quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO E HUMANISMO



DIAGNÓSTICO PSIQUIÁTRICO E HUMANISMO: UMA CONFUSA RELAÇÃO DE TRABALHO.

Há um discurso muito comum, visto entre os adeptos do humanismo (em especial, os que se envolvem com questões de Saúde Mental), de que os diagnósticos psiquiátricos sejam meros rótulos, cuja função seria despersonalizar o sofrimento alheio e enquadrá-lo em um modo de medicá-lo. Em verdade, o que pode ocorrer é cairmos em uma armadilha conceitual que criamos em torno de um discurso pré-definido por nossa comunidade acadêmica: o modismo de ser contra a todo e qualquer discurso psiquiátrico no campo da saúde mental.

 Antes de continuarmos, é importante que fique claro que não adentraremos no campo conflituoso das políticas de intervenção em Saúde Mental. Mas se fazia necessário explicar como o “senso comum acadêmico” tem se posicionado de modo preconcebido (preconceituoso), sem se por a crítica ás críticas feitas a determinadas práticas. É fato que há muito o que se discutir quanto validade ou não da psiquiatria, mas este assunto envolve muitos poderes político-econômicos, que não é foco desta coluna. Deixo a cargo dos colegas.

O diagnóstico psiquiátrico pode tanto servir de instrumento de controle, manutenção ou assistencialismo social, como emancipação dos sujeitos frente ao seu sofrer, a indeterminação do que se sente/sentia. A questão é: como nós lidamos com este fenômeno de diagnosticar?

Uma faca não é nem boa, nem ruim. Uma faca é um instrumento de metal com cabo de madeira, geralmente. Porém, seu uso é diversificado por: 1) quem o utiliza; 2) quando o utiliza; e, 3) para que o utiliza. Uma faca, deste modo, pode ser entendida como arma braça cortante e perfurante, muito utilizada em furtos e atos ruins para a sociedade, como pode ser entendida como um utensílio doméstico que auxilia uma mãe/pai no preparo de alimentos para a sua família. Então, compreendendo que não podemos dar um valor/sentido/significado a priori para um objeto no mundo, como a faca, poderíamos dizer que o diagnóstico é uma forma de rotular as pessoas e torná-las, pura e simplesmente, em personificações de sua doença? Acredito que não.

O que devemos fazer é uma epoché frente aos atos de diagnosticação feitos nas instituições. Epoché é uma postura que devemos tomar frente aos fenômenos do mundo para compreendermos estes de modo menos preconcebido possível. Seria a suspensão dos nossos valores a priori para compreendermos o fenômeno mesmo, que se dá ali, ser aí, e não como repetição do que já foi vivido. Em outras palavras, devemos compreender como o diagnóstico influencia na vida do sujeito e como é feito nas instituições. Não há como prevermos 100% se este é usado como instrumento norteador das ações profissionais (de modo coerente, político e ético) ou se é apenas uma manutenção do sistema institucional (catalogar em tabelas e gerar dados ao governo) sem um projeto terapêutico.

Devemos entender o diagnóstico, não como um mero rótulo, mas como um norteador das ações profissionais dentro de uma instituição. O diagnóstico deve ser tratado junto ao usuário como instrumento técnico-conceitual dos profissionais e não como identidade a que eles (usuários) devem estar submetidos. É apenas uma “fotografia” de um determinado momento da vida de um sujeito e não uma constante que deve se perdurar em seu existir. Mesmo que o diagnóstico não identifique a história de vida singular de um sujeito, ela pode auxiliar o profissional em seus métodos interventivos, sem que este tenha um mínimo de preparo para com o usuário.

Como já foi dito, o diagnóstico é um norteador para o profissional, não um modo de vida para o usuário (identidade). O diagnóstico deve ser um meio de instrumentalizar o profissional, uma forma pela qual ele poderá buscar auxílio em literatura da sua área que trate do assunto e/ou re-experimentar suas experiências de intervenção anteriores. Mesmo que a postura de suspensão dos valores (epoché) seja importante para compreender a singularidade do diagnosticado, é preciso que o profissional tenha um suporte interventivo. Não adianta somente compreender os fenômenos, é preciso que sejamos profissionais aptos a promover ações transformadoras na vida dos usuários.

Concluindo, o diagnóstico não é o monstro que pintam, nem pode ser visto de modo naturalizado. O diagnóstico é uma ferramenta em Saúde Mental e como toda ferramenta, seu uso depende de nossas ações. Saibamos o que fazer, quando fazer e, se preciso, nos desfazer deles. O diagnóstico é um campo interdisciplinar, logo político. Tenhamos responsabilidade no exercício de nossa profissão. O diagnóstico pode ser um ato médico, mas que não deixemos de dialogar com estes e propormos conjuntamente com estes formas de intervenção transformadoras. Não nos fechemos em nossas perspectivas psicologizadoras do mundo. Transformemos os instrumentos que nos transformam!

Um comentário:

  1. Ja recebi um duagnostico psiquiatrico que deixou minha mae de cabelo em pé, ela sem saber achou q eu era louco por ter recebido diagnostico f-60, transtorno de personalidade..... na epoca eu estava agindo como tal, nao que eu seja pra sempre. nao assumi essa identidade de f-60, hoje depois de tratamentos e psicoterapia tenho uma vida social normal.

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