quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Coluna: NAU DOS LOUCOS

PSICODRAMA E TEATRO TERAPÊUTICO: UM RESGATE DA ESPONTANEIDADE
Por Renan Vieira

“Essa guerra – dentro de nós próprios – é a Revolução Criadora”.
                                                                           [J. L. Moreno]
Comumente evocam-se determinadas “habilidades” humanas para se falar do nosso desenvolvimento, de nossa adaptação e de nossa adequação social; habilidades essas que alguns arriscam chamar de “funções cerebrais”. Dentre as que mais são mencionadas, temos constructos como inteligência, memória, libido, etc. Estas funções são, de fato, construções teoréticas que estruturam nossas bases de vida e que se encontram presentes em diversas das ações e situações sociais em que atuamos diariamente.
Todavia, há um movimento curioso de esquecimento de outros aspectos que também são estruturantes de nossa constituição subjetiva, e que também estão presentes enquanto “funções cerebrais” que não seriam – necessariamente – frutos das outras ou partes integrantes das primeiras; seriam unidades funcionais em si. Neste hall, poderíamos colocar a criatividade, a inventividade e a espontaneidade.
Espontaneidade, enquanto definição de Jacob Levy Moreno (pai do Psicodrama ou Sistema Socionômico), diz respeito à capacidade humana de dar respostas a novas situações (ou situações-surpresa) ou de dar novas respostas a antigas situações. Esse conceito se constrói como base da teoria psicodramática, e vai alicerçar sua prática clínica e sócio-pedagógica.
No ideário de muitas pessoas, a primeira idéia que se constrói sobre o Psicodrama (também chamado de Teatro Terapêutico) é que este seria uma técnica que trabalha com elementos conjuntos do teatro estético e da psiquiatria/psicologia. Temos aí, de cara, alguns equívocos. Primeiramente, o Psicodrama não é uma técnica. Moreno o define da seguinte forma, ao dizer: “Historicamente, o Psicodrama representa o ponto decisivo na passagem do tratamento do indivíduo isolado para o tratamento do indivíduo em grupos; do tratamento do indivíduo com métodos verbais para o tratamento com métodos de ação”.
Ao definir o psicodrama dessa forma, Moreno o coloca na condição de constructo (psico)terapêutico, focado no trabalho com o sujeito através de técnicas e dispositivos dramáticos, que eliciam e incentivem o potencial criador do sujeito em questão – onde a porta de entrada desse potencial criador é o des-envolvimento da espontaneidade. Des-envolvimento pela necessidade de libertá-la das demarcações e delimitações sociais provocadas pela organização societal (as chamadas conservas culturais); e desenvolvimento pela necessidade de estimular e ampliar as combinações e as respostas possíveis dos sujeitos frente às situações da vida cotidiana. Ainda neste ponto, Moreno afirma que “o ideal é estar livre de restrições; de um lugar e de um produto criativo previamente determinado. Ambos delimitam o pleno e irrestrito surgimento da espontaneidade”.
Seguidamente, é preciso dizer que o Psicodrama não é Teatro em si, pelo menos não nos moldes a que estamos acostumados a pensar o Teatro. A idéia do teatro convencional (a que tomarei a liberdade de chamar aqui de teatro estético) tem por essência a representação de um papel pré-definido para ser apresentado a outrem, sem expressar – diretamente – o drama factual de nenhum dos indivíduos envolvidos (o autor, o ator ou o espectador). O objetivo do psicodrama é utilizar-se da possibilidade dramática e criadora na tentativa de colocar o indivíduo frente à realidade e à factualidade de seu próprio drama pessoal, porém socialmente compartilhado em sua base. Sobre isso, o próprio Moreno também nos diz que “este é o drama em que cada homem é o seu próprio autor, ator e público”.
Neste sentido, após estas breves desconstruções, poderíamos perguntar: então, o que de fato é o psicodrama? Sobre o que, em verdade, ele se debruça? Estas perguntas poderiam, de forma bastante sucinta, encontrar algum alento na seguinte citação de Moreno:
“O teatro para a espontaneidade foi o desencadeamento da ilusão. Mas essa ilusão, passada ao ato pelas pessoas que a viveram na realidade, é o desencadeamento da própria vida – das Ding ausser sich (a coisa fora de si). [...] Mas essa louca paixão, essa revelação da vida no domínio da ilusão, não funciona como renovação do sofrimento; pelo contrário, confirma a regra geral: toda e qualquer segunda vez verdadeira é a libertação da primeira. Libertação é uma definição exagerada do que ocorre, pois a completa repetição de um processo faz com que o seu assunto pareça absurdo ou ridículo. Obtém-se, a respeito de nossa própria vida, a respeito de tudo o que fizemos e fazemos, o ponto de vista do criador – a experiência da verdadeira liberdade, a liberdade em relação à própria natureza. A primeira vez faz com que a segunda vez redunde em riso. Falamos, comemos, bebemos, procriamos, dormimos, estamos despertos, escrevemos, lutamos, discutimos, ganhamos, perdemos, morre-se também, na segunda vez – de maneiras psicodramáticas. Mas a mesma dor não afeta o ator e o espectador como dor, a mesma carência não os afeta como carência, o mesmo pensamento não os afeta como pensamento. É algo indolor, inconsciente, impensado, imortal. Cada figura viva nega-se e resolve-se a si mesma através do psicodrama. Vida e psicodrama compensam-se mutuamente e afundam-se no riso. É a forma final de teatro”. [J. L. Moreno – Psicodrama – 1975]
Ao que nos parece, em resumo, Moreno apresenta o Psicodrama como um sistema que possibilita o “reinventar” da vida, através de uma, digamos, “ressignificação” da própria vida. A proposta é que ilusão e realidade se confundam não de maneira aleatória, ou descuidada, mas sim como um instrumento de confrontamento com a própria realidade, escancarada frente ao sujeito que a enxerga ante sua própria factualidade; o que, como diz Moreno, conduziria ao riso pela obviedade do ato e do fato. Ao reencontrar-se consigo e com o fato no palco dramático, possibilita-se ao sujeito re-observar a realidade como está construída, sem necessariamente ter que digeri-la como da primeira vez: eis a tal libertação (ou re-construção) produzida pela hipotética “segunda vez”.
Há quem diga que Moreno, em comparação com as teorias psicanalíticas de Freud, tente produzir sujeitos baseados na mentira, como retórica pela afirmação que o próprio Moreno faz de que Freud trabalharia as pessoas em um ambiente artificial, enquanto ele o faz in vivo. O fato em si, que é alvo de nosso interesse, é reconhecer que ambos os sistemas (a despeito da eventual acidez de Moreno com relação às construções freudianas) querem abrir os olhos do sujeito frente ao conhecimento que ele detêm, e que ali está, não acessado. Freud produzirá esse contato pela linguagem; Moreno o fará pela ação dramática (que envolve, por sua vez, também a linguagem).
Moreno, ao questionar o lugar da espontaneidade em nossa construção societal, evoca a constante tentativa de abafar um potencial criador que é edificante da estrutura humana, e que nos possibilita encarar a vida (e o viver) a partir da experiência e do experimentar. Da negação desse lugar (ou seja, da aceitação e da estimulação desse potencial criador), nos é possível encontrar formas talvez não indolores de responder às situações da vida, mas nos é permitido, ao menos, experimentar o risco da queda e da ascensão, o que vai ser sabiamente resgatado por Nietzsche ao dizer que o homem insiste em “preferir um punhado de ‘certezas’ a toda uma carroça de belas possibilidades”.
É lógico que o Psicodrama não é o sistema que revolucionará todo o modo de vida moderno humano – até porque, creio eu, nenhum sistema teórico o fará – mas ele é uma proposta de enfrentamento ao que se coloca como dado, como fechado e como determinado, trazendo de volta uma coisa da qual facilmente nos esquecemos, mas da qual é impossível correr: a nossa possibilidade de escolha, mudança e transformação.
“Contudo, em especial na esfera humana, é impossível entender o presente social se não tentarmos mudá-lo”. [J. L. Moreno]

Referências Bibliográficas
MORENO, J. L. Psicodrama. São Paulo: Editora Cultrix, 1975.
MORENO, J. L. Fundamentos do Psicodrama. São Paulo: Summus, 1983.
NIETZSCHE, F. W. Além do Bem e do Mal: Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. São Paulo. 1992. Cia. das Letras.

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