quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

PATERNIDADE NA ADOLESCÊNCIA

VULNERABILIDADE DE GÊNERO PARA A PATERNIDADE EM HOMENS ADOLESCENTES




Apesar da ênfase sobre a inclusão dos homens como 
sujeitos dos processos reprodutivos, ainda há predominância de estudos com mulheres na produção científica brasileira sobre relações de gênero. Especialmente em relação à gravidez na adolescência, é comum tomar-se quase como sinônimo a questão da maternidade nesse período da vida, pouco se abordando a paternidade 
adolescente.

Em estudos brasileiros que incluíram homens adolescentes,a perspectiva dos que se tornam pais difere daquela das mães adolescentes, bem como as conseqüências distintas da gravidez em sua trajetória de vida. Heilborn et al também apontam que a maneira como mulheres e homens adolescentes vivenciam uma gravidez nessa etapa da vida também depende de diferenças de classe social.

As diferenças quanto à perspectiva de mulheres e homens adolescentes em relação à gravidez remete ao conceito de relações sociais de gênero que se tornou uma das ferramentas essenciais na análise das questões de saúde sexual e reprodutiva. Olhar esse fenômeno através das relações de gênero permite situá-lo em seu contexto social, para além dos aspectos biológicos e epidemiológicos.

Como resultado de estereótipos de gênero, observa-se com freqüência que a percepção masculina e das instituições sociais é de que os homens não são os atores principais dos processos reprodutivos, embora ocupem uma posição privilegiada de poder no exercício da sexualidade, em detrimento das mulheres.


Os papéis sociais de gênero são aprendidos desde a infância e se consolidam ao longo da adolescência, quando a pessoa busca estabelecer sua identidade e planejar mais concretamente o futuro, de forma autônoma.


Isto pode significar, dependendo do contexto socioeconômico e cultural, que os homens adolescentes venham a se expor a diversos riscos associados a uma visão tradicional de seus papéis de gênero. Como exemplo, citam-se o contágio de doenças sexualmente transmissíveis, inclusive Aids, paternidade, violência, dependência de drogas e acidentes de trânsito, entre outros.


Nesse mesmo sentido, no âmbito das relações de gênero, a percepção que os homens adolescentes têm de sua heterossexualidade obrigatória e dos requisitos sociais para que sua masculinidade seja reconhecida refl etemse nas situações concretas de sua vida. Esses aspectos podem se constituir em fatores de vulnerabilidade para a paternidade na adolescência. A partir dessa hipótese, o presente estudo teve por objetivo avaliar as relações de gênero capazes de tornar adolescentes do sexo masculino vulneráveis à gravidez na adolescência.





MÉTODOS


Foi realizado estudo qualitativo, com entrevistas semi-estruturadas, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, em 2003. A amostragem foi intencional, seguindo critérios de seleção pré-definidos: homens com idade entre 12 e 19 anos, com um único fi lho de até 11 meses de idade, cuja mãe estava na mesma faixa etária do pai. 


O limite estabelecido para a idade do fi lho visou a enfocar um período em que a criança requisitasse o apoio paterno de forma intensa, demandando suporte afetivo e financeiro paterno. A idade da mãe foi definida para que estivesse vivenciando as mesmas modificações biopsicossociais que o pai. O número de participantes foi determinado pela saturação das informações.


Para a identificação de possíveis participantes, visitaram-se: escolas de ensino fundamental e médio, o Serviço Nacional de Aprendizagem para a Indústria (SENAI), o Instituto Mirim de Campo Grande (IMCG) e a Cidade dos Meninos. Nesses locais alguns adolescentes se ofereceram para participar e também indicaram outros que não tinham nenhum vínculo com as referidas instituições. Porém, observou-se dificuldade inicial de identificar os participantes devido a uma espécie de invisibilidade da paternidade ou falta de evidência física, que levava os diretores e coordenadores a afirmarem que não existiam pais adolescentes em suas escolas. Os primeiros casos só surgiram após contato direto com os alunos. Os possíveis participantes identificados foram visitados em seus domicílios ou contatados por telefone para verificar se cumpriam os critérios de inclusão. Os que cumpriam os critérios foram convidados a participar do estudo e lhes foi explicado o objetivo e no que implicaria sua participação. Os locais para a realização das entrevistas pelos participantes foram escolas, residências e apenas um no local de trabalho.


Os participantes moravam em bairros periféricos e em diferentes regiões da cidade. A maioria deles estudava, cerca da metade cursava o ensino médio. A minoria havia interrompido os estudos antes de completarem o ensino fundamental. Cerca da metade dos pais dos adolescentes eram separados. Um aspecto comum dos participantes foi se auto-classificarem como trabalhadores, metade deles começou a trabalhar quando tinha entre 11 e 12 anos de idade.


Os dados foram obtidos por meio de entrevistas semi-estruturadas individuais, realizadas com auxílio de um roteiro temático que abordou a socialização de gênero e o exercício da sexualidade. As entrevistas foram gravadas, com autorização dos participantes, e logo transcritas. Os textos foram conferidos com os conteúdos gravados, em uma segunda leitura. O processamento e a análise dos dados foram feitos com o auxílio do programa The Ethnograph 5.0.


Para a análise temática do conteúdo foram seguidas as orientações de Minayo: leituras flutuantes sucessivas das entrevistas transcritas para se identificar unidades de signifi cado relacionadas com os objetivos do estudo. A partir desse processo foram estabelecidas seis categorias de análise, dentro de cada uma das quais se agruparam as idéias-chave extraídas da fala dos adolescentes. Neste artigo são apresentados resultados referentes a quatro das categorias, descritas na Tabela 1: socialização de gênero, papeis de gênero, influências de gênero no exercício...




Clique aqui para continuar lendo o artigo


0 comentários:

Postar um comentário