quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

PSICÓLOGOS PODEM DAR CONSELHOS?

“Se conselho fosse bom não se dava, vendia”

Quantas vezes ouvimos esta frase quando alguém dá aquele conselho que ninguém pediu, não é mesmo? Só que muitas vezes as pessoas esperam e até mesmo o psicólogo(a) se pega na iminência de fornecer conselhos (que aqui chamaremos também de regras) de como agir para resolverem seus problemas (e nestes casos as pessoas até aceitam pagar pelo conselho). E aí surge a seguinte questão: psicólogo pode/deve dar conselho para seu cliente?

Alguns profissionais não vêem problemas e outros sim, eu estou com Carlos Augusto Medeiros (2010) que só vê seu uso sendo recomendado em situações bem específicas. Como isto varia entre os profissionais vou transcrever as palavras de Medeiros:

"Em absoluto se pretende esgotar a questão ou gerar um manual que deva ser utilizado por todos de forma incontestável. Trata-se apenas de um levantamento de questões relativas ao uso de regras e os possíveis resultados de seus usos como formas de intervenção."

Mas vamos lá… Primeiramente devemos lembrar qual é o objetivo da terapia: produzir auto-conhecimento e gerar mudanças a partir deste conhecimento. Então talvez a pergunta seja: dar um conselho ou passar uma regra produz que efeitos no cliente em direção a seu desenvolvimento pessoal?

Em alguns casos, principalmente com clientes que ainda não possuem muita habilidade para perceberem o que fazem e as consequências destas ações, pode ser necessário passar algumas regras/conselhos para que o cliente faça alguns testes e comece a analisar melhor as situações, mas estas regras/conselhos devem ser gradualmente substituídos por dicas cada vez menores e mais amplas (o ideal é que o cliente chegue ao final da terapia fazendo suas análises sem a ajuda do psicólogo). A idéia é que o cliente analise e formule, ele mesmo, regras que estejam de acordo com as situações que tem vivenciado.

Agora vamos pensar no caso em que o psicólogo passa aquele super-conselho pro cliente, dizendo exatamente o que o cliente deve fazer. Este, na “melhor” das hipóteses, segue o conselho, faz tudo certo e as coisas ocorrem da “melhor” maneira possível, com o cliente conseguindo o que desejava! E então, Diego, qual o problema do conselho neste caso? Ele fez exatamente aquilo que o Psicólogo disse! Podemos destacar, pelo menos 3 problemas:

1.       Dependência: quem gosta que seu cliente seja dependente? Bem, este alguém certamente não é o psicólogo (ao menos não os psicólogos éticos). O psicólogo deve dar condições para que o CLIENTE aprenda a analisar as situações e pense em alternativas e possíveis consequências por ele mesmo. Senão, a cada novo problema ele virá pedir conselho e aumentar ainda mais a dependência do seu psicólogo. Nunca é demais lembrar: o psicólogo pode AUXILIAR neste processo e não EXECUTAR este processo pelo cliente.

 2.       Insensibilidade: em alguns casos pode ocorrer do cliente passar a seguir esta/este regra/conselho do psicólogo em diversas situações, generalizando o que deu certo em uma situação para várias outras. Só que muitas vezes as situações mudam e o cliente, por estar “mais ligado” naquele conselho/regra perde a sensibilidade de identificar que a situação mudou, persistindo em ações guiadas por tais conselhos/regras.

 3.       Submissão: muitas pessoas foram punidas por não seguirem e/ou discordarem de conselhos/regras, principalmente por figuras de autoridade (MEDEIROS, 2010). Logo, a pessoa seguir o conselho do terapeuta pode ser apenas mais uma amostra de sua submissão diante destas figuras e não um passo em direção a melhora (sim, em diversas situações é bom que o cliente discorde de seu psicólogo!).

 Mas falamos da situação em que o cliente segue o conselho e as coisas dão certo, ou seja, o cliente fica satisfeito com o resultado de sua ação. E se a pessoa agir de acordo com o conselho/regra e der errado, hein? Afinal, nem todas as análises que fazemos estão corretas. Pois é… Este é mais um problema. Caso isto ocorra, esteja preparado para consequências desagradáveis no vínculo cliente/psicólogo(a), simplesmente porque caso o conselho der errado é bem provável que isto traga mais sofrimento para uma pessoa que busca o alívio do sofrimento que já tem.


E quando o psicólogo dá um conselho/regra e o cliente, simplesmente, não segue? Bem, podemos levantar as possíveis consequências:

Formulação de um rótulo de “incompetente”: mesmo concordando com o conselho e sabendo que era “pro bem dele”, ele não o fez e pode passar a se sentir incompetente, podendo diminuir a sua motivação para mudança depois desse episódio. Vale muito mais a pena discutir com o cliente o que é possível naquele momento e de acordo com a realidade dele do que dar um conselho ideal que provavelmente não vai ser seguido (vale a pena lembrar: os conselhos/regras são dados dentro de um consultório, num cenário ideal… Que muitas vezes não é o que o cliente encontra “lá fora”).

2.       “Mentir”: o cliente pode, simplesmente, mentir. Não porque ele seja malvado ou qualquer outro julgamento moral, mas para evitar críticas ou até mesmo ganhar elogios e coisas do tipo de seu terapeuta.

3.       Resistência: alguns clientes podem ser bastante agressivos ao ouvirem alguém lhe dizendo o que deve fazer. Logo, na maior parte dos casos, é muito melhor fazer com que o cliente seja parte integrante da formulação “do que fazer”.

Ou seja, pode ser muito útil dar conselhos, mas em situações bem específicas e com uma função bem diferente de um “conselho de amigo”. De maneira geral, a idéia é fazer com que o cliente não precise deste conselho, e forneça ele mesmo suas regras, de acordo com as suas vivências.

Todo conselho, bem como qualquer ação do psicólogo, deve estar baseado em uma boa análise das funções do comportamento do cliente. Então, clientes/pacientes, nem todo psicólogo que responde uma pergunta com outra pergunta está te enrolando…

" Se o terapeuta está constantemente preocupado em ‘trabalhar para valer’ mais do que o cliente, poderá na verdade comprometer o projeto, não dando ao cliente oportunidade de desenvolver habilidades que lhe permitam lidar com situações e tomar decisões na vida. 
(Zaro e cols, 1977/1980)."



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