sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A MORTE DE UM DITADOR

E O NASCIMENTO DE UM DEUS
Por Dann Toledo




Morreu Kim Jong-il o ex-ditador Norte Coreano. Confesso a vocês que não conheço muito sobre o governo dele, assim como o restante do mundo, tendo em vista a política extremamente fechada de seu país.
Corpo de Kim Jong-il.

Assistindo imagens daquele país em momento de luto, algo nos parece estranho, não é mesmo? Mais de uma semana após a morte dele as pessoas ainda se encontravam desesperadamente em prantos.

Crianças, mulheres, velhos, homens, enfim, todos daquele país estão completamente desesperados, vivendo uma espécie de histeria coletiva. Mas, o que faz com que eles ajam assim? A primeira vez que vi imagens dessa Coréia do Norte enlutada, tive (e ainda tenho) um misto de riso e espanto.

Esse comportamento de extrema veneração segundo a psicanálise cumpre certas carências emocionais e psicológicas que geram uma ligação libidinal com a autoridade, que por sua vez estava encarnada no “líder bondoso”. Se analisarmos a cultura e o meio no qual aquela população tem vivido durante todos esses anos, acreditando ser Kim Jong-il quase um semideus, tendo em vista as fantasias que sempre cercaram a sua vida, desde seu misterioso nascimento numa “montanha sagrada”, até o “choro” das divindades com a morte dele, que fez com que a montanha se fendesse e com isso estremecesse o céu e a terra, vemos assim certa lógica no comportamento dos norte-coreanos.

Para nós que estamos de fora, é muito fácil distinguir toda a farsa e fantasia acerca do “amado líder”, porem se tentarmos enxergá-lo com os olhos de seu povo, que sempre o viram envolto em um carisma extraordinário que o tornou um ser especial para seu país, isso se torna bem mais difícil de ser feito. Esse delírio e essa catarse coletiva nos discursos do líder e o pranto desesperado pela sua morte tem se sustentado num vinculo emocional de mesma natureza, que se estabeleceu com a figura de autoridade atingida à ideal do ego.

Essa espécie de projeção paterna, pode nos explicar como Kim Jong-il ao contrario de outros ditadores no mundo todo, sempre foi um “amado líder” para o teu povo. Isso me remete à obra de George Orwell, e a sociedade utópica que Snowball fazia com que os seus liderados acreditassem estar vivendo.

Mesmo olhando todos esses acontecimentos através da ótica da psicologia das massas, não tem como não nos questionarmos se em tudo isso não há certo fingimento, que aquelas lagrimas sofridas não sejam somente uma forma daquelas pessoas esconderem a verdade de si mesmas. Uma verdade tão insuportável, que elas preferem prantear a morte de seu líder na forma de um semideus, do que encará-la e ter que assumir que não passam de um povo sem identidade própria, que suas vidas foram e ainda têm sido baseadas em uma mentira, em um ideal não ideal.


Um comentário:

  1. A morte por causas naturais de Kim Jong-il, ditador da Coreia do Norte, destaca um fato controverso na história de comandantes repressivos: muitos, se não a maioria, acabam tendo uma longa vida e morrem pacificamente. Aqueles que vivem pela espada não necessariamente morrem por ela.
    Matthew White, que escreveu um livro sobre as 100 piores atrocidades da história (“The Great Big Book of Horrible Things: The Definitive Chronicle of History’s 100 Worst Atrocities” – W. W. Norton & Company, 2011), rastreou o destino dos maiores ditadores do mundo. A maioria, como ele constatou, viveu de acordo com sua expectativa de vida natural e morreram em paz.
    Cerca de 60% dos opressores que fomentaram guerras e foram responsáveis pelas maiores atrocidades do mundo viveram felizes para sempre, pelo menos no quesito saúde.
    Enquanto Moammar Gadhafi foi morto por cidadãos revoltados, Joseph Stalin morreu com 74 anos por um acidente vascular cerebral. 49% dos responsáveis pelos maiores massacres da história governaram até sua morte por causas naturais. 11% se retiraram da política tranquilamente e 8% foram exilados, antes que a morte também por causas naturais chegasse.
    Entre os ditadores que não tiveram um final tão agradável, 9% foram levados a julgamento e executados, 8% foram assassinados, 7% morreram em batalha, 4% foram presos e 4% cometeram suicídio.
    Kim Jong-il morreu aos 69 anos de um ataque cardíaco no último sábado, de acordo com a televisão estatal da Coreia do Norte. Estudos sobre presidentes dos EUA mostram que, apesar das tensões de estar no comando, esses homens vivem tão longamente ou mais que o resto das pessoas.
    Nos países comunistas, de Lênin em diante, os ditadores raramente viam vantagens na idade avançada, se preocupando com a transição de governos.
    Normalmente, quando os líderes começam a ficar doentes, eles falam sobre quem poderia os substituir e apontam para todas as suas falhas. Em geral, eles não aceitam facilmente a morte. O resultado disso muitas vezes é uma luta pelo poder por trás dos bastidores. Por isso, não é fácil para quem vê de fora dizer quem está no comando.
    A morte de Stalin mostra alguns paralelos com a de Kim Jong-il. Apesar da repressão de Stalin, sua morte também foi amplamente lamentada em seu país. Da mesma maneira, imagens da Coreia do Norte mostram cidadãos chorando abertamente em fábricas e ruas.
    É difícil saber se isso se trata de tristeza genuína ou incerteza com o futuro. Os motivos do por que as pessoas ficam comovidas são infinitas, mas esse sem dúvidas é um fenômeno interessante.

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