a libido que pulsiona a vida, é canalizada psiquicamente para o consumo. Freud analisa que;

(...) quando consideramos, o quanto fomos mal sucedidos exatamente nesse campo de preservação do sofrimento, surge em nós a suspeita de que também aqui é possível jazer, por trás, desse fato, uma parcela de natureza inconquistável – desta vez, uma parcela de nossa própria constituição psíquica. (Freud, 1974:105)

A competição do indivíduo com o outro, e a necessidade de autopreservação do Eu, faz com que durante esse período, em que o consumo e a labuta, são impostos pelas instituições como discursos civilizatórios, o indivíduo anseie pelo modelo de vida que a sociedade enaltece, oferecem, e fazem com que o indivíduo trabalhe arduamente para conseguir, como uma forma de preservar o Ego. A retórica imbuída no devir Edípico da sociedade Hiperconsumista, é a retórica da busca pelo bem estar, e o conforto social.

É interessante se perguntar, se as tecnologias, e os padrões de vida oferecidos, ao longo do século XX e XXI, surgiram a partir do desejo do indivíduo, ou se o indivíduo o desejou após terem sido inseridas as práticas discursivas de desejo nesses modelos sociais. No entanto, o desejo social trouxe ao longo desses séculos um grande conforto e “bem star” social para a classe privilegiada, e um grande avanço tecnológico.

No entanto esse modelo de vida, o “bem estar” social, trouxe um desejo de labuta, e um anseio pelo ideal de vida perfeita para as classes menos privilegiadas. Lipovetisky (2007) afirma que apesar de se falar tanto em “felicidade”, nunca houve tanta falta de saúde mental como no século XX e XXI. De acordo com Lipovetsky;

A imensa maioria se diz feliz, contudo a tristeza e o estresse, as depressões e as ansiedades, formam um rio que engrossam de maneia inquietante. Majoritariamente, declaramo-nos felizes pensando que os outros não o são. (...) jamais os “distúrbios de comportamento” (entre 5% e 9% dos jovens de 15 anos) e as doenças mentais destes estiveram tão disseminados (...). Somos cada vez mais bem cuidados, o que não impede que os indivíduos se tornem uma espécie de hipocondríacos crônicos. (...) As solicitações hedonísticas são onipresentes: as inquietudes, as decepções, as inseguranças sociais e pessoais aumentam. Aspectos fazem da sociedade de Hiperconsumo a civilização da felicidade paradoxal. (Lipovetsky, 2007:16 e 17)




Durante a primeira metade do século XX o consumo era uma prática fútil, supérflua, na qual não era acessível a todas as classes sociais, e já na segunda metade do século XX e início do século XXI, o consumo torna-se uma necessidade mundial, causando grandes transformações sócio-culturais e a transformação da pulsão de vida, descrita por Freud.

No entanto, se há um boom no consumo, há o fenômeno denominado por Lipovetisky de Hiperconsumismo, hipoteticamente posso dizer que há um boom na competição, e com  isso se a pulsão de vida, no indivíduo, não é bem sucedida, segundo Freud, ela é convertida para a pulsão de morte (Thánatos). O consumo e a competitividade emocional podem trazer um conflito psíquico, e convertendo a pulsão de vida em pulsão de morte.

Conceito de pulsão de vida passou a reunir pulsão libidinal e autopreservação do Ego, já a pulsão de morte compreende a castração libidinal, a não autopreservação do Eu, o que corresponde à loucura, a pulsão da exclusão, a não aceitação social e cultural do indivíduo na sociedade, ou a morte em seu real significado, é assim a pulsão de desunião e destrutividade.

Conforme a análise feita pode-se compreender que a pulsão de morte é um grande obstáculo para a vida em sociedade, pois o ser humano, por natureza, segundo Freud, possui ambas. No entanto, a partir do convívio social, a pulsão de vida é ativada, através das renuncias do instinto animal do indivíduo. A pulsão de Eros é ativada a partir do outro (o convívio social), e parte da energia destrutiva do indivíduo (Thanatos), tende a ser renunciada para que haja o convívio em sociedade, assim essa renuncia ocorre quando o indivíduo olha para o outro e se compara, e tende a querer ser mais, ou igual.

Conforme analisa Lipovetsky (2007), o indivíduo, através dos mecanismos de consumo, tende a aderir e a se identificar a várias formas de consumo, para que de certa forma se realize e se complete. É ai que ocorre mais uma transferência do devir edípico; ou seja, o devir edípico que na Idade Média era recalcado para o líder social (o estado e a Igreja), e com a instalações de instituições, há uma transferência desse devir para as instituições, e no final do século XX, esse devir edípico vai tomar conta dos modelos de vida consumista, no ideal de felicidade e conforto. O devir edípico passa a estar para o padrão econômico social. O pai simbólico passa a ser o padrão consumista, que é criado pelas instituições (pai material).

Assim como a instituição, vigia, controla, pune cura e protege, o consumo desperta o fetiche, que tanto fala Freud do desejo do filho Édipo pelo amor da mãe, e para obtê-lo se inspira no pai, entretanto, o fetiche passa ser o consumo; o indivíduo consome, pois agrada o convívio social, renuncia a pulsão de morte (a destruição do Eu no convívio social), aguça Eros, para buscar um ideal de vida inscrito nos padrões sociais, para serem desejadas pelo pai material, as instituições.

Esse fetiche consumista satisfaz o Ego, mas esse princípio de satisfação se inicia a partir do Outro (...) o indivíduo morre mais de seus conflitos internos, mais que a espécie morre de sua luta mal sucedida contra o mundo externo (...) (Freud, 1975: 175).

Assim, compreendo que o outro é parte do nosso mundo externo, e o consumo é o fetiche que pulsiona a vida e o convívio com o outro, ao passo que o outro, no convívio social vai ser notado pelo Eu, e vise versa. Entretanto, o Hiperconsumo, da mesma forma que motiva o indivíduo do século XX e XXI a vida, pode estimular também a pulsão de morte, caso não obtenha seu propósito.

 Segundo Bauman (2003), a sociedade está sempre em uma constante transformação, assim, sendo o sujeito um corpo subjetivo, ele tende a ter sua subjetividade forjada, pelos discursos de nuances culturais, pelos desejos libidinais, que são canalizados para o desejo que está sendo manipulado de acordo com determinada sociedade e sua época, que, no entanto, deterioram seus modos de ser, trazendo assim uma bulimia cultural para novas transformações. O indivíduo transforma-se culturalmente através do consumo exacerbado, e maquiando, assim, as cóleras psíquicas.

De acordo com o autor e psicanalista Benilton Bezerra (2007), em uma entrevista cedida para a revista “Notícias do Brasil”, sofrer é universal no ser humano, mas a maneira de sofrer varia em cada contexto histórico. As transformações, o paradoxo de felicidade, o anseio pelo futuro, e a necessidade da satisfação dos desejos, pode estar  relacionado com as questões da subjetividade humana, e não tão somente na manipulação, ou orquestração argumentada pelos devires.

A subjetividade humana tem aspectos que são universais, que aparecem na experiência de indivíduos pertencentes a qualquer cultura. As instituições são agentes diretos no processo da construção da subjetividade, pois ela dita as regras de convívio social, e dita o que é ou não aceitável. A instituição cria, transforma, molda e manipula a identidade do indivíduo, ela é a influência do reflexo da identidade individual e da relação do indivíduo com o coletivo. Somos em grande parte governados por impulsos e inibições que não dominamos, o nosso desejo libidinal é responsável por grande parte das transformações sociais no indivíduo, e é também um controle remoto manipulado pelas instituições, onde ela impõe as novidades a serem desejadas, produzindo novas culturas, bulimias culturais, verdades, mentiras, fatos e por que não dizer, moldando o percurso social do indivíduo, e enaltecendo através de retóricas imbuídas nos mecanismos econômico-sociais, a aquiescência do desejo individual pelo prazer social.

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