quinta-feira, 9 de junho de 2011

A psicologia em situações de emergências e desastres

Matéria “A Psicologia em situações de emergências e desastres”
Entrevista com a psicóloga Angela Elizabeth Lapa Coêlho (CRP 13/0613).


01. Qual o marco inicial da atuação do psicólogo no amparo a pessoas em situações de emergências e desastres?


No Brasil, ele inicialmente era feito no momento pós-desastre, mas a perspectiva que se está buscando agora é que o psicólogo esteja inserido desde a etapa da prevenção, preparação, da resposta e da reconstrução. Estamos buscando uma participação do psicólogo em todas as etapas para tornar as comunidades mais seguras. Na medida em que se discute prevenção com as comunidades, você começa a expor as desigualdades sociais. Muitas pessoas são empurradas para viver em regiões de risco e isso as coloca em risco.


02. Qual o papel do psicólogo em situações emergenciais e no momento pós-desastre?


O psicólogo, no momento pós-desastre, tem várias linhas de atuação, mas ela será mais otimizada e melhor entendida se ele já fizer parte dessa equipe. Porque a comunidade já vai conhecê-lo e entender como se processa todo aquele trabalho. As pessoas, muitas vezes, têm uma imagem estigmatizada do psicólogo, daquele atendimento tradicional dentro da visão de diagnóstico .


03. De que maneira uma situação de emergência e desastre atravessa as diversas áreas de atuação da Psicologia?


O atravessamento acontece porque você vai trabalhar desde a prevenção, a partir de atividades em escolas, unidades básicas de saúde, nos Centros de Referência e Assistência Social (CRAS). O que nós temos que fazer é descobrir e utilizar as metodologias participativas. Eu já trabalhei em atividades básicas de saúde e também em CRAS e, nesses locais, nós montamos grupos, oficinas, dentro da perspectiva de colaboração. A comunidade vai dizer o que interessa a ela trabalhar. Não é o psicólogo que traz o tema a ser discutido previamente, ele apenas favorece uma situação grupal e, dentro dela, as pessoas trazem as reivindicações que querem. Algumas áreas da Psicologia já estão utilizando essa abordagem. É uma possibilidade de um trabalho voltado para um protagonismo social no qual o psicólogo vai fazer parte dessa descoberta de uma comunidade que vai ver possibilidades de mudança.


04. De que forma o psicólogo deve atuar em relação à prevenção de emergências e desastres?


Às vezes, as pessoas têm dificuldade de entender como trabalhar com uma situação que ainda não ocorreu. Então, você vai trabalhar em escolas e comunidades para discutir e saber se as pessoas têm noção de que estão morando em área de risco. Isso exige um engajamento e uma preocupação ampliados com a situação de moradia e onde as pessoas estão exercendo suas funções. Ao mesmo tempo em que se discute isso, também se tem a oportunidade de discutir as questões relacionadas ao lixo, questões ambientais vivenciadas por aquela comunidade porque geralmente a gente só discute a questão do risco depois do evento.
A partir do momento que começa um trabalho de educação e sensibilização, isso pode ter um efeito de prevenção a médio e a longo prazo. A nossa proposta de trabalho não é dentro dessa perspectiva. Porque a reação das pessoas na situação pós-desastre é normal, o anormal é você perder tudo que tinha em questão de segundos. Com essa proximidade nos abrigos, fazendo parte das equipes que distribuem alimentos, fazendo parte das pessoas que vão acolher as crianças, dentro de uma perspectiva de possibilitar que aquelas pessoas tenham um momento pra vivenciar o luto, um ambiente de proteção, conhecimento da situação dos familiares, para ver se eles estão no mesmo local e manter o sentimento de agregação. Com o atendimento continuado e o planejamento, o psicólogo vai poder estar desde o trabalho nos abrigos até o retorno às casas. Daí o interesse de ser uma política pública, de o psicólogo fazer parte das equipes desde o início e que essa questão seja sempre discutida e não apenas quando ocorre a situação de desastre. Porque fica muito naquela questão focal e não há um entrosamento com a comunidade, dificultando o trabalho porque ele desconhece o cotidiano daquelas pessoas. Aí, num caso emergencial, eles vão se aproximar daquela comunidade com muito mais propriedade.


05. Qual o papel da Psicologia na percepção de risco?


A percepção de risco deve ser trabalhada no sentido que nem todos a entendemos da mesma maneira. Um exemplo concreto é a questão do trânsito; algumas pessoas acreditam que precisam parar nos sinais vermelhos, não podem levar crianças abaixo de 10 anos no banco da frente e você outras pessoas fazendo isso diariamente. Então a forma das pessoas perceberem o risco está atrelada a vivência dela com aquele ambiente e também relacionado a questões socioeconômicas. Muitas vezes, as pessoas pensam “como morar nesse lugar?”, mas não levam em consideração que aquela pode ser a única opção. Alguns chegam para conversar comigo e dizem que moram em determinado lugar porque seus recursos não são suficientes para morar em um local mais seguro. Então, quando você vai trabalhar percepção de risco, você também vai discutir outras questões que estão atreladas a vivência daquela comunidade. Uns dizem que a preocupação maior é com os filhos, com a educação deles. Então, a vida e a exigência do dia a dia deles não permitem que eles tenham uma visão a longo e médio prazo. Se você não entender como eles percebem a vida e o dia a dia, fica difícil discutir prevenção.


06. De que forma a Psicologia deve se implicar aos discursos engendrados em situações de emergências e desastres?


A Psicologia tem que entrar no sentido de discutir todas essas possibilidades e abandonar essa visão diagnóstica, de vitimização e ver as pessoas como protagonistas que podem, juntamente com os psicólogos, trazer conhecimentos para que se descubram novos caminhos para prevenção.


07. De que forma esses discursos contribuem para a culpabilização e criminalização das pessoas que moram em áreas de risco?


A partir do momento em que as pessoas que são responsáveis por transmitir as notícias e divulgar as informações não tiverem essa concepção ampliada de como essas estruturas são agregadas, elas vão continuar com essa visão mais simplista, de buscar um culpado pra tudo. Na medida em que nós compartilhamos as decisões, nos responsabilizamos da mesma forma pelas conseqüências.


08. Qual a importância do debate do tema na academia?


Por isso, a importância de trazer os debates pra academia. Os psicólogos e demais profissionais que estão sendo formados vão trabalhar na ou com a comunidade. Então, se o conhecimento que eles recebem nas universidades e nos outros setores de formação não tiver essa perspectiva comunitária de discussão, vai ficar um saber isolado. Porque quando ela se formar, ela vai pra uma comunidade que ela desconhece e vice versa. Então, tem que ter uma articulação entre as universidades e instituições de ensino, a comunidade e as agências que administram esse acesso ao serviço. Se não houver um diálogo entre essas três instâncias, a gente nunca vai chegar a um projeto comum que tenha efeito de fato.


09. O que o Brasil ainda precisa fazer a respeito do assunto para que alcancemos êxito de países pioneiros como o Chile?


Por muitos anos, nunca pensamos que o Brasil fosse um país em que ocorressem desastres. Porque tínhamos a ideia de que desastre estava atrelado somente a causas naturais como terremotos, tsunamis, eventos súbitos que matavam muitas pessoas ao mesmo tempo. Enchentes, secas, ocorrem no Brasil há anos. Mas como isso não era discutido e nem trazido, acho que só agora o Brasil está se dando conta dessas questões e trazendo a academia e a comunidade para o debate. Não adianta só um grupo discutir; creio que, dentro da Psicologia, nós devemos ter uma perspectiva de prevenção e promoção da saúde. Eu respeito muito a clínica, mas acho que a Psicologia pode ampliar suas áreas de atuação, inclusive ao que diz respeito à promoção da saúde e aos cuidados paliativos. Nós não precisamos ficar com um único eixo de atuação. A partir do momento em que a Psicologia se dispõe a dialogar com outras áreas do saber, elas também vão ter conhecimento sobre o que nós fazemos. Muitos inclusive desconhecem o que fazemos numa situação dessas porque têm aquela visão tradicional do trabalho do psicólogo. Então, quando se apresenta outra proposta, participativa e de integração com a comunidade, abrem-se novas formas da prática para o psicólogo.


10. De que forma o poder público pode fomentar debates na sociedade sobre o tema?


Trazendo a discussão do trabalho do psicólogo dentro de uma política pública. Porque, até onde tenho conhecimento, não há nada em andamento.




Fonte: http://unipe.br/blog/psicologia/?p=464


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