domingo, 15 de janeiro de 2012

"Por que o sexo é divertido?"

É DIVERTIDO DE LER!


                                                                   Por que o sexo é divertido?, de Jared Diamond


Maria Emília Yamamoto
Universidade Federal do Rio Grande do Norte





A Psicologia Evolutiva vem ganhando espaço nas rodas de discussão dentro e fora da academia, especialmente no que diz respeito aos seus desdobramentos para o comportamento humano. Há, no entanto, uma escassez de bibliografia em português que trate este assunto de forma científica e ao mesmo tempo acessível. O livro "Por que o sexo é divertido?" de Jared Diamond vem preencher esta lacuna.

O autor aborda vários aspectos da sexualidade humana, tais como a privacidade do sexo, a batalha dos sexos, a lactação exclusivamente feminina, o sexo como diversão, os papéis masculinos, a evolução da menopausa e dos sinais físicos. Ao abordar estes aspectos, Jared Diamond explora como e porque a vida sexual da espécie humana difere, em vários aspectos radicalmente, da de outros animais. Para explicar estas características distintas o autor apela para razões evolutivas, recorrendo freqüentemente a estudos realizados com animais e relatos antropológicos da cultura e costumes de sociedades primitivas.

O autor inicia o livro com uma descrição do que denomina de "comportamento sexual bizarro dos seres humanos": a reunião de pares em um longo relacionamento, o cuidado dos filhos pelos dois parceiros, a vida em território comum a outros casais e membros avulsos dos dois sexos, o sexo privado, a ovulação oculta, a ocorrência da menopausa e a atividade sexual constante, sem relação com períodos de fertilidade. Diamond chama a atenção para a diferença entre estas características do comportamento humano e o de outras espécies animais. Lembra, é claro, que este comportamento, em vários de seus aspectos, é semelhante em alguns poucos animais, e também que, embora estes padrões representem a norma, todos conhecemos as freqüentes transgressões a ela. Embora exagerando na singularidade do comportamento sexual humano, Diamond lembra que o desenvolvimento de determinadas estratégias sexuais é o resultado de pressões ecológicas e restrições biológicas em qualquer espécie.

No capítulo seguinte, o autor examina o que chama de a guerra dos sexos, e usa como motivo, o tema em que, talvez, machos e fêmeas mais divergem: o cuidado à prole. Tomando a precaução de lembrar que o cuidado à prole, como qualquer outro comportamento, está sujeito às leis da seleção natural, Diamond discute a influência de três aspectos da reprodução sobre o conflito entre machos e fêmeas: o investimento no ovo ou embrião, a existência de novas oportunidades de reprodução e a confiança na paternidade/maternidade. Vários exemplos desse conflito em animais são discutidos e também exceções à norma mais freqüente que é a do cuidado pela fêmea. Finalmente examina a guerra dos sexos no ser humano, com ênfase na diferença no potencial reprodutivo dos dois sexos. Faltaria, aqui, uma discussão mais ampla dos mecanismos adaptativos desenvolvidos por homens e mulheres para lidar com essa questão, hoje em dia relativamente bem conhecidos, como os descritos por Baker e Bellis (1989, 1993a, 1993b) que poderia enriquecer bastante esta seção.

O capítulo seguinte é talvez o mais instigante, embora, provavelmente, o que apresenta a fundamentação menos consistente. Diamond lembra que a ausência de lactação em machos não é estrita - e já foi descrita sob estimulação hormonal em algumas espécies de mamíferos, o homem inclusive, e espontaneamente, em outras espécies. Porém, há um salto enorme, que as evidências disponíveis não suportam, para a conclusão de que nossa espécie é candidata a desenvolver, no futuro distante, a lactação masculina. Embora o autor elabore um caso em favor dos benefícios da lactação masculina humana, ele não explora os dados de, ao menos, um grupo animal por ele citado, os sagüis, que certamente são candidatos muito mais adequados ao desenvolvimento da lactação pelo macho, pois este se envolve no cuidado de forma intensa e tem seus níveis de prolactina (hormônio que na fêmea induz e sustenta a lactação) aumentados durante o cuidado e até mesmo antes do nascimento dos filhotes quanto é um pai experiente (Mota & Sousa, 2000; Ziegler & Snowdon, 1997). Nem por isso há qualquer evidência de que esses machos estejam a caminho de começar a ajudar suas parceiras a amamentar os filhotes. Parece-me, pois, que Diamond, com seu entusiasmo, leva a especulação além do que os dados lhe permitem.

A evolução do sexo como diversão é o que o autor discute em seguida. A ovulação oculta e a receptividade constante das fêmeas humanas são apontadas como o mecanismo que a evolução selecionou para a ocorrência de sexo freqüente e sem relação necessária com a reprodução. Mas, por que isto seria vantajoso do ponto de vista evolutivo? Duas teorias são discutidas, a do "papai-em-casa" e a dos "muitos-pais", optando o autor pela primeira, após uma longa discussão da evolução da ovulação oculta em mulheres e fêmeas de grandes primatas.

Os homens não apreciarão muito o capítulo seguinte que tem como título "Para que servem os homens?". Nele, Diamond discute os papéis femininos e masculinos na criação e provisão dos filhos e chega a conclusão que a contribuição da mulher é a que sustenta a família e a do homem é a que sustenta sua vaidade ou seus privilégios. A maior parte das evidências vem de estudos antropológicos e os Aché, como em todas as outras discussões deste tema, estão entre os mais citados. No final do capítulo, o autor faz uma discussão da sociedade moderna e destaca alguns aspectos que do seu ponto de vista aproximam os homens Aché dos homens ocidentais modernos. Talvez, aqui, uma discussão sobre o descompasso entre o ambiente da evolução desses comportamentos e o ambiente no qual ocorrem hoje pudesse ajudar a esclarecer a questão. A evolução da menopausa e dos sinais físicos completa o livro.

Este não é um livro científico e o autor certamente não se propõe a tanto. Por isso, ficará desapontado quem for procurar por um livro que cite referências, que mostre uma linguagem precisa e que se preocupe em fundamentar claramente cada uma de suas conclusões. O livro não serve e nem pretende servir a este objetivo. Ele é dirigido ao leitor leigo, ao profissional ou aluno de graduação e pós-graduação, que quer ter uma introdução ao tema. É com este espírito que ele deve ser lido. Porém, mesmo assim, alguns cuidados poderiam ser tomados. 

Primeiro, com a tradução, louvando porém a editora Rocco pelo provimento de uma revisão técnica e lembrando que esta tradução está melhor que a da maioria dos outros livros da área. Mesmo assim, há alguns deslizes: "cópula de pares-extra" para extra-pair copulation (cópula extra-par), "poliandria de inversão de papel sexual", que talvez poderia ser melhor traduzido por "poliandria com inversão dos papéis sexuais", investimento parenteral no índice remissivo em lugar de investimento parental tal como aparece no corpo do texto, "polígena" em vez de "polígina" - e alguns poucos outros termos. Embora menores, essas imprecisões podem ser bastante prejudiciais para o leigo ou para quem se inicia. Entre os livros recomendados, foram mantidas as referências inglesas e americanas quando, pelo menos três deles, já foram traduzidos para o português. A indicação poderia ajudar o leitor que não lê inglês.

Mas, tudo isso considerado, este é um livro que vale a pena ler. Pelo menos para descobrir que há outras atividades, além do sexo, que são divertidas. Como, por exemplo, ler o livro.






Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-294X2000000100013&script=sci_arttext

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