segunda-feira, 7 de novembro de 2011

PSICOLOGIA COMUNITÁRIA É PSICOLOGIA?


Por David Vieira


Às vezes, em discussões que possuem como tema formação ou atuação em psicologia, me deparo com alguns dizeres de que a Psicologia Comunitária não deveria estar no currículo como obrigatória ou que não consegue entender o que há de psicologia na psicologia comunitária.

Estudo em uma universidade que tem a disciplina dentro do seu quadro de obrigatórias. Apenas uma disciplina de psicologia comunitária, e que alguns estudantes consideram demais. “Nosso curso é muito voltado para psicologia comunitária”, dizem. Aqui no Ceará é assim mesmo: enquanto muitos estudantes de outros currículos pelo norte e nordeste sonham em ter a disciplina pelo menos dentro do quadro de optativas, desfrutamos de uma disciplina inteira que é desvalorizada.

Um movimento que é muito engraçado, aliás. A psicologia comunitária que estudamos aqui no Ceará é uma psicologia comunitária que nasceu no Ceará, contextualizada com a realidade do Ceará, e comprometida com a transformação da realidade do povo oprimido e explorado do Ceará, através do seu quehacer psicológico. Entretanto, na Universidade Federal do Ceará, que tem como missão produzir e colocar seus conhecimentos a serviço da população do Ceará, possuir uma disciplina para um modelo de psicologia nascida no e para o Ceará é encarada como muito.

Mas, voltando a pergunta... A Psicologia Comunitária é Psicologia?

Para responder a esta pergunta, é preciso responder outra: O que é psicologia? O que é necessário a um saber para que ele seja considerado um saber psicológico? Basicamente todo projeto de ciência psicológica ou saber psicológico tem como fundamento que seu problema e que seu objeto de estudo se proponham as questões do psiquismo ou da subjetividade humana. Ou, em outros termos, sua consciência (ou inconsciência). E, caso seja este o referencial de saber psicológico adotado, a Psicologia Comunitária, ou pelo menos a cearense, é uma psicologia, sim!

Por quê?

Seu objeto de estudo não é a comunidade, mas o “Reflexo psíquico do modo de vida comunitário”, ou em outras palavras, a consciência. Embora não qualquer consciência. Trata-se de uma visão de consciência (o que implica em uma visão de homem) que parte da Psicologia Histórico Cultural, de Vigotsky, Leontiev e Luria; e com toques de Paulo Freire.

Este saber sobre a consciência pressupõe que a consciência não é uma existência a priori e isolada do mundo, mas uma existência a posteriori, que se dá em contato com a realidade material e concreta, sendo, assim constituída a partir do lócus de subjetivação humano, seja um condomínio ou uma comunidade. No caso da Psicologia Comunitária, por causa de seu compromisso ideológico de estar a serviço das camadas exploradas da sociedade, que falamos de uma consciência que parte do modo de vida comunitário. Por isto seu nome, reflexo psíquico, pois a consciência é reflexo do modo de vida material e concreto, embora também simbólico e afetivo, que se dá em seu lócus de subjetivação.

E qual o seu problema? Seu problema é um problema de consciência: como um sujeito que é explorado, mas que, de forma coletiva, possui o poder para romper com esta relação de exploração, não se reconhece enquanto explorado, não se reconhece enquanto parte de uma coletividade, de uma classe, e como ele não reconhece que, coletivamente, é capaz de transformar as condições concretas de sua existência?

E a atuação em psicologia comunitária se coloca no caminho da facilitação, em cooperação com os moradores e sujeitos comunitários, dos processos de aprofundamento de uma consciência de si e do mundo mais críticas, que rompam com o fatalismo (um processo profundamente subjetivo) e com a ideologia de submissão e resignação.

Assim, concluo colocando que a psicologia comunitária é considerada sim uma psicologia, pelas suas especificidades. Uma psicologia Cearense e para os Cearenses, sertanejos e nordestinos. E cabe a problematização: Por que há de se querer tirar do campo da psicologia teorias que fujam da atuação tradicional e impregnada da neutralidade cientifica? Por que querer tirar do campo da psicologia teorias que não foram importadas, mas que nasceram da tentativa de responder aos problemas locais de forma mais contextualizada? Por que chamar de sociologia as teorias psicológicas que buscam maior cuidado com o contexto, como se o contexto e a sociedade não coubessem à psicologia?

Por que insistimos em reproduzir na psicologia moldes individualistas, assépticos e (supostamente) neutros, ao invés de nos questionarmos o quanto que nossos modelos de atuação realmente respondem as necessidades de nosso povo ou não?


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