segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A PALAVRA EM PSICANÁLISE

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES 
Por Leonardo Cappi Manzini



RESUMO

 
Este trabalho tenta apresentar brevemente alguns pontos importantes a fim de localizar os diferentes lugares da palavra e da linguagem na psicanálise. Situa o valor da palavra como elemento relevante na gênese da psicanálise e da técnica psicanalítica, mencionando as possibilidades investigativas vislumbradas na atualidade pela psicanálise, que ainda possui como ponto central, a palavra. Destaca a importância da palavra na concepção Freudiana e Lacaniana de inconsciente e ainda, assinala alguns apontamentos sobre a relação entre palavra e representação e entre a palavra e os sonhos. A palavra e a linguagem sempre foram e ainda é, um elemento central e próspero do ponto de vista teórico e metodológico para a psicanálise.
Palavras chaves: Linguagem, inconsciente, representação, sonho.


INTRODUÇÃO

Tentarei esboçar alguns pontos que podem servir para situar a palavra na perspectiva psicanalítica, sobretudo, Freudiana e Lacaniana. Visto a complexidade de ambos os autores e da própria Psicanálise enquanto uma teoria completa do sujeito e como método interpretativo de suas vicissitudes subjetivas, vou sublinhar apenas algumas noções gerais sobre as possibilidades de encontro entre a psicanálise e a palavra.  Sabe-se que a relação entre linguagem e psicanálise possui uma longa historia de entrelaçamentos e ressonâncias. No entanto, recentemente fiquei muito interessado pelo assunto isto é, da existência de uma gramática pulsional, de uma linguagem dos erotismos pulsionais, de fixações eróticas organizadoras de nossas defesas e desejos, chamada de erogeneidades. Ou seja, de que cada erogeneidade possui uma linguagem própria, um jogo próprio, estabelecendo uma economia própria de tensão e alívio, necessidade e satisfação.

O mais interessante é que essas vicissitudes pulsionais podem ser lidas pela palavra, na palavra. Pode ser detectada a linguagem e a lógica de cada erotismo e como o sujeito esta inteiramente, implicado ou alienado nessa fixação erótica. Que faz dele o que ele é. Dos casos e categorias clinicas podemos citar as histerias, a melancolia, as adicções, as psicoses, as desvitalizações dos afetos. Todas elas podem ser entendidas como dotadas de uma linguagem erótica falida, tóxica, intoxicante, do ponto de vista psíquico, economicamente falidas. Mas também há uma linguagem erótica por traz de processos exitosos do ponto de vista psíquico, processos sublimatórios, simbolizantes, criativos, inventivos, adaptativos. No entanto não há ou não parece haver uma receita, uma forma correta, uma normalização dos erotismos exitosos e não exitosos e essa não é a tarefa da psicanálise. Sua ética deve ser o principio norteador, e esta ética têm o saber como processo singularizante de descompressão psíquica, de conversão de energia libidinal através de projetos humanos e civilizatórios, edificantes, como diz o psicanalista Jurandir Freire Costa (2009) quando fala sobre o dever da psicanálise diante do contemporâneo e do sofrimento humano.

O estudo das linguagens dos erotismos, dentro da vertente aqui adotada, iniciou-se com o psicanalista Argentino David Liberman (1975, 1979, 1984, 1985) que se interessou pela relação entre linguagem e psicanálise, transitando com segurança teórica e metodológica por ambos saberes. Sua morte interrompeu seus estudos, mas deixou seguidores, atualmente os estudos seguem com o psicanalista argentino  Dr. David Maldawski na Uces (universidade de ciências empresariais e sociais) em Buenos Aires,   conta com um grupo de pesquisadores, como franceses, norte americanos e alemães, Brasileiros, Colombianos, trabalhando em torno de um instrumento de investigação psicanalítica da linguagem ou ADL (algoritmo David Liberman) que detecta através de estruturas-frase, palavras e relatos, as pulsões e defesas psíquicas ou erogeneidades predominantes em um discurso. Tive contato pela psicanálise argentina, mas descobri que Joel Birmam, psicanalista Brasileiro, já há algum tempo, escreveu um livro chamado Gramática Pulsional. E ainda, conhecendo um pouco melhor tal perspectiva, a dos estudos com ADL percebi que trata-se de um viés, um caminho dentro da psicanálise enquanto teoria e método de investigação clinica e psicossocial de processos subjetivos, pois a linguagem e o inconsciente é sempre uma relação, se dá a partir de relações entre pessoas, grupos, personagens, representações.
Segundo Maldawiski (1995) existem alguns erotismos e suas respectivas formas predominantes de linguagem, ou de que para cada erotismo existe uma linguagem própria, correspondendo a sua economia psíquica, seu objeto, sua finalidade, sua representação-grupo, seu desejo inicial e final etc.. São eles, LI libido intra-somática, O1 oral primaria, O2 oral secundaria, A1 anal primário, A2 anal secundário, FU fálico uretral e FG fálico genital. Todos eles, detectáveis pela palavra, frases ou relatos, a partir do ADL (algoritmo David Libermam), isto é manifestos e latentes nas palavras. Cada um deles possui uma cena, um personagem, uma representação-grupo, um ideal, um desejo, uma predominância espaço-temporal.


A PALAVRA E A PSICANÁLISE

Há vários caminhos para se iniciar um texto introdutório sobre a relação ou o lugar da palavra dentro da metapsicologia inaugurada por Freud. Nesse caso, início pensando em voz alta, utilizando a voz silenciosa da palavra no papel, silenciosa, porém vibrante.

Palavra e psicanálise sempre andaram juntas desde o momento inaugural Freudiano. Recentemente deparei-me com a questão da palavra na psicanálise, impressionado pela contemporaneidade com que a psicanálise se mantém diante do próprio contemporâneo, comumente consagrado território das ressignificações, crises e releituras teórico-metodológicas. Sobretudo quando tenta-se  dar contornos ou tencionar a idéia-construção de subjetividade e de sujeito. A Psicanálise encontra-se com fôlego bastante largo para pensar as contingências do contemporâneo, segundo Branco (2009), ela ainda permanece ao lado de Nietzsche, Deleuze, Foucault e Derrida na crista da onda dos modos de pensar o Humano. Possuem sem sombra de dúvidas, valendo-se de vários indicadores, como numero de publicações, estudos, teses, fidedignidade e validez metodológica, envergadura teórica e conceitual capaz de escutar o invisível, o implícito, o recalcado, o inconsciente, o desejo, seja na clinica ou nas relações psicossociais.  Já há algum tempo a psicanálise foi incluída de modo relevante nos estudos sobre a linguagem e o discurso.

Como apontam Pêcheux e Fuchs, no quadro epistemológico da AD articulam-se “três regiões do conhecimento científico”: 1- o materialismo histórico, como teoria das formações sociais e de suas transformações, compreendida aí a teoria das ideologias; 2. A lingüística, como teoria dos mecanismos sintáticos e dos processos de enunciação ao mesmo tempo; 3.  A teoria do discurso, como teoria da determinação histórica dos processos semânticos. (PÊCHEUX; FUCHS, 1997, p. 163-164). Acrescentam ainda esses autores que esses três terrenos teóricos são atravessados por “uma teoria da subjetividade, de natureza psicanalítica”. (PÊCHEUX; FUCHS, 1997, p. 164). É por isso que para a construção do “edifício da AD”, Pêcheux precisou contar com “três pilares”, representados pelas teorias propostas por Louis Althusser, Michel Foucault e Mikhail Bakhtin, além dos escritos de Lacan, que representam o que Gregolin chama de “atravessamento constitutivo”
                                                                                  (GREGOLIN, 2003, p. 31)

Eu diria que a psicanálise enquanto teoria e método possuem um saber sobre a gramática pulsional do sujeito. Possui um aporte teórico e técnico de escuta sobre algo secreto do próprio sujeito, de um aquém da palavra. Secreto por ser um conhecimento restrito e complexo que exige dedicação e sensibilidade, secreto por constituir-se como algo desconhecido pelo próprio sujeito, pois este encontra-se alienado e  estruturado por tais vicissitudes pulsionais inconscientes, alienado no desejo do outro, na insígnia do desejo de ser desejado. A psicanálise através de sua técnica tem acesso ao nível de um discurso secreto sobre o sujeito, sobre aquilo que o constitui, pois detêm a verdade aquém do próprio sujeito consciente. E é nesse lugar de desamparo estrutural que o ser humano tem de se confrontar com sua angústia, e do vazio inventar sua singularidade através da criação estética de seu estilo de viver. Portanto ela deve ser entendida como uma experiência. Para Birmam (2008). ”É assim que entendo a idéia da psicanálise como sendo uma experiência, uma proposta de se re-experimentar de uma maneira diferente. Um convite para sair de si próprio”.

Sem a intenção de mitificar o saber psicanalítico, endoçando-o de caráter mágico, procuro entende-lo ao lado de uma sensibilidade analítica e de uma experiência ético-estética, muito mais do que uma racionalidade cientifica experimental. Para os iniciados na metapsicologia psicanalítica já sabem que o inconsciente e os destinos da pulsão são como estruturantes do sujeito e não podem ser estudados em um laboratório de psicologia experimental ou em estudos psicofisiológicos. Sabem que para a psicanálise pouco importa ser considerada uma ciência nos moldes experimentais. Sabem que a psicanálise possui outras estratégias muito bem fundamentadas e validadas de “escutar” e de estudar o sujeito e o campo das subjetivações.

Para o psicanalista Joel Birman (2008):

É assim que, ao mesmo tempo em que constituiu lugares sólidos de pertinência na universidade, no campo editorial, no campo clínico e institucional psicanalítico, ele faz valer um pensamento inquieto, sempre em movimento, passeando rigorosamente pelos confins. Uma reflexão que sempre desconstrói sólidas certezas para se lançar no magma criativo de invenções renovadas em novos jogos de verdade e de linguagem, que pelo movimento pulsante no qual se constituem ressoam com uma contundente autenticidade.

O método analítico surge com a própria teoria psicanalítica do sujeito, o sujeito inconsciente é escutado e entendido na chamada clinica Freudiana, tendo a palavra como instrumento e via de acesso ao inconsciente. Todos sabem da exaustiva obra Freudiana que lançou as bases de uma metapsicologia do sujeito do desejo. Sabem de seu imenso trabalho e sensibilidade oriunda, sobretudo da clinica, do atendimento de pacientes que por motivos diferentes queixavan-se de sofrimento psíquico e tinham quase todos buscados em outras opções, médicas e místicas, meios para aliviar, curar ou entender sua própria condição. A palavra seria a via do trabalho Freudiano, era ela que possibilitaria ao mestre compreender uma linguagem secreta que fazia do sujeito, sujeito do inconsciente. A palavra pode tornar um homem doente, pode adoecer uma geração inteira de homens, pode encerrar uma civilização? A palavra pode curar, pode converter sofrimento em esclarecimento? A palavra pode nos fazer mais humanos ou mais animais? O que pode a palavra a partir da psicanálise? A palavra se fez carne e corpo na psicanálise, pois a idéia de pulsão, muito mais do que instinto, da conta de uma região fronteiriça entre o somático e o psíquico, ou como prefere Lacan, entre os registros do real, do imaginário e do simbólico, estruturadas como linguagem ou a partir de um processo que tem o outro e a palavra e o afeto como protagonistas fundacionais da economia psíquica.


A PALAVRA E O INCONSCIENTE
El inconsciente está estructurado como un lenguaje”. (Lacan, 1984)

A palavra sempre foi à via do tratamento proposto por Freud, desde o método da associação livre em seu momento inaugural até a interpretação dos sonhos e dos sintomas como acidentes do discurso, a palavra e a linguagem constituíram-se como pontos nodais nos estudos psicanalíticos. Lacan posteriormente, em uma releitura freudiana vai dizer que o inconsciente é pura linguagem, é estruturado por uma cadeia de significantes estabelecendo-se e engendrando ao mesmo tempo uma economia psíquica das forças pulsionais e eróticas, propriamente a história de seus destinos faz-se inerente à história do sujeito sublimatório, neurótico, histérico, abúlico, narcísico, somático etc.

Para Freud a palavra é um elemento que evidencia um conteúdo que excede à consciência, isto é, por meio da palavra Freud da conta do inconsciente e, portanto da própria Psicanálise. Assim a palavra é via de acesso a conflitos internos do sujeito, suas pulsões, defesas e material reprimido. É também a via da cura em psicanálise, pois dá lugar a experiência analítica do sujeito. A palavra quebrada é um convite do desejo, uma possibilidade do sujeito dar conta de algo, de dar sentido àquilo que lhe escapava. A angustia, a incerteza, o inesperado, a crise traz certa ausência de sentido,  de um palavrear que não da conta, tornando-se um mero repetir. Quando a palavra não da conta da experiência o desejo fica em carne viva. A condição de  sujeito faltante vem à tona, nas formas da angustia, do medo, do pânico, mas também do silênciamento, da impossibilidade de simbolização e da desvitalização afetiva. Vejamos um relato de um paciente que queixa-se,  um verdadeiro relato clinico – poético:

Algo parece ter se quebrado, partido, algo já frágil, parece ter sido fraturado, e esta sensação de inundamento que me assola todos os sentidos, me deixando confuso e perdido. Algo em mim parece ter naufragado, Posso secar, posso não dar mais conta de segurar essa enxurrada, de onde vem tudo isso, desconhecia-me. Não sabia ou não queria dar-me conta de que tudo foi e vai para algum lugar, de que sou um oceano inteiro a ponto de estourar. Não sabia que podia me afogar em mim mesmo. Não sabia, não sabia. O que segurava esse mar-adentro também me segurava mar-afora, o que mantinha o tampão no seu lugar?  Qual seu lugar? Lá estou eu, La posso estar, mais do que aqui, nesse deserto, nesse silencio que construiu paredes em mim, verdadeiras celas.  La onde esta o tampão, estou eu, mais do que aqui... porque eu, porque comigo? Porque assim, sem aviso, pelas costas, de surpresa?...

Em um processo analítico, o analista, munido de seu saber sobre a linguagem dos erotismos e suas possibilidades de imersão, sintoma, irrupção, lapso, transbordamento, conduz o analisado, através da palavra, no exercício de um contar, uma retomada da significação e do sentido pelo próprio sujeito. Para que ele retome a palavra e saiba escutá-la, percebê-la se movimentando pelo corpo, pelos afetos, pelas escolhas, pelas decisões, pelos sentimentos. 

O processo analítico, munido de sua ética-estética de re-invenção singularizante dá ao sujeito a possibilidade de retomar seu lugar de falante a partir de sua própria história sem devolvê-lo ao mesmo lugar. Não se trata de uma experiência normativa/normalizadora, mas inventiva, criativa, enunciativa. O sujeito através do analista converte sua força erótica pelo outro em força erótica pelo saber, “é por amor ao analista que é feito o convite ao desejo, mas é o saber que se estabelece objeto do laço analítico e da entrada em analise, de abertura do inconsciente. Dessa forma, a palavra é via de enunciação do sujeito desejante e da possibilidade deste se haver com seu próprio destino ou não.

A palavra é compreendida pela psicologia como unidade funcional da linguagem, assim foi tomada por Freud que, ao investigar processos psíquicos que escapavam aos métodos experimentais e à consciência percebeu nos excessos manifestos na fala de seus pacientes uma linguagem dos processos anímicos inconsciente. Foi a partir das irrupções do desejo inconsciente na fala e na palavra que Freud percebeu as saliências e movimentos do inconsciente, seu aparelho, seu funcionamento, suas manifestações.

Freud descobriu um importante dinamismo que determina a relação inconsciente entre o conteúdo que se oculta excedendo-se à consciência e o conteúdo que se evidencia de forma consciente. Se trata de uma linguagem que supera a palavra mesma e enquanto que a palavra é superada pode-se tratar de uma outra linguagem, de um sem palavras, de um sem consciência, isto se verá re afirmado em Lacan (1984) “ Da a  entender que para além  dessa palavra esta toda a estrutura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente”.
                                                                   Bacerra (2009)


Jacques Lacan adverte-nos uma serie de incidências a respeito da inclusão da linguagem na compreensão do que é o inconsciente. Para tanto, incita um retorno a Freud, ao inconsciente propriamente como o concebeu Freud, em seu continuo esforço de retornar ao real sentido, advertido pelo mestre. Pois, segundo Lacan, tal sentido parecia ter se perdido no decorrer da própria expansão das praticas psicanalíticas. Ao fazê-lo, Lacan estreita as relações com a lingüística, dando maiores contornos ao inconsciente estruturado pela linguagem. Ao valor da palavra e da linguagem nos processos estruturantes, como o papel da linguagem no complexo de Édipo, ou do Édipo na articulação dos registros real, simbólico e imaginário. O faz também situando a relação entre o complexo de castração e a palavra paterna, a lei do pai e a lei da cultura. Lacan também concebe importante lugar da linguagem na estruturação do eu e da corporeidade pelo psiquismo na criança, no que chamou de estádio de espelho, onde se trata de uma experiência com a imagem. Ou seja, Lacan vai distribuir no dinamismo psíquico o valor da linguagem como estruturante do sujeito do inconsciente.


A PALAVRA E A REPRESENTAÇÃO

Freud descobre que os conteúdos inconscientes operados a partir da repressão ou da ordem do reprimido são de caráter representativo, é dizer, que para cada evento traumático vivido pelo sujeito há um afeto e sua representação. Estabelece-se uma distinção entre um e outro, a representação é reprimida e o afeto é suprimido. Nas palavras de Freud (1992) não há afetos inconscientes, mas representações inconscientes, tais conteúdos de representação no inconsciente podem ser evidenciados quando pensamos o conceito de pulsão e de seus representantes, seus destinos. Uma pulsão nunca pode passar a ser objeto da consciência, só a representação como sua representante. Só a representação representa a pulsão no interior do inconsciente, se a pulsão não se adere a uma representação ou não se manifeste por um estado afetivo, pouco podia-se saber sobre elas.

Representação foi tomada por Freud inicialmente como aquilo que forma o conteúdo concreto de um ato de pensamento, da palavra alemã Vorstellung que designa “ o que um se representa” e ainda como a produção de uma percepção anterior” (Laplanche, Jean. & Pontalis, Jean-Bertrand, 1987:367). Mas Freud faz um uso diferente do termo trazendo-o para dentro do inconsciente e de sua manifestação, sobretudo na clínica das histéricas               (caso Dora, menino dos lobos, caso hans). Para Freud, uma representação é aquilo que através do objeto se inscreve  nos sistemas mnêmicos  (traços mnésicos: exper. de satisf+obj+outro= traço/repres).  Para ele representação não se trata de uma impressão que guarda apenas uma  relação  de similitude com o objeto, estando sempre amarrado com outros signos, portanto, com outras possibilidades de sentido. Vai além disso, se inscreve criando uma cadeia de significantes, Freud  traz  a idéia de representação da lingüística para dentro da lógica do inconsciente, em sua gênese,  uma espécie de relação lingüística incluída no  inconsciente, sobretudo com a idéia que ademais do inconsciente só há puras representações.  

Já Lacan sublinha “o que adere a realidade é a estrutura do signo”, pois como enuncia Freud, é sempre um signo ligado a outros, por isso, sua apreensão  é possível a partir dos atos de fala ( lapsos, chistes, atos falidos, relatos dos sonhos) evidenciando uma associação de elementos que logram simbolizar o inconsciente, por outra parte o significante (imagem acústica) cobra sentido em sua relação com o significado, que é a idéia que se tem do objeto, e este por sua vez pede sentido ao significante, existindo uma relação recíproca entre eles, uma relação econômica do ponto de vista do psiquismo.

Assim a palavra muito mais que a materialidade do som ou coisa puramente física trata-se da imagem acústica como significante, com caráter psíquico, como testemunho de nosso sentidos, assim, imagem acústica e representação se articulam, uma em processos conscientes e outra a nível inconsciente.

Se observa entonces, algunos puntos en común y de divergencia, como es el caso de que los dos son de carácter psíquico, sin embargo, mientras uno advierte un elemento psíquico inconsciente, el otro uno psíquico consciente, pues, la representación en Freud da muestra de aquello que del objeto se inscribe en el sistema mnémico, como un contenido reprimido,  inconsciente.
                                                                   Bacerra (2009)


Freud desconhecia os postulados da lingüística de Saussure, embora podemos constatar certas aproximações posteriores, deve-se considerar que trata-se de um olhar sobre a relação entre psicanálise e linguagem, de como estas duas disciplinas passaram a ressoar uma com a outra, tencionando conceitos, autores e lugares teóricos.

A relação proposta entre inconsciente e linguagem tornou a palavra objeto de dois saberes distintos inicialmente, devendo tanto um como o outro ser incorporada por ambas as disciplinas.

Sabe-se que o advento da Psicanalise provocou um amplo debate na época, revisando conceitos, teorias e abordagens. No cerne desse debate estava a questão da linguagem, do signo, da palavra, do sujeito como sujeito da linguagem. Nesse sentido,  a obra de Lacan  parece conter alguns pontos importantes segundo  Fabian Bacerra (2009).

Lacan establece un revés del signo lingüístico, enunciando la primacía del significante sobre el significado, como elemento que se inscribe en lo inconsciente, determinando el estatuto del sujeto como sujeto del lenguaje, pues, al respecto Lacan (1985) reafirma diciendo: “El inconsciente, a partir de Freud, es una cadena de significantes que en algún sitio, se repite e insiste para interferir en los cortes que le ofrece el discurso efectivo y la cogitación que él informa.” (p.779).
                                                                   Bacerra (2009)

A PALAVRA E OS SONHOS

Sabe-se da importância  dos estudos sobre os sonhos para a psicanálise, foi através dos sonhos que Freud descobriu os mecanismos que regem o funcionamento  do inconsciente, sobretudo os mecanismos de condensação e de deslocamento de material psíquico, da pulsão e seus representantes. Sabe-se que no sonho há uma distinção entre o conteúdo do sonho e o pensamento do sonho, isto é entre o que é latente e o que esta manifesto. “Pensamiento del sueño y contenido del sueño se nos presentan como dos figuraciones del mismo contenido en dos lenguajes diferentes.” (Freud, 1901:285).

A partir dessa distinção entre o latente e o manifesto nos sonhos e diante da conhecida proposta analítica de interpretação dos sonhos como um dos elementos mais notáveis da experiência psicanalítica do sujeito do inconsciente, podemos encontrar-nos de novo com a linguagem e  a palavra em psicanalise.Isto é, com seus diferentes registros no sujeito. Ou seja, de que há um aquém da palavra, de um sem palavras que pode vir à tona como um acidente no discurso do sujeito falante. De que há duas linguagens articuladas que podem se desencontrar, ou se re-encontrarem. O sonho e  suas imagens desconexas, aleatórias, impressionantes e fantásticas, sem barreiras, possuem para a psicanálise o valor de mensageiros de uma linguagem que ainda não veio á tona pela via da palavra.

Para Freud, o conteúdo do sonho carece de sentido, sua imagem pouco pode trazer sobre conteúdos inconscientes. Estes, só serão válidos quando o sujeito sonhante se pôe a falar sobre o seu sonho em um processo de analise. Não se trata de interpretar as imagens do sonho, elas por si só, são estéreis, carecem de sentido. Já as palavras que tentam preencher esse vazio de sentido implicam outra parte do trabalho do sujeito sobre si. É trabalho para o sujeito  interrogar-se quanto ao conteúdo de seus sonhos, trata-se de simbolizar a imagem. Ao fazê-lo, o sujeito aceita o convite do desejo e com ele pode flertar aquilo que irrompe do reprimido e esta entrelaçado ao sintoma e  a queixa, a sua dor.  

Todos nós sonhamos cotidianamente, pouco damos de importância a eles, isso quando aparentemente tudo vai bem, do ponto de vista  psíquico. Mas é interessante quando pensamos na hipótese de  que fazemos sonhos, as vezes, em algumas situações ou momentos na vida que parecemos fabricar sonhos que estão inteiramente relacionados ao que vivemos quando acordados. O sonho parece nos comunicar  de algo que esta  debaixo de  grossas camadas de contenção, grossas camadas de representações que parecem estar em processo de falência ou de transformação, que parecem vacilar diante do reprimido. O sonho carece da palavra acordada, portanto é preciso que tomemos um exemplo, um campo de acontecimentos na vida de um sujeito, onde o sonho assume esse papel de mensageiro de um aquém da palavra.

Nesse sentido, podemos mencionar  os sonhos somáticos, isto é, os sonhos para aqueles que estão acometidos por alguma enfermidade ou ameaça de um agravamento propriamente orgânico, do real do corpo. Para esses, os sonhos parecem falar de certa verdade do corpo, parece dizer algo do corpo que ainda não o atravessou, no que há de real do corpo, isto é, sua organicidade. Mas antecipa a necessidade de escutá-lo naquilo que ele tem de mais silenciado, pois há em muitos casos, um corpo silenciado, um corpo que possui sua corporeidade inerte, silenciosa. Dessa forma o sonho parece irromper-se quando as defesas dormem, vacilam. Parecem trazer à tona através da imagem algo da ordem da denuncia, da delatação, algo da ordem do desejo, que pode ou não impor-se como um trabalho psíquico para o sujeito. De qualquer forma, trata-se de certa comunicação, de certa via que carece de sentido, e que esse sentido só o sujeito pode atribuir. Os sonhos possuem algo de comunicativo, portanto de uma linguagem.

Por tanto, el sueño advierte elementos del lenguaje, simplemente por el hecho de tratarse de elementos mediados por representaciones simbólicas donde se evidencia el deseo, pues, hay que recordar que los sueños son la manifestación de éstos. 
                                                               Bacerra (2009)

Para ir encerrando, até aqui, um assunto quase inesgotável, devemos entender a partir dos postulados de  Jacques Lacan e a importância que deu aos sonhos em uma releitura de Freud sobre o valor da palavra. Lacan concebe o inconsciente como linguagem através dos estudos sobre os sonhos. Como vimos, o sonho possui um conteúdo manifesto e outro latente, e que possui certo valor de mensageiro.
Nos sonhos, o conteúdo manifesto é na realidade um disfarce do conteúdo real, ou seja, as manifestações psíquicas possuem em comum a faculdade de significar outra coisa do que significam imediatamente. Portanto, é justa a idéia de que o sonho é um discurso disfarçado, encoberto, condensado, deslocado, que o sujeito não logra decifrar senão com a ajuda de um processo associativo que se dá pela palavra. Lacan concebe  importância  às características da linguagem que possuem os sonhos, estabelecendo uma analogia a partir dos mecanismos de condensação e de deslocamento com os da metáfora e da metonímia, próprios da lingüística.
Com isso, pode-se concluir que, no inconsciente ocorrem uma serie de  sistemas de representações, e este sistema alude  uma ordem ou organização sobre uma relação de signos que determinam tal conteúdo composto de representações. Sendo desta maneira uma relação de linguagem no inconsciente, onde estes conteudos se manifestam como uma especie de mensagem a descifrar, devido ao fato de que, no sonho se adverte o particular no signo, na imagen, na cena, como um elemento onde se condensan e se deslocam varios sentidos devido  se encontrarem imersos em uma linguagem inconsciente, em uma linguagem feita de representações, de representantes da pulsão e outra linguagem feita de palavras. Freud interpela de entrada o sonho em referencia a um sistema de elementos significantes análogos aos elementos significantes da linguagem. Desde Freud podemos pensar em uma relação coextensiva entre o sistema ou estrutura do inconsciente com o sistema ou estrutura da linguagem, assemelhando-se a determinação lingüística do termo.


BIBLIOGRAFIA

ALGUNAS CONSIDERACIONES ACERCA DEL LENGUAJE EN EL PSICOANÁLISIS: Fabián Becerra,Psicólogo, Universidad Autónoma de Bucaramanga (UNAB). Fundador y miembro del semillero de investigación: Sujeto y Psicoanálisis, de la UNAB. Estudiante de Filosofía de la Universidad Industrial de Santander.Correo electrónicofabian.bfuquen@gmail.com Ciudad: Bucaramanga - Colombia.
Dor, Joël. (2000). Introducción a la lectura de Lacan. El inconsciente estructurado como un lenguaje. Barcelona, España: Gedisa editorial.
Freud, Sigmund. (1991). Interpretación de los sueños (1900). En: Obras completas. Vol. 4. Buenos Aires, Argentina: Amorrortu  editores.
Freud, Sigmund. (1992a). Justificación del concepto de lo inconsciente.  [Lo inconsciente (1915)]. En: Obras completas. Vol. 14. (1914-16). Buenos Aires, Argentina: Amorrortu  editores.
Freud, Sigmund. (1992b). Sentimientos inconscientes. [Lo inconsciente (1915)]. En: Obras completas. Vol. 14. (1914-16). Buenos Aires, Argentina: Amorrortu  editores.

Um comentário:

  1. Olá, Leonardo. Gostei muito do seu artigo e gostaria de cita-lo em meu trabalho, se você concordar. Você tem ele publicado em alguma revista?
    Obrigada! Adriana

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