segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

PSICANÁLISE

Por Leonardo Cappi Manzini



O futuro é a primeira coisa que perde o interesse quando se tem uma doença incurável.” E a sociedade sofre de ambos, não?


Falar de psicanálise fora das agendas acadêmicas e/ou institucionais, dos territórios demarcados por seus “experts”, às vezes restritos e distantes de nossa realidade Fronteiriça é um tanto arriscado. 

Embora seja ao mesmo tempo um delicioso convite, algo fora dessa necessidade positivada de linguagem científica. Espero que o texto toque-lhes algo do sensível, que ao invés de acomodar, incomode! Portanto optei nessa oportunidade, escrever algo mais livre, mais solto, rizomático, nômade.

ENTÃO VAMOS LÁ...

O fato é que não somos tão imediatos assim. Não somos tão previsíveis e nem estamos no controle como tentam nos fazer acreditar, trata-se de uma experiência estruturante a partir do momento que entendemos e não ignoramos nossa condição a partir do conflito original, portanto prescindimos de uma ética.

O eu é como uma bóia num mundo flutuante. Toda a imensidão submersa é o mundo de maior riqueza e multiplicidade, outras linguagens, outras espécies de vida, outras experiências, outros biomas-nixos-redes, outras forças, outras potências. Se é que ainda existem.  O fato de que devemos controlar a todo custo algo que teima que escapa que se repete para além das bordas e das fronteiras que traçamos entre nós e esse algo a mais que a psicanálise enuncia que Freud (1905) chamou de inconsciente, parece ser novamente um imperativo contemporâneo. Tomemos como exemplo a medicalização no campo “Psi”, ela é uma proposta aceitável num mundo caótico e nitidamente adoecido, o medicamento parece ser a única alternativa, pois todo o resto falhou. A vida parece ter encontrado um equivalente meramente funcional e biológico, basta estar indo e vindo, na rua como uma “barata  tonta”, mas funcional, “vivendo”. Quem sabe  sempre foi assim, não!  A idéia de um Humano Racional e Inventivo, dominador, ponto maior da escala evolutiva é herança de um romantismo burguês intelectualista, cortejado pela mística cristã e seu mundo interior transformado em política etc.. Perdeu-se nas Utopias totalitárias, na sociedade de classes, no hedonismo e  na coisificação capitalísticas, esvaiu-se junto com outras idéias e ideais no cotidiano das mercadorias. 

Caiu quem sabe ao nível do corpo, lugar de micro-utopias!

Resta a uma grande parcela da população a mitigação da dor, da solidão, da certeza inexorável de sua finitude meramente funcional, a vida foi reduzida ao seu mínimo biológico como diz Peter P. Pelbart (2008) foi reduzida ao seu resto capitalizável. Bio-ortopedia social e moral, produtividade, entretenimento, uma combinação que beira aos reinos da ficção. Como eu digo; “o passado não é mais preto e branco”, Pode-se pensar, ao ouvir ressoar-nos a sensação de que estamos no rumo certo, “Superamos tudo, diz o “ideal do eu” contemporâneo:

Temos pobreza, miséria, morte, exploração, mais prolongamos a vida para além das expectativas, desenvolvemos as mais audaciosas tecnologias e engenhosidades, dominamos a matéria, a natureza, e agora fazemos o domínio do que nos era mais distante e sábio, produzimos realidades, entramos nos mundos dos perceptos-sensoriais, temos o “grande arquivo”, tudo esta em algum lugar de algum jeito, criou-se uma mega-ecologia maquíno-imagética do artificial, um ecossistema integrando-se e proliferando-se nos tomando o domínio do real e do ficcional, pode-se ver além, o real se multiplicou aos olhos, retornou-se infinito.

Essa é a voz que parece nos inebriar, acreditar que alguém ou alguns devem estar no controle disso tudo, aplaca parte de nosso mal estar.  Que basta gerenciar nossa vida que tudo estará bem. Sinônimo de bem estar e qualidade de vida. Como se, ao gerenciá-la como manda o figurino estaríamos gerenciando o futuro de todos nós. Eis um sentimento do individualismo conectado ou um resquício da co-autoria parricida herdada e transmitida por práticas discursivas (máquinas meta-discursivas), aquele sentimento de culpa e compaixão instaurado pela maquinaria meta-discursiva religiosa? Onde essas duas pontas se ligam, ou nunca foram desligadas?

O Slogan “controle-se que tudo vai dar certo” adquiriu um valor ético-estético, uma versão do cuidado de si no contemporâneo. Volto à Psicanálise tomando de imediato uma entrada. Ela esta contida na afirmação de que o “social é um sintoma” (Jerusalinsky, 1998), e ainda na entrada seguinte, de que o “inconsciente é o social” (Lacan, 1979). Para nos aportar diante da cena referida anteriormente, um fragmento das subjetivações do contemporâneo. O inconsciente se renova, esta sempre nutrindo-se  dos significantes produzidos, investidos pelo social, como social. Como parte, expressão de uma experiência compartilhada, nessa sensação de coletividade, de horda. A fantasmática pós moderna, a fantasmática líquida, efêmera, dá  a linha, no entanto, há a produção do resto,  do algo que persiste, daquilo que escapa, daquilo que resta, do que fica e do que passa. A crise dos significantes sociais parece estar produzindo uma reviravolta nos campos pulsionais, na sua gramática de articulação sintática do desejo. Essa reviravolta é sentida nas novas configurações dinâmicas e econômicas do psiquismo, suas modalidades de sofrer e gozar.

Esse efeito se dá na possibilidade de que, o sujeito, na medida em que desenvolve um auto-monitoramento de seus processos  cognitivos automáticos tenha condições de controlar forças inconscientes que atuam pela mesma via, isto é, pela via dos pensamentos, dos desejos, das intenções, dos gestos, em suma, da linguagem, da necessidade de sentido em torno de um eu. Isso não exclui e  nem desconsidera sua eficácia e legitimidade, apenas serve de alerta a certas posturas dogmáticas no mundo das técnicas “psi”.  Mas voltando ao eu, um eu carece de sentido, é constituído de sentido e pelo sentido, deve por excelência mascarar o sem  sentido, afastá-lo, suprimí-lo. Quem possibilita tal organização é a linguagem, é o mundo da linguagem com sua gramática de encadeamentos de significantes e significados que possibilita ao eu ser uma instancia capaz de enunciar o vivente, o falante, o simbólico, inclusive o sem sentido. Atribui-lhe a capacidade de nomear a si -mesmo como um si e  o outro como outro.

Para ser, estamos sempre em ressonância com os outros, inclusive aquele outro primordial, aquele lado obscuro de nós mesmos, utilizando as palavras de Roudinesco (2010). È  o  outro que nos deseja, é o outro que nos aliena ao seu desejo, e  assim como desejantes de  ser desejados damos sentido ao sem  sentido, pelo menos seguimos enquanto tentamos. Passamos o resto de nossas vidas à procura de algo pra sempre irrecuperável, pra sempre perdido. Achamos aqui e ali apenas suas pegadas, seus furos, seus buracos, alguns indícios de sua existência remota. No apreço de alguns objetos, na vaidade  de outros, todos passageiros, hospedeiros do desejo que nos escapa sempre, mais além, acolá, sempre mais longe, sempre outro, sempre em outro lugar, nômade. O sentido sempre escorre pelos dedos da mão que nos afaga, num estimulante desprezo, naquilo que nos impulsiona. É a linguagem que vem para organizar aquilo que estava sob a égide do corpo, do erótico, é  a linguagem que nos re-inaugura como sujeitos desejantes. Desejantes de sentido, de nexo, de um a  mais  do gozo. É o verbo enquanto substancia da carne que nos faz palavra e discurso. Daí outro conflito, entre a organização erótica fundamental e o erotismo submetido à linguagem. Somos camadas de conflitos, eis o vivo logo sou (estou). 

3 comentários:

  1. Antes de ler esse texto EXCELENTE, postei em meu FACEBOOK minutos antes, a respeito de Lispector e eu, amparada por Baco, as seguintes a respeito d Lispector...
    Engraçado como a poesia por Filosofia, projeta-se como unânime em pensamentos...

    Segue o q postei a respeito d Lispector, onde a mesma diz:
    "Não entendo, apenas sinto. Tenho medo de um dia entender e deixar de sentir."
    Clarice Lispector

    ao meu ver, d certa forma, s encaixa em PSICOQUÊ?

    o q postei: Lispector baby...no Mundo atual, que é o da MATURIDADE, aprendemos a Entender sim...porque às x não podemos sentir...e então, devemos procurar palavras para explicar a nós mesmos que algumas coisas não podem caber mais em nossas vidas...ISSO É MATURIDADE...SENTIR E SUPRIMIR, ENCARAR DE FRENTE E GUARDAR ALGUNS SONHOS, que existirão sim...somente em nossas memórias, como aprendizados...transformar em lição, Reprimir-se de uma certa forma.

    Lembrar é Sentir...acorrentados a Paradigmas criados literalmente para DOUTRINAR O HOMEM. Entender isso...é Filosofar a Vida. Mais a frente com certeza, quando as lembranças existirem mais do que a própria ânsia d Existência, aí sim, no auge da Transmutação final, sentiremos SAUDADES d todos os SONHOS que REALIZAMOS e tbm dos que SUPRIMIMOS em função de escolhas...Essa Consciência de VIVER FELIZ a partir do que se ESCOLHE, é que deve permanecer em todos os momentos de nossas vidas...Mesmo porque não dá para trilhar vários caminhos ao mesmo tempo.

    SIGAMOS INDIVISÍVEIS!

    Gd Abraço!!!

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  2. Para esclarecer melhor meu ponto de vista, discurso a respeito da Consciência inconsciente de Multiversos...Existimos em vários níveis de Consciência e Inconsciência em variadas Atmosferas de Existência.

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  3. Eu, Fabíola Kirita e Tadeu Kirita, lendo, refletindo "Psi" e Admirando nossas vidas e pensamentos, sentimentos e aprendizados d uma Existência Consciente...

    Parabéns pelo texto e contexto. PERFEITO!

    obs. Eu lendo e Tadeu montando sua tese de ESPECIALIZAÇÃO em ORTODONTIA. Sempre cabe em nós.

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