quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Coluna: FORMA

ATENDIMENTO PSICOLÓGICO A CRIANÇAS E ADOLESCENTES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA: UTILIZANDO O ENFOQUE GESTÁLTICO
Por Leticia Santi


Textos, apostilas, manuais, resultados de busca no Google, ou qualquer outra ferramenta de busca na internet acerca da violência que as crianças e adolescentes sofrem são inúmeros.

Porém, quando se trata do atendimento psicológico prestado a estes os resultados se afunilam e em um quesito sempre há concordância: proporcionar bem estar psíquico aos que sofreram violência.

O ECA (Estatuto da Criança e Adolescente) em seu artigo 87, inciso III garante “serviços especiais de prevenção e atendimento médico psicossocial ás vítimas de violência, negligência, maus-tratos, exploração, abuso, crueldade e opressão”.

Assim, em todo país existem programas de atendimento especializado ás crianças e adolescente vítimas de violência.

Em Vilhena, no SEVAESCA (Serviço de Enfrentamento à Violência e Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes) eu atendo em torno de vinte e cinco crianças semanalmente, todas vítimas de violência, seja apenas na forma psicológica, física ou sexual que abrange as duas anteriores.

A Psicologia é uma ciência subjetiva e quando lidamos com o sofrimento do outro que nos procura, o psicólogo deve demonstrar uma postura de acolhimento, ser aquele que proporcionará ao sujeito uma expectativa de melhora, a crença de que algo melhor está por vir e que este sujeito é capaz de ser promotor de seu bem estar psíquico.

E quando falamos em crianças e adolescente vítimas de violência, lidamos com sujeitos que, em muitas das vezes não verbalizam diretamente o que lhes trás sofrimento, ou então, a fazem de forma abrupta ou intimidada e inocente.

Nesse contexto, passei a inserir em meus atendimentos a Terapia Infantil com enfoque Gestáltico, fundamentada pela autora Violet Oaklander (1980), que através de jogos, momentos lúdicos proporcionam ao paciente um espaço de expressão livre de fantasias e sentimentos.

O tempo em que esses pacientes ficam em atendimento varia entre doze e vinte e quatro sessões, de acordo com o andamento das sessões e como a própria autora sugere: “que as crianças não devam permanecer muito tempo em terapia” (Oaklander, 1980, p. 223).

Mas é preciso saber perceber os sinais que estas demonstram o comportamento que melhora segundo relato dos pais ou responsáveis, até mesmo as produções nas sessões podem demonstram indícios que é hora de finalizar os atendimentos.

Em meus atendimentos é comum que as crianças sejam atendidas assim que a violência ocorreu, o que acabo chamando de atendimento pós violência, e em alguns casos, posteriormente, anos mais tarde, esses pacientes voltem a necessitar de novos atendimentos.

A psicanálise, segundo Sigmund Freud, trata os traumas sob a ação do recalque, quando há tendência de “guardar vivências dolorosas que nos causam pesar, vergonha e culpa na nossa mente inconsciente”. (Assis, 2007, p. 52)

Assim, é comum que nos atendimentos pós violência, as crianças e adolescentes acabem por “recalcar” a situação vivenciada, demonstrando aparente melhora e, posteriormente esse trauma retorne causando incomodo e sofrimento.

A terapia infantil de enfoque gestáltico enfatiza que é necessário lidar com o que o paciente trás, seja de forma verbalizada ou demonstrada através do lúdico.

Muitas vezes “a criança não é capaz de exprimir aos pais aquilo que sente porque também estes podem estar aborrecidos com o que ocorreu”. (Oaklander, 1980, p. 275)

E durante o atendimento a criança acaba demonstra de diversas maneiras o que está sentindo. Abordar diretamente o sofrimento da criança ou adolescente faz com que estes se sintam à vontade, livres e tenham um espaço para transbordar sentimentos que os afligem.

As técnicas sugeridas pela Gestalt são diversas: argila, massa de modelar, massa de farinha, água, mesa de areia, colagem, teatro de fantoches, estórias, poesias, desenhos livres, desenhos com tintas, jogos diversos, enfim, a técnica a ser escolhida independe. Geralmente utilizo desenhos livres, fantoches, brincadeiras com bonecas, carrinhos, espadas, jogos de montar onde facilmente a criança expressa o que lhe incomoda.

Com adolescentes é comum no início serem mais introvertidos e pouco verbalizar, mas é crucial deixá-los à vontade para que aquele seja um momento onde eles possam ser apenas eles mesmos.

Trabalhar com essa clientela não é algo que desperte felicidade ou entusiasmo... São atendimentos “pesados”, carregados de dor e sofrimento, mas proporcionar a eles a possibilidade de novos caminhos, de superação faz toda diferença. Não me faz me sentir menos a par do sofrimento do outro, não deixo de achar a violência algo cruel, torturante, mas me faz sentir que posso ser uma profissional que eles irão lembrar que os fizeram acreditar que viver vale à pena, que novas oportunidades de felicidade sempre existirão e o mundo não vai parar diante de tanta violência, mas eles podem mudar o mundo, é só acreditar.

E eu acredito que um dia isso será possível, um dia!

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